Filme "Agente Secreto" com Wagner Moura - créditos: divulgação
17-01-2026 às 13h23
Giovana Devisate
Ano passado, nesta época, vivíamos um burburinho por causa da Fernanda Torres concorrendo ao prêmio de melhor atriz em filme de drama, por “Ainda estou aqui”, no Globo de Ouro. Ela venceu. O filme, posteriormente, ganhou o Oscar na categoria de melhor filme internacional. Entrou para a história.
Nesse ano, não foi muito diferente: vivemos novamente essa alegria, mas dessa vez por causa do Wagner Moura que, também no Globo de Ouro, levou o prêmio de melhor ator em filme de drama, por causa de “O agente secreto”. O filme, por sua vez, também ganhou o prêmio de melhor filme estrangeiro no evento.
Segundo matéria recente divulgada pela BBC, o Brasil atravessa um momento de afirmação contínua no circuito global de prêmios e ocupa um espaço cada vez mais central na temporada internacional de premiações.
O New York Times também destacou a vitória do Wagner Moura e a tratou como um marco importantíssimo na trajetória internacional do ator… Ainda não sabemos sobre o Oscar, só imaginamos que o desfecho possa ser igual ao do ano passado.
Esse caminho de premiações vai além do prestígio artístico ou das comemorações: tem direta relação com o reconhecimento internacional, que movimenta a cadeia de produção audiovisual brasileira e expande a visibilidade do Brasil como polo criativo, com gente plenamente capaz de coisas geniais.
No carnaval de 2025 vimos muitas fantasias pelas ruas do Rio de Janeiro que homenageavam a estatueta do Oscar e o prêmio do Globo de Ouro, a Fernanda Torres e seus papéis mais populares, como também a dupla Fátima e Sueli, em Tapas e Beijos. O brasileiro se empolga com essas conquistas, relembra outras e faz questão, nesses momentos, de mostrar para qualquer outro país como somos unidos.
Outro dia, Kleber Mendonça Filho, diretor de “O agente secreto”, recebeu o prêmio de melhor filme estrangeiro do Critics Choice Awards no meio do tapete vermelho, fora dos palcos ou da transmissão oficial do evento, durante uma entrevista, sem aviso prévio.
Os brasileiros não deixaram barato e encheram as redes sociais da premiação com comentários sobre falta de respeito, especialmente pela forma como o prêmio foi entregue. Surtiu efeito. Depois disso, a organização convidou o Wagner Moura e o Kleber Mendonça Filho para anunciar a principal categoria da noite, o prêmio de melhor filme, com vitória de “Uma batalha após a outra”, com Leonardo DiCaprio e direção de Paul Thomas Anderson.
A premiação viu na ação uma oportunidade de se redimir com o povo brasileiro, dada a repercussão negativa da entrega do prêmio no tapete vermelho e, claro, de permitir que o diretor e o ator fizessem um breve discurso por terem vencido a categoria de melhor filme estrangeiro. Isso resultou em nova chuva de comentários nas redes sociais, já que Wagner Moura, com toda a classe, debocha da categoria do prêmio que anunciou ao dizer que, para nós, eles que são estrangeiros.
O nosso país têm defeitos, a nossa gente também, mas somos incansavelmente calorosos e sabemos, de várias formas, proteger os nossos. Nós, brasileiros, driblamos os problemas cotidianos com um humor único que só nós temos. Entre o brilho do carnaval e o reconhecimento pela arte no Globo de Ouro, o nosso país mostra a sua maior riqueza: a cultura. Somos um país que transforma alegria, dor e sonhos em arte e, consequentemente, em identidade, impulso e virtude.
Picasso tem uma frase que ouvi algumas vezes ao longo da faculdade, que diz que “a arte é uma mentira, que revela a verdade”. É evidente que podemos interpretá-la de algumas maneiras, mas penso que, ao falar de mentira, Picasso quer dizer ficção, invenção, interpretação, fantasia. É como se a arte não pudesse copiar a realidade fielmente, já que sempre vai representar, distorcer, ironizar, exagerar.
Isso me lembra o cachimbo, de Magritte, sabe? A representação fiel do cachimbo ainda não faz com que aquilo que vemos seja, de fato, um. A obra do pintor surrealista belga revolucionou o mundo das artes por questionar os signos e elevar os estudos da linguagem semiótica. Magritte usava dos paradoxos para explorar a linguagem e a nossa percepção sobre o que vemos, estimulando o pensamento crítico.
É do afastamento do real ou do literal que a arte nos mostra as verdades mais intrínsecas ao ser, mais profundas da vida humana. Por isso que a arte, em todas as suas instâncias, consegue dizer mais sobre nós do que um retrato fiel da realidade. É através disso que desvendamos a essência das coisas, visíveis ou não.
Tem muitas coisas que só podemos sentir, ainda que tentemos enxergar. O carnaval é um pouco assim: a gente sente. O meu primeiro texto aqui, ano passado, foi sobre carnaval, no qual falei que o carnaval é a rua como lugar de encontro e uma subversão do cotidiano, abordagem que permanece atual.
Aliás, a sabedoria popular diz que o ano só começa depois do carnaval. Não deixa de ser verdade, pois as festas iniciadas no final do ano atravessam o verão das praias cheias de gente, em verdadeiro aquecimento para a apoteose do carnaval…
A gente brinda no samba pós-praia, ensaia o enredo que desfila em fevereiro, pula com o gol do time do coração, brinca para comemorar as premiações dos filmes brasileiros… O brasil chega dançando aos tapetes estrangeiros, resiliente, alegre. O Brasil tem uma capacidade gigantesca de transformar dor e luta em ritmo e letra, em filme e roteiro, em comida e sabor. A gente, aqui, resiste a tudo com o corpo em movimento.
*Giovana Devisate é historiadora da arte e designer de moda

