Área de estração de espodumênio (lítio) da Sigma em Araçuaí, - créditos: divulgação
30-11-2025 às 09h26
Soelson B. Araújo*
Quando a Sigma Litio anuncia que pretende retomar suas operações no Vale do Jequitinhonha, a notícia deveria representar esperança — emprego, renda, desenvolvimento regional. Mas, para uma região que carrega marcas profundas de exploração, desigualdade e trauma ambiental, qualquer promessa econômica precisa vir acompanhada de responsabilidade, transparência e, acima de tudo, respeito.
O Vale não é um “território novo” a ser explorado: é um território ancestral que já enfrentou crises hídricas severas e ainda enfrenta, viu o Rio Jequitinhonha quase secar, e ainda luta diariamente pela sobrevivência sustentável de suas comunidades. Por isso, quando uma mineradora — especialmente uma que obteve financiamento público e se apresenta como símbolo do “lítio verde” — se estabelece ali, ela deve honrar a história e a dignidade de quem sempre esteve na linha de frente da resistência.
A paralisação temporária das operações da Sigma ao longo de 2025, embora explicada pela empresa como um processo de reestruturação interna, ocorreu em meio a uma sequência de controvérsias: críticas sobre transparência ambiental, questionamentos institucionais, mobilização de comunidades e, principalmente, as declarações infelizes de sua CEO, que feriram profundamente o orgulho de um povo conhecido por sua cultura, resiliência e força.
Classificar trabalhadores do Vale como “geração perdida” e crianças como “mulas de água” não foi apenas uma escolha de palavras inadequada — foi um gesto que ignorou a complexidade de uma região que há séculos enfrenta abandono do Estado, falta de infraestrutura hídrica e desigualdades sociais, e que agora presencia empresas internacionais disputando seus recursos naturais mais valiosos.
Para muitos, a fala da executiva soou como a repetição de um padrão histórico: o de grandes projetos que chegam prometendo transformação, mas tratam o povo como obstáculo, não como parceiro.
O elemento mais sensível que leva nosso povo a uma preocupação mais urgente da região continua sendo a água. Em um território onde o Rio Jequitinhonha já enfrentou períodos críticos de estiagem — com comunidades inteiras dependendo de caminhões-pipa e cisternas — é impossível ignorar o impacto de qualquer atividade de grande porte sobre os mananciais.
Segundo dados mencionados no debate público, a operação da Sigma utiliza diariamente, cerca de 2,9 milhões de litros de água do Rio Jequitinhonha. Esse número, independentemente do modelo tecnológico empregado ou de taxas de reaproveitamento, desperta receios legítimos:
como garantir que a demanda industrial não comprometerá o abastecimento humano e a sustentabilidade ecológica do Vale?
Essa pergunta não pode ser tratada como mero detalhe técnico. Ela envolve segurança hídrica, saúde, permanência das famílias no território e o próprio futuro do rio — que é parte da identidade, da memória e da vida do povo jequitinhonhense.
Um novo pacto é urgente e possível: A retomada anunciada das atividades da Sigma pode, sim, representar uma oportunidade para reconstruir pontes. Mas isso exige mais do que comunicados corporativos: exige uma mudança de postura.
Um projeto minerário só tem legitimidade quando reconhece que:
- o Vale do Jequitinhonha não é um vazio econômico, mas uma região com cultura, saberes, modos de vida e prioridades próprias;
- a água é um bem coletivo e sagrado, especialmente em áreas historicamente vulneráveis à seca;
- as comunidades precisam ser ouvidas desde o início, e não apenas quando conflitos emergem;
- respeito não é estratégia de marketing, é fundamento ético de qualquer atividade produtiva.
Da mesma forma, um futuro sustentável para o Vale depende de que empresas, governos e sociedade estabeleçam mecanismos de fiscalização e diálogo permanentes, considerando a complexidade socioambiental do território — e não apenas o discurso global do “lítio verde”.
O que está em jogo é que: o Vale do Jequitinhonha já viu ciclos econômicos surgirem e desaparecerem, deixando para trás promessas vazias.
Agora, diante de um recurso estratégico para o mundo e para a transição energética, ele não pode — e não deve — aceitar o papel de mero fornecedor barato de matéria-prima.
É hora de exigir que a mineração, se houver, seja feita com transparência, reparação, dignidade e justiça.
É hora de reconhecer que o povo do Vale não é “perdido”: é protagonista.
É hora de garantir que o Rio Jequitinhonha — base da vida e da cultura da região — seja protegido como prioridade máxima.
Se a Sigma deseja continuar no Vale, precisa mostrar, na prática, que compreende isso.
Porque desenvolvimento que não respeita a história, a água e a gente do lugar não é desenvolvimento — é repetição.
*Soelson B. Araújo é empresário, jornalista, escritor e CEO do Diário de Minas

