
Viatura da Secretaria de Estado de Polícia Militar do Rio de Janeiro. CRÉDITOS: Reprodução
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04-04-2025 às 09h19
Claudio Siqueira*
Sentado ao lado de uma barraca na feira, entre um pastel de queijo e um copo de caldo de cana, observo o vai e vem dos feirantes enquanto matuto sobre as engrenagens que movem este mercado. No fide (feed), uma manchete cintila com o brilho do surrealismo cotidiano brasileiro:
“Homem invade posto da PM e morde policial no Rio de Janeiro.”
Minha mente viaja: imaginei um cidadão qualquer, tomado por um espírito ancestral ou por uma pulsão dionisíaca, cruzando os portões do Estado armado não com uma faca, mas com os próprios dentes. Um ato gratuito, simbólico, primitivo. Morder como quem protesta. Morder como quem ora. Morder como quem sente demais.
Mas não. Ele estava drogado.
Ah… perdeu a graça.
Queria tanto que fosse arte. Ou um surto metafísico. Um “happening” silencioso em pleno quartel. Mas não. Era só mais um corpo entorpecido tropeçando no delírio químico da metrópole. Fazer besteira sob efeito de narcótico é tão blasé. (Nunca soube escrever “blasé” nem sei se sei o que significa, mas sei que é isso).
No fundo, o ato de morder o Estado poderia ser um manifesto. Um manifesto sem panfleto. Sem palavras. Só dentes.
Mas era só terça-feira no Brasil.
* Claudio Siqueira é jornalista, editor de vídeo, acadêmico de antropologia na UNILA, trabalha no H2FOZ portal de notícias de Foz do Iguaçu.