Créditos: Divulgação/ Acervo pessoal de Jucinaldo Pereira.
09-01-2026 às 12h10
Jucinaldo Pereira*
Era uma vez um menino que tinha um sonho de escrever uma história. Todos os dias ele pegava seu lápis, seu caderninho de anotações, sentava-se no quintal de sua casa e esperava que alguma história surgisse de sua cabeça. Passava horas pensando, rabiscando, e nada de uma história concreta e real…
Certo dia, sentou-se e ouviu um canto de pássaro. A melodia daquela música vinha de muito longe, e, quanto mais ele se concentrava, mais aquela música se aproximava. Era o encontro do menino com um pássaro cantador. Não era um pássaro comum: ele cantava ao mesmo tempo em que o menino ria, chorava e ficava pasmo com tamanha sabedoria de suas histórias. O menino perguntou pelo seu nome e, prontamente, respondeu cantando: Rouxinol.
Um Rouxinol pode ser ouvido cantar dia e noite a uma distância incalculável. Seu canto mistura-se a assobios, trinados e gorgolejos, uma voz que possui mais de duzentas variações. Trata-se de um pássaro migratório, capaz de viajar da Europa à África para buscar novas composições e inspirar muitas canções e narrativas.
Curioso, o menino começou uma série de perguntas, uma atrás da outra: Quanto tempo você viajou até aqui? Onde você nasceu? Por que parou no meu quintal? Por quê?…
O Rouxinol o interrompeu cantando: Sou o Rouxinol Mineiro, nasci na Fazenda da Reserva, em Minas Gerais, viajei por muitos dias para lhe contar uma história; e meu desejo é que você a receba para escrevê-la em seu caderno. Depois que eu partir, você poderá contá-la do seu jeito, da sua maneira.
Cada assobio, uma rubrica; cada trinado, um ato; cada gorgolejo, uma cena. E o menino escrevia tudo em seu caderninho com o máximo de atenção, mesmo sem entender o significado de algumas palavras. Enquanto o Rouxinol Mineiro cantava sua história, era interrompido por risos e admiração. Aquele pássaro era diferente, suas penas eram coloridas. Certamente, cada cor carregava um canto, uma história ou uma poesia.
Depois de ter findado a história, o silêncio… O menino relia tudo que escreveu silenciosamente. Ao final, suspirou o nome dos protagonistas daquela história: Novato, Tereza, Eugênio, Zé Leite e Pindoba. “E agora, Seu Rouxinol Mineiro, o que faço com todos eles?”.
“Eh, menino, eu tenho de partir! É preciso partir para que as histórias ganhem asas e possam voar longe, tanto quanto eu. Sempre que você quiser se lembrar de mim, leia essa história. Algum dia, você a cantará para outras pessoas. Eu ficarei mais bonito e você se enfeitará e enfeitiçará a quem escutá-la.”
O Rouxinol Mineiro preparou-se para mais uma viagem, abriu as asas e deu um salto em direção aos céus.
O menino, em voz alta, cantarolou uma pergunta: “Qual o nome dessa história?”. O lindo pássaro pousou no teto da sua casa, olhou para o menino e cantarolou, respondendo-o: “Na Roça!”.
“Se me permite, pássaro cantador, o que faço com esses personagens?” Cantarolou o menino.
“Você deve cantá-los assim”, respondeu o Rouxinol:
No frigi desta manteiga
Não sei quem caiu no logro.
Seu Novato vai ter genro,
Seu Pindóba vai ter sogro.
Seu Pindóba segura a menina,
Siá Ogeninha caiu na laçada,
Siá Tereza segura o Novato
Que o Zé Leite segura a bolada!
Cantado seu verso, o pássaro contador bateu asas e voou.
Todos os dias, e por muitos dias, lia, relia o texto do Rouxinol Mineiro. Aos 42 anos, o menino, agora homem feito, formado em Artes Cênicas, resolveu cantar a história “Na Roça” em 9 de agosto de 2016, no Teatro Ivaldo Lucena, na cidade de Bananeiras, brejo paraibano.
O espetáculo “Na Roça” nasce de um projeto de extensão universitária que liga a academia à sociedade através de trocas de experiências de ensino e aprendizagem. “Teatro-Educação: a comunicação entre a literatura e a linguagem cênica no campus de Bananeiras” apoderou-se da linguagem cênica para investigar a prática teatral dentro da universidade e estendê-la à comunidade estudantil da cidade de Bananeiras. O projeto buscou trabalhar com as artes cênicas de forma diferenciada com crianças e jovens, privilegiando a investigação teatral, a pesquisa por referências e a criação de cenas a partir da literatura universal, brasileira e paraibana.
O projeto se fortaleceu ao fugir das fórmulas prontas e investigar novos formatos, mostrando que crianças, jovens e adultos também podem produzir um material qualificado e profissional. O foco não era somente a formação integral e artística, mas qualificar o produto construído durante a execução do projeto.
Dessa forma, abri meu caderninho, contei a história do Rouxinol Mineiro e todos se alvoroçaram para se debruçarem sobre esse texto. O resultado? Deixarei as imagens falarem:






Os personagens encantaram um público que me perguntou: “Quem contou essa história?”.
Respondi cantarolando: “Vem de longe. Um pássaro que me contou; ele é conhecido como Rouxinol Mineiro e nasceu na Fazenda da Reserva, em “Vargem Grande” (antigo distrito de Juiz de Fora – atual município de Belmiro Braga, Minas Gerais).”
E foi assim que recontei a história, contada por crianças e adolescentes que acreditaram nas tantas histórias contadas e cantadas por esse autor que atravessou territórios e pousou em terras paraibanas. Mas o canto não acabou. Ainda hoje, desejo contá-la de outra forma, talvez de outra perspectiva, com outro olhar…
Você, caríssimo leitor, deve estar se perguntando: “Por que não canta?!”
Teve um pássaro cantador, aqui na Paraíba, que também cantava histórias e atravessou territórios, dizendo: “Não sei, só sei que é assim…”
*Jucinaldo Pereira é Ator, Diretor e Professor de Teatro. Natural de Patos, na Paraíba, adotou a cidade Pocinhos, no interior do Estado, para vivenciar suas primeiras experiências artísticas e foi acolhido na capital paraibana para se profissionalizar. Em Bananeiras, no brejo paraibano, as suas experiências artísticas foram traduzidas em espetáculos encenados por crianças e jovens. Mestre em Computação, Comunicação e Artes pela Universidade Federal da Paraíba, licenciado em Teatro pela mesma universidade, especialista em Arteterapia com ênfase em teatroterapia e servidor público de Caruaru, Pernambuco. Desenvolve pesquisas relacionadas às máscaras teatrais na escola, nas performances do ator/perfomer mascarado e nas relações entre tecnologia e encenação. O fotolivro “As caras de Juventino Maravilha” foi seu último trabalho, fruto da sua pesquisa no Mestrado.

