Créditos: Divulgação
10-02-2026 às 10h37
Gabriela Araújo*
A Quaresma Seca está chegando: campanha desenvolvida pelo Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia, convida a população a reduzir ou suspender voluntariamente o consumo de álcool por 40 dias. O projeto do DHA consiste em lives no Instagram com aproximadamente 30 minutos cada. A primeira, que marca o início da campanha em 18/02 às 19h, traz o médico cardiologista e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Dr. Audes Feitosa, ex-presidente do Departamento de Hipertensão Arterial do biênio 2020/2021; e também o médico cardiologista, Dr. Elzo Mattar, diretor administrativo do Departamento de Hipertensão Arterial da SBC e professor da Faculdade Estadual de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp).
Em sequência, as lives seguem às 19 horas nas datas: 25 de fevereiro, 4 de março, 11 de março, 18 de março, 25 de março, e a última, em 1º de abril, encerrando a iniciativa em 2026.
A força do contexto cultural na redução do consumo
Inspirada no Dry January (Janeiro Seco em português), a proposta é simples, mas os efeitos podem ser significativos e a ciência mostra isso: estudos sobre o famoso movimento do Hemisfério Norte, como o publicado no volume 60 da revista Alcohol and Alcoholism em 2025, mostram melhora do sono, menor pressão arterial, melhor disposição e, talvez o mais relevante, uma redução sustentada do consumo de álcool ao longo dos meses seguintes. A pausa de 30 dias reorganiza padrões.
No Brasil, a adaptação do conceito passa, necessariamente, pelo calendário cultural. Janeiro é tradicionalmente marcado por férias, viagens e confraternizações que prolongam o clima das festas de fim de ano e antecedem o Carnaval. Diante deste cenário, propor um período de abstinência logo no início do ano acaba destoando do ritmo social do país, que privilegia celebração e convivência. A experiência mostra que campanhas de mudança de hábito têm mais adesão quando dialogam com o comportamento coletivo, e não quando tentam contrariá-lo.
Por isso, a proposta de iniciar a Quaresma Seca após o Carnaval surge como uma alternativa mais alinhada à realidade brasileira. “Passado o período de comemorações, o país entra em um momento natural de reorganização: é a retomada das rotinas, do trabalho e dos compromissos do dia a dia. Culturalmente, esse intervalo também coincide com um tempo historicamente associado à reflexão e ao autocontrole, o que favorece a adesão à pausa no consumo de álcool. Ao respeitar esse ritmo, a campanha busca ampliar o engajamento e transformar a redução do consumo em uma escolha mais consciente e sustentável, já que o consumo de álcool pode impactar a pressão arterial de diferentes formas”, explica o Dr. Audes Feitosa.
Riscos que vão além da ressaca
Segundo os especialistas do DHA, o álcool interfere em mecanismos importantes do organismo, como o equilíbrio de hormônios responsáveis pela regulação dos vasos sanguíneos, além de estimular o sistema nervoso simpático, o que acelera os batimentos cardíacos e favorece o surgimento de arritmias. Esse consumo também costuma estar associado a outros fatores de risco, como alimentação rica em sal, sedentarismo e ganho de peso, que contribuem para o aumento da pressão arterial.
A longo prazo, os efeitos podem ser ainda mais graves. “O uso excessivo e contínuo do álcool eleva o risco de acidente vascular cerebral (AVC) e pode enfraquecer o músculo do coração, levando à insuficiência cardíaca, inclusive em pessoas sem histórico prévio de doenças cardiovasculares”, conclui o Dr. Audes Feitosa.
Sobre o Departamento de Hipertensão Arterial da SBC
Criado no início da década de 1980, o Departamento de Hipertensão Arterial (DHA) é um braço da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) dedicado ao estudo, diagnóstico, tratamento e prevenção da hipertensão arterial, popularmente conhecida como pressão alta. Ao longo de sua trajetória, consolidou-se como uma das principais referências científicas e institucionais do país, com papel central na organização do conhecimento e na qualificação da prática clínica no Brasil. Atualmente sob a presidência da Dra. Erika Campana, no biênio 2026/2027, o departamento estabelece como missão a prevenção, inovação e educação continuada.

