EUA ataca Venezuela e captura Nicolas Maduro e esposa - créditos: Creativeufo.com
04-01-2026 às 11h40
Alice Castelani de Oliveira*
O atual acirramento da competição estratégica, especialmente entre EUA e China, intensifica a disputa pelo controle das respectivas zonas de influência, com vistas à consolidação de esferas de domínio e à garantia de acesso a recursos críticos. Para Washington, essa dinâmica está diretamente ligada à reativação da Doutrina Monroe. Isto é, a região da América Latina, historicamente descrita pelo país como seu quintal estratégico, retorna ao centro de uma política externa que, superado um período de desengajamento estratégico, reassume contornos abertamente intervencionistas. A criação de um arcabouço jurídico-político que facilita ações diretas na região encontrou um ponto culminante no ataque à Venezuela.
A narrativa de intervenção na Venezuela, que resgata o conhecido pretexto de “garantir a democracia”, é no mínimo irônica vinda de um país que enfrenta, atualmente, uma profunda crise em seu próprio sistema político, marcada pela expansão de políticos da extrema direita e por ataques contínuos às suas instituições democráticas. A verdadeira razão do ataque, no entanto, é clara e estratégica: o país detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, totalizando 300,9 bilhões de barris. Garantir o controle sobre esses recursos – ou, no mínimo, evitar que caiam sob a influência de potências rivais – constitui um objetivo central da política externa estadunidense. A pressão sobre Caracas, no entanto, é apenas a ponta mais visível de uma estratégia mais ampla para a região. Medidas recentes, sob a égide do governo Trump, exemplificam um duplo movimento: a imposição de tarifas comerciais seletivas, que penalizam, por exemplo, produtos brasileiros enquanto isentam itens estratégicos para os EUA, e a autorização para operações militares diretas contra cartéis de drogas na América Latina.
À luz desses recentes desenvolvimentos geopolíticos, é crucial destacar um risco evidente: a política de autorização de operações militares contra cartéis, inicialmente voltada ao México, possui um perigoso potencial de expansão para outros países da região. A classificação persistente, por parte dos EUA, de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas cria um cenário propício para que a militarização do combate às drogas transborde em intervenção securitária em solo nacional, possibilidade que se torna tangível diante do ataque à Venezuela, país que faz fronteira com o Brasil. Consolida-se, assim, uma pressão híbrida sobre a região, articulada em duas frentes principais: a econômica, mediante a imposição de barreiras tarifárias seletivas, e a geopolítica, através do intervencionismo militar.
Particularmente para o Brasil, este cenário representa um desafio estratégico de primeira ordem, com implicações diretas para nosso desenvolvimento e segurança. Do ponto de vista geopolítico, o que testemunhamos é uma violação de nosso entorno estratégico – espaço vital definido pela Política Nacional de Defesa (PND) que abrange a América do Sul, o Atlântico Sul e áreas adjacentes. Um ataque a um vizinho soberano como a Venezuela estabelece um precedente perigoso, desrespeita princípios fundamentais de nossa política externa e constitui uma ameaça clara à segurança nacional. As consequências são imediatas: a instabilidade induzida em nossas fronteiras norte e noroeste amplifica vulnerabilidades, podendo gerar crises migratórias, intensificar a insegurança e a ação de grupos ilegais, além de facilitar a ocupação territorial e a exploração predatória de nossos recursos naturais – notadamente na Amazônia.
Diante desse quadro, o Brasil é compelido a navegar por águas diplomáticas delicadas. De um lado, deve reafirmar com firmeza um pilar tradicional de sua política externa: a defesa da soberania dos Estados sul-americanos e a rejeição a intervenções estrangeiras. De outro, precisa evitar um confronto direto e assimétrico com os EUA, cuja capacidade de retaliação, militar e econômica, pode prejudicar gravemente nosso desenvolvimento. Esse equilíbrio estratégico impõe um desafio de sofisticação máxima à nossa diplomacia e defesa, exigindo centralidade da agenda nacional em múltiplas frentes. No plano externo, demanda respostas integradas que harmonizem a negociação comercial com a defesa intransigente da autodeterminação dos povos da América do Sul, reforçando mecanismos de cooperação regional como a ZOPACAS. Internamente, o desafio é ainda mais premente, que envolve, fundamentalmente, garantir a segurança nacional e a integridade das extensas e vulneráveis fronteiras ao norte, com especial foco na proteção dos recursos naturais estratégicos da Amazônia, condição sine qua non para a sobrevivência nacional como projeto soberano.
O momento, portanto, é de convergência de esforços. Exige colocar no centro do debate político uma agenda nacional de defesa da soberania, que transcenda a retórica e se materialize em ação concreta. Isso demanda investimentos substantivos e contínuos nas Forças Armadas, em capacitação tecnológica autônoma, em presença efetiva nas fronteiras e em inteligência estratégica, de modo a revigorar a articulação tríplice entre política externa, defesa nacional e desenvolvimento nacional. O Brasil não pode se permitir ser um espectador passivo na redefinição do jogo de poder em seu entorno estratégico, considerando que a defesa da Amazônia, da estabilidade sul-americana e da capacidade de projetar poder no Atlântico Sul não são opções, mas imperativos geopolíticos para um país que aspira garantir sua soberania territorial e um papel relevante no concerto das nações. Se o “alerta venezuelano” tem uma lição clara, é esta: a resposta ao intervencionismo não pode limitar-se à retórica; deve ser estrutural e estratégica, fundamentada em um projeto nacional de Estado que erga a soberania e a segurança nacional como pilares inegociáveis e valores fundamentais para o povo brasileiro.
*Alice Castelani de Oliveira: Doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mestra em Segurança Internacional e Defesa pela Escola Superior de Guerra (ESG) e bacharel em Ciências do Estado pela UFMG. Hoje, é membro da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED) e integrante dos grupos de pesquisa: Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico (IBECAP); Grupo de Estudos Estratégicos Raul Soares; Global IR and Brazil BRaS; Grupo Permanente de Pesquisa em Teoria, Filosofia e Ciências do Estado (Escola de Contas/TCEMG); Grupo Permanente de Pesquisa em Inteligência Artificial (Escola de Contas/TCEMG); e Rede Interinstitucional de Pesquisa em Instituições Internacionais (RIPPERP). Contato: alicecastelani@gmail.com
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