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19-01-2026 às 11h26
Tadeu Martins*
Já se passou muito tempo, desde a inauguração da iluminação elétrica em Montes Claros. Não sei precisar quanto tempo, mas só para dar uma ideia, dizem que quando se instalou a luz elétrica em Montes Claros, o Mar Morto ainda estava doente.
Imaginem a festa da inauguração: missa logo de manhã na subestação distribuidora, com benção dos geradores; banda de música atacando marchas e dobrados; crianças correndo na pracinha, implorando aos pais para comprarem pipoca, algodão-doce ou um balão (lá se chama bisnaga) com a inscrição: “Montes Claros – Fim das Trevas”; políticos sorridentes, engajados na via sacra de apertos de mãos e tapinhas nas costas, cada um tentando provar ser o maior responsável pela decisão do Governo de levar o progresso para o norte de Minas; churrasco de vários bois, regado a cachaça e licor de pequi e, a prosa girando em torno da vedete maior: a eletricidade. Já haviam realizado, com êxito, três testes gerais, todos durante o dia. Uns conheciam, outros não, mas todos falavam das maravilhas da energia elétrica. Restrição só era feita pelo funcionário da prefeitura chamado Quelemente: “Essa tal de letricidade pode trazer benefícios, mas fede que só o capeta”, afirmava ele, sem saber que o que ele chamava de eletricidade era na verdade uma descarga silenciosa de gases intestinais de Bigodinho Eletricista.
No momento do segundo teste, Quelemente segurava a escada para Bigodinho, que subiu apressado para ligar a chave geral, deixando atrás de si o aroma da eletricidade.
O grande acontecimento foi, sem dúvida, o comício das 19 horas, na praça principal; encerramento da festa, discursos e a inauguração oficial da iluminação. Tudo fora minuciosamente preparado: começariam os falatórios à luz de velas e o último orador, o prefeito municipal, intimaria o povo a apagar as velas, mandaria soltar um rojão e encerraria ligando a iluminação. Na verdade, o rojão era um aviso para Bigodinho e Quelemente, que estavam na subestação, a 1 Km de distância, com a ordem de acionar a chave geral assim que o rojão estourasse, clareando o céu com as “lágrimas”coloridas. Tudo aconteceu conforme o previsto, estourou o rojão e o povo aplaudiu o fim das trevas, clareou toda a cidade. A euforia durou pouco, um minuto e tudo escureceu. Gritos de espanto. Acendeu de novo, palmas. Apagou, uhhh coletivo. Acendeu, viva! Apagou.
Cinco minutos de acende e apaga, o secretário da prefeitura e um engenheiro saíram em disparada para a subestação, onde encontraram o Quelemente, escornado, e o Bigodinho bêbado como um gambá, ligando a chave e gritando: “Montes Claros”, desligando a chave e gritando: “Montes Escuros”. Só depois que derrubaram o “pau d’água” da escada é que a terra de Tino Gomes e de Alberto Sena, finalmente, Montesclareou.
*Tadeu Martins é escritor e produtor cultural, publicou 15 livros e 84 folhetos de cordel. Gravou CD de causos e cordéis. É o atual presidente da ALVA- Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha.

