Ilustração - créditos: arquivo pessoal por IA
15-03-2026 às 07h32
José Altino Machado (*)
Dos onze que éramos, bem após perdermos duas das irmãs, uma em acidente num dia de chuva pesada, em louca rodovia (381), outra para o já bem notório câncer de mama, em sete de março de 2024, lá se foi outra.
Esta, a primeira de toda a turma, indiscutivelmente a mais chegada ao segundo, que sou eu; sendo a terceira, que há mais tempo foi colhida pela fatalidade, nascida logo após a mim, sendo meu braço direito, como também minhas pernas… as duas.
Delas, sempre muito querido, por elos de amor e até, como dizem, bem paparicado. Muitos dos meus dias bons, foram ligados a elas. Se uma, muito valor dava às minhas, vez por outras, atrapalhadas relações e sentimentos, correndo sempre a ajudar cicatrizar e lamber feridas, a outra, cuidava de tudo que eu seguia construindo.
Logo eu que muitas prosopopeias arranjei mundo afora, jamais, nunca mesmo, sequer imaginei, sobreviver às duas. Tantas e tantas horas de voo sobre terras e florestas sem fim, com olhar fixo nos hélices, para não os ver parar, domando e costumando ajeitar o medo, para que não interferisse no trabalho, sobrei, entregue a velhice, e de novo casando-me com uma senhora chamada solidão, cuja vantagem única é ficar a produzir recordações, danadas, bastante seletivas, só gostando das boas, as ruins, mantendo em arquivos “deletáveis”.
Interessante o uso desse modernismo em dizer deletados, mas é “vero”, aprendizado científico novo. Memória de idoso é tal qual de computador ou telefone, acumula tantos gigas que começa a travar. Tô nessa…
E por falar em telefone, por longos anos os procurei ignorar, deles reclamando por tocarem toda hora. Hora não, a minutos. Neste tempo já não tocam tanto, mas ainda satisfatoriamente, entretanto já causando receios de não mais tocarem. Nem tanto por me ignorarem, mas por tantos companheiros e amigos que já partiram. Muitos deles sequer aguardando seus cabelos se tornarem prateados.
De fato, também esta é outra emoção que tem me assolado, a da sobrevivência e não tem graça nenhuma. A tristeza se torna profunda quando se observa que tantos e leais amigos se foram. E ainda vem acompanhada da saudade, bem definida em resposta de velho sertanejo a Euclydes da Cunha, do que seria saudade: “ôô Doutor, saudade é vontade de ver de novo”. De fato, daqueles que ainda é possível até gostoso o sentimento, mas de quem já se foi, ela chega ao doer físico.
Principalmente se o ser envolvido for um filho ou filha, aí é amargura que jamais passa, restando somente aprender a conviver com ela. As recordações sempre alimentadas por sofrimentos e magoas, nada importando o tempo do falecimento. Indiscutivelmente, aí a frente, modifica, bem a melhor comportamentos de pais e mães. Darão sempre atenção também às dores alheias, sejam elas quais forem.
E como sei disso…nem um mês do evento, arrancou-nos das raízes, levando junto prole de mais quatro rebentos. Como sempre diz minha filha mais velha, fomos para o mundo.
A família até meio que parou, mas eu que já cavalgava asas, fui bem para lá do fim do mundo e, se o corpo meio cansado manifestou vontades e desejos de voltar, o espírito, nem pensar, por lá longe ficou.
Amazônia, onde voei as instancias dos céus e fiz troços inacreditáveis. Chegando a obedecer ao código não escrito naquela vasta região que, ao se cruzar três rios, está autorizado a juntar-se a outra companheira. Quanto a isso há polêmica mas, deixando de lado qualquer sacanagem, chega a ser bom pra daná…
Um dia, um tempo, meio que companhia de mulheres, irmãs e nova companheira, fizeram que me tornasse andarilho, nem tanto entre as nuvens, mas bem mais das estradas pelo maravilhoso país que sempre vira dos céus. Aventuras mais que fabulosas que pensava sequer mais poder apreciá-las com devida atenção. Algo que sempre vira do alto, como sertões sem veredas, antes que se tornassem armazéns a céu aberto ao mundo.
Porém, par de anos para cá, a eventos à minha volta tem apresentado maus tempos e não são dos ares ou estradas e sim no ciclo de minha existência. Tanta gente tão próxima que tem se tornado ausente, indo ao eterno repouso que já começo a duvidar que seja descanso mesmo. E eu, que jamais imaginei estar na fila da “passagem”, começo a pensar que a situação do lado de lá está a ficar melhor que do lado de cá.
Entretanto, quando se ia a mais velha das manas, ao protestar veementemente contra o que diziam ser chamado de Deus, algo que nem acredito, o homem como Deus o fez é eterno em seus filhos, netos bisnetos e vai por aí, Julieta, esse seu nome deu-me uma esculhambação danada. “Para com isso, tanto eu quanto você, tivemos vidas invejáveis. Fomos premiados em fazer apenas o que quisemos fazer, todo o resto é custo da felicidade que vivemos”.
Calado fiquei. Mas, sem que meu íntimo concordasse muito com este trágico custo, porque mais leais companheiros se foram e para bem judiar, entre eles, em janeiro de 2025, Soraya, mulher e companheira por longos 28 anos, que muito amei e mãe de dois filhos meus, também partiu.
E foi assim, mas confesso que valeu a pena o que vi e vivi. De um primeiro enlace, tenho cinco filhos, e entre meio ao segundo, uma maravilhosa filha. A fechar a cortina do crepúsculo, mais dois, um casal.
Hoje, quando escrevo, quinta feira, doze de março de 2026, pisciano, é meu aniversário, 8.4. Posso me dizer eterno, tendo vida nos filhos, nos netos e bisnetos. Somente questiono que, devido ao custo pago, o Criador poderia me esperar mais um pouquinho, sei que vou, mas aqui, ainda sou amado e tenho amores…
BH/GV/Macapá-15/03/2026
(*) José Altino Machado é jornalista

