Governador Romeu Zema e senador Flávio Bolsonaro - créditos: divulgação
24-02-2026 às 18h00
Samuel Arruda*
Em movimento calculado para se afirmar como herdeiro político viável do bolsonarismo em um cenário pós-Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro tem intensificado articulações que buscam reposicioná-lo no tabuleiro nacional com uma imagem mais moderada, técnica e dialogável com o mercado financeiro. A estratégia passa por um esforço deliberado de descolar sua figura do chamado “bolsonarismo raiz”, marcado por forte carga ideológica e embates institucionais, para construir um perfil mais pragmático e menos conflitivo.
Nos bastidores, aliados do parlamentar admitem que a inspiração vem diretamente da campanha de 2018, quando Jair Bolsonaro neutralizou resistências do empresariado ao anunciar o economista Paulo Guedes como seu fiador na área econômica — o célebre “Posto Ipiranga”. A fórmula agora tenta ser adaptada por Flávio: cercar-se de nomes com credibilidade técnica, tanto na economia quanto na comunicação, capazes de transmitir previsibilidade e estabilidade a investidores e setores produtivos.
Dentro desse desenho, ganhou força a sondagem ao marqueteiro Paulo Vasconcelos, estrategista que comandou a campanha presidencial de Aécio Neves em 2014. Atualmente vinculado ao grupo político do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, também cotado como presidenciável, Vasconcelos é visto como peça estratégica não apenas por sua experiência nacional, mas pelo profundo conhecimento do eleitorado mineiro — considerado decisivo em disputas ao Planalto.
Minas Gerais voltou ao centro das atenções. Historicamente tratado como “fiel da balança” nas eleições presidenciais, o estado tornou-se prioridade tanto para Flávio quanto para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A avaliação no núcleo bolsonarista é de que qualquer candidatura competitiva precisará de um palanque robusto em território mineiro, capaz de dialogar simultaneamente com o empresariado, o agronegócio, os setores urbanos e o eleitorado conservador do interior.
É nesse contexto que aliados passaram a ventilar a hipótese de uma composição com o governador Romeu Zema como vice. A eventual dobradinha teria múltiplas funções: ampliar pontes com o setor produtivo, reforçar o discurso liberal na economia e consolidar uma base sólida em Minas. Além disso, a presença de Zema poderia atenuar resistências no centro político e conferir à chapa um caráter menos ideológico e mais administrativo.
Os movimentos revelam uma estratégia mais ampla e sofisticada: profissionalizar a comunicação, moderar o discurso e sinalizar compromisso com estabilidade econômica e governabilidade. Ao investir na construção de uma equipe técnica e em alianças regionais estratégicas, Flávio busca ocupar um espaço que preserve o capital eleitoral do bolsonarismo, mas com roupagem mais institucional e menos confrontacional. Em síntese, trata-se de uma tentativa de transformar herança política em viabilidade eleitoral concreta, tendo Minas Gerais como peça-chave dessa engrenagem.
*Samuel Arruda é jornalista e articulista

