Binacional - usina de Itaipu - créditos: divulgação
07-02-2026 às 08h22
Samuel Arruda*
Durante décadas, a Usina Hidrelétrica de Itaipu foi um dos maiores trunfos estratégicos do Brasil. Mais do que um monumento de engenharia, ela garantiu energia limpa, abundante e relativamente barata, sustentando o crescimento industrial e a estabilidade do sistema elétrico nacional. Esse cenário, no entanto, está mudando — não por uma tomada hostil da usina, mas por uma profunda transformação no mercado global de energia.
Criada pelo Tratado de 1973, Itaipu pertence igualmente ao Brasil e ao Paraguai. Como o Paraguai sempre consumiu apenas uma fração de sua cota, o excedente era vendido obrigatoriamente ao Brasil, a preço de custo. Esse mecanismo funcionou por quase 50 anos como um subsídio indireto à economia brasileira.
Nos últimos anos, porém, esse equilíbrio começou a se alterar. Com o fim da amortização da dívida da usina e acordos transitórios que substituem o Anexo C, o Paraguai conquistou maior autonomia econômica sobre sua energia. Ainda não se trata de liberdade total e irrestrita, mas é um passo concreto para reduzir a dependência histórica em relação ao Brasil.
Ao mesmo tempo, o mundo atravessa uma explosão no consumo de eletricidade causada pela digitalização da economia, pela inteligência artificial e pela expansão de data centers. Essas infraestruturas exigem energia contínua, confiável e limpa — exatamente o perfil da geração hidrelétrica. O Paraguai percebeu essa oportunidade e passou a se posicionar como um polo atrativo para investimentos tecnológicos intensivos em energia.
O problema para o Brasil não é uma “perda” imediata de Itaipu, mas a erosão gradual de uma vantagem estratégica. Quanto maior for o uso interno da energia paraguaia ou sua destinação a novos projetos industriais e tecnológicos, menor será o excedente disponível para exportação ao Brasil nos mesmos termos favoráveis do passado.
Isso não significa risco iminente de apagões, mas implica pressão estrutural sobre os custos do sistema elétrico brasileiro. Em cenários de seca ou alta demanda, a redução de energia barata pode levar ao acionamento mais frequente de usinas termelétricas, encarecendo a geração e impactando tarifas, inflação e competitividade industrial.
Há também um efeito geopolítico claro: o Brasil perde poder de barganha regional, enquanto o Paraguai ganha autonomia econômica e novos parceiros estratégicos. Essa mudança não é ilegal, nem ilegítima — é resultado de escolhas soberanas e de um novo contexto global.
Diante disso, a resposta brasileira não deve ser alarmismo nem hostilidade diplomática, mas estratégia. O país precisa acelerar investimentos em eficiência energética, armazenamento, fontes complementares e modernização do sistema elétrico. Além disso, é essencial construir uma diplomacia energética regional que integre interesses, em vez de reagir apenas quando a vantagem já foi perdida.
A era da energia confortável acabou. Itaipu continua sendo um ativo vital, mas já não é mais o seguro ilimitado que foi no passado. Reconhecer essa mudança é o primeiro passo para garantir que o Brasil continue competitivo, soberano e com as luzes acesas — sem pagar cada vez mais caro por isso.
*Samuel Arruda é jornalista e articulista

