
Com o esquecimento o seu mundo encolheu - créditos: divulgação
Getting your Trinity Audio player ready...
|
05-04-2025 às 16h16
Rita Prates (*)
Aos setenta e três anos ela manifestou esquecimento de quem era, e não reconhecia os membros da família. Foi se envolvendo em uma neblina que apagavam rostos e recordações. Passou a mergulhar em águas turvas e em ondas que a lançavam para o alto com euforia e, ao cair, rolava em areias ásperas e pedras pontiagudas deixando-a atordoada, desfocada da realidade.
Aos poucos o seu mundo encolheu, virou fragmentos de peças sem sentido, que não se conectam e formam figuras desvairadas. Tudo ao seu redor foi se rompendo, retratos de família sem rostos. Pessoas estranhas que se dizem seus filhos, falam que a ama, mas a vigiam. Estão sempre chamando a sua atenção por pequenas distrações, e lhe cobram lucidez.
Está cercada de rostos desconhecidos, de histórias que não são suas, beijos e abraços que a deixam atordoada. Vagas lembranças, vagos passados, sons que a transporta para um lugar distante, perdido em décadas.
Com o tempo passou a misturar o certo com o errado, o direito com o esquerdo. Passou a caminhar por estradas tortuosas em que via animais vindo em sua direção, pássaros que entravam pela janela no lombo do elefante e girafas que ficavam de vigia na porta da sua casa. No início para todos uma brincadeira, depois preocupação e angústia de vê-la entregue em alucinações.
Quando o detergente virou café, o sabão cortado em pedaços se transformou em queijo, e a água da pia a escorrer pelos seus pés virou mar, tiveram que aceitar que a mãe havia se transportado para o mundo de Alice.
Passava noites em claro a cantar músicas empoeiradas. Resistia em banhar-se, e aos gritos e choros pedia socorro aos vizinhos para tirá-la do chuveiro. Algumas vezes a encontrava nua circulando pela casa, ou dando o peito a uma boneca que chamava de filhinha.
Quando se sentia exausta de tanta rebelião, ficava muda por vários dias, presa em um mundo de névoas e solidão. Quando despertava vinha carregada de palavrões, que jamais falou durante toda a sua recatada vida.
A filha Lúcia se incumbiu de cuidar da mãe. Os irmãos deixaram em seu lombo a responsabilidade de carregar essa carga preciosa, frágil, mas muito pesada. Perdida no que fazer, Lúcia se viu dividida entre viver ou se deixar cair no mais alto grau de estresse.
Com o tempo a vida de Lúcia foi perdendo o brilho e se tornou cinza. O trabalho na loja aliviava o seu espírito, mas ao chegar em casa se deparava com os constantes atritos entre a mãe e a cuidadora. Assumia o posto, e se preparava para a missão que lhe corroía, lenta e constante a sua energia.
Lúcia foi aos pouco consumida pela dor, dor de ver a mãe antes tão lúcida, dinâmica e feliz, agora entregue às trevas. Dor de não poder tirá-la das águas profundas, que lhe dilaceravam os tímpanos e a tornava alienada para a vida.
Envolvida pelos desvaneios da mãe, Lúcia com o tempo se deixou levar no vácuo do sofrimento, do desgaste físico e mental. O seu corpo pedia socorro avisando-a para parar. Passava muitas noites em claro, a depressão abraçou-a com força, arrastando-a para uma angústia sem fim, e as doenças brotavam como espinhas pelo seu corpo frágil.
A fé foi se afastando de Lúcia, como uma estrela que pisca lentamente até se perder na escuridão. Também a chama da esperança se apagou, deixou-a sem perspectiva, sem sonho e sem rumo.
O único irmão que estava sempre atento ao sofrimento de ambas lhe deu a mão. A saída que ele viu era internar a mãe em uma clínica especializada. Todos o condenaram, inclusive ela. Porém a sua energia havia despencado em um abismo de desesperança e Lúcia já não tinha forças para resistir.
Ela só tinha uma certeza, atravessaria a fronteira da vida para a morte antes da mãe. No fundo já desejava isso, queria descansar e essa seria a sua escapatória, a sua libertação.
Encontro Lúcia um mês depois da internação da mãe em frente a sua loja. O desbotado de sua face está saindo aos poucos. Parece mais serena, menos tremores na fala e nas mãos. Sorri com dificuldade, terá que reaprender a ser mais leve.
Lúcia me conta que está fazendo terapia, mas vejo que ainda carrega uma nuvem de culpa sobre a sua cabeça. Diz que fez o possível e o impossível pela mãe, e que o tempo foi cruel com ambas e as massacrou com mãos de ferro.
– Vou superar, me disse Lúcia ao me abraçar. – Vou vê-la duas vezes na semana. Lá ela está mais saudável, ri, cuida do jardim, canta e às vezes me chama de mãe.
Quando pergunta para a mãe se quer voltar para casa, ela diz:
– Tá doida! Aqui é a minha casa.
Mostra no quarto as fotos da família e diz que são as suas amiguinhas. De repente sai de perto, quer ir para aula de dança, de desenho ou conversar com as amigas.
– Estou tentando resgatar um pouco do que sobrou de mim, afinal foram dez anos de tentativas frustradas que nos consumiram, desabafa Lúcia.
– Tenho que me dar um tempo para sair desse luto branco, mas profundo. Poucos entenderão o que estou passando, é o alívio carregado de tristeza.
Sigo em frente. Ao me virar a vejo ainda com um olhar perdido, acena e entra na loja de braço dado com a esperança.
(*) Rita Prates é mestre em Administração, professora de graduação e de pós-graduação em Gestão e possui grande vivência em consultoria na área de Gestão Empresarial.