Criança ajuda avô nas tarefas diárias - créditos: Revista Crescer
29-03-2026 às 11h36
Carlos Mota*
Nunca gostei do hábito de viver comparando uma geração com a outra, do tipo, NO MEU TEMPO ERA DIFERENTE, mas hoje resolvi abrir uma exceção, pois vou falar desta coisa chamada DEPRESSÃO, uma praga que assola milhões de pessoas, somente aqui no Brasil.
No meu tempo de menino e adolescente, creio que o termo nem existia com essa acepção atual, em que uma pessoa, sobretudo um jovem, se tranca num quarto, desaba numa cama e se priva do dom de viver, seja viver confortavelmente ou pobremente, mas viver, pois uma coisa nada tem a ver com a outra!
Aliás, nem quartos individuais existiam em meu tempo, muito menos aparelhos de refrigeração, móveis confortáveis e a parafernália eletrônica que infesta os quartos de hoje. Na maioria desses quartos, nem luz ou tomadas elétricas existiam, nada de cortinas e o jeito era pular da cama assim que o sol batia na cara da gente ou ver a nossa mãe nele entrar e simplesmente puxar o cobertor e levá-lo para secar o mijo no varal do quintal!
Diferente destes dias correntes, não havia banheiros exclusivos nos quartos, nem mesmo na maioria esmagadora das casas, onde algumas possuíam uma casinha, privada ou latrina no quintal, em que um profundo e fedorento buraco fazia as vezes de vaso sanitário.
E as mães ordenavam: – saia já do quarto, pegue o penico debaixo da cama e vá esvazia-lo ali na latrina ou nas bananeiras!
Também não tinha como se pular da cama e se refestelar no sofá da sala, pois poucas salas de antigamente tinham sofás e mesas de centro, pois elas viviam arrumadinhas, com o piso brilhando a cera Parquetina. Aliás, meninos e adolescentes só entravam nas salas para espalhar a cera e, em seguida, passar por horas, o escovão ou um molambo de saco de estopa sob os pés, dançando twist, samba ou qualquer ritmo de se rodopiar!
Tarefas como varrer casa, levar o cisco pro montúrio, limpar quintal, molhar plantas, tratar de porcos e galinhas, buscar água, limpar e colocar lenha e fogo em fogões e fornos de biscoito, dar recados, era coisa de menino.
Mas, afora isso, a rua era o endereço da meninada, quando não se estava em escola ou em missa! A rua, o rio, os matos e neles se pescava um peixe, pegava frutas, caças, lenhas, que muitas vezes garantiam o almoço. Em nossa Minas Novas, faiscar ouro era também serviço de menino, e a venda de faíscas e pepitas garantia a sobrevivência de muitas famílias.
Meninos também vendiam coisas pelas ruas, como tabuleiros de quitandas e doces, quebravam pedra para brita de construções, tiravam esmolas para as festas religiosas, mas tinham tempo para as peladas de futebol, para empinar pipas, jogar bolas de gude, fazer bonecas de pano ou palha, carrinhos de madeira, brincar de esconder, de polícia e ladrão, de médico e, se se estabacava no chão ou levava uma pedrada na cabeça, rapadura era o único curativo, pois era época em que, dos meninos, se dizia:
– CORTOU O UMBIGO, ACABOU O PERIGO!
Num tempo como aquele, simplesmente não se tinha TEMPO PARA VIVER DEPRIMIDO!
*Carlos Mota é procurador federal, ex-deputado federal, escritor e membro da ALVA – Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha

