Máquina de costura manual de 1920 - créditos: Sérgio Vicente (2019)
01-03-2026 às 14h04
Sérgio Augusto Vicente*
Naquela manhã de domingo, Nair já fora escalada para mais uma tarefa. Serafim faria uma rápida visita à Cotegipe e, como era de costume, incumbia a sobrinha de buscar a égua no pasto. Como todo pedido de adulto era uma ordem, lá ia a menina subindo o morro, à procura de um dos meios de transporte mais antigos da história.
A certa altura da caminhada, a menina dá uma breve pausa. Enquanto recuperava o fôlego, mirava a singela casa da mãe e da avó. Do meio do morro, observava uma corrente de fumaça subindo pelo ar. Talvez o fogão à lenha estivesse aceso. Mas algo lhe parecia estranho. Olhou novamente. Enxergava, agora, uma espessa cortina de fumaça saindo pelas frestas da casa. Apavorada, sua única reação, naquele momento, era o grito. Do alto do morro, Nair gastava toda a potência vocal para tentar avisar a mãe: “Mãe! Mãeeeeeeeeeee! Mãeeeeeee! A casa está pegando fogo!”
Depois de alguns minutos, Glória conseguiu ouvir o grito da filha. No entanto, na corrida contra o tempo, o fogo acabou vencendo a batalha. O incêndio não foi contido a tempo. As chamas se propagaram e destruíram toda a casa, inclusive os pertences da família. Apenas os documentos pessoais, que ficavam guardados dentro de uma pequena caixa de madeira, conseguiram ser resgatados a tempo.
A grande quantidade de matéria orgânica utilizada na construção favoreceu que as chamas se alastrassem rapidamente: feitas de pau a pique, as paredes tinham na sua composição a bosta de boi seca, muito rica em capim. O teto era de sapé. E, na cozinha, o toucinho pendurado em cima do fogão à lenha contribuía para catalisar as chamas, que, a essa altura, transformaram-se em incontroláveis labaredas.
Rapidamente, a casa construída há pouco mais de quatro anos foi reduzida a cinza e carvão. Nem mesmo a galinha escondida no ninho ao lado da cozinha foi poupada da tragédia. Acabou morrendo carbonizada ali mesmo, enquanto botava os ovos que alimentariam os moradores da casa. O pássaro de estimação, dentro da gaiola, também não escapou do trágico destino de virar cinza.
“Onde há fumaça há fogo” – diz o velho ditado popular. Assim pensavam os vizinhos, ao se depararem com a fumaça que se espalhava pelos morros do Buraco Fundo. Logo se assustaram com a cena e procuraram saber o que estava acontecendo. Mas era tarde demais. As chamas já haviam consumado a última peça de madeira da casa. O sentimento de vazio e tristeza tomou conta da família naquele dia. O cenário era de destruição e abandono. O local, que amanhecera habitado por uma família, anoiteceu como uma verdadeira tapera.
Diante das dificuldades de uma vida pobre e suada, a perda de uma casa, por mais singela que fosse, era difícil de ser reparada em pouco tempo. Nem tão cedo Aurora, Migair, Serafim, Juca, Glória e os filhos voltariam a morar ali. Para a reconstrução da casa, a solidariedade dos vizinhos e amigos foi decisiva. Muitos deles se mobilizaram para arrecadar doações. As várias famílias que habitavam as grotas e propriedades da redondeza contribuíram com o pouco que podiam. Listas de ajuda circularam pelas paróquias de Simão Pereira e Sobragy. Doações de bens móveis também eram bem-vindas. Breno Nazário Teixeira, filho da mulher responsável pela construção da capela do Divino Espírito Santo, em Sobragy em 1902, contribuiu com a doação de uma antiga mesa rústica de madeira com gaveta para compor a nova casa de Aurora. Com seus mais de cem anos de idade, a mesa se encontra até hoje em perfeito estado de conservação.
Enquanto a reconstrução do novo lar não se concretizava, Mariana e Palmira os acolheram na sede. A menina Nair não escondia no semblante a alegria de compartilhar o mesmo teto com a mãe, a avó, os tios e os irmãos.
Desde que se mudara para a sede, Nair tentava se acostumar com o vazio e o silêncio da casa. Somente a prima Joaquina lhe fazia companhia durante o dia, enquanto as tias trabalhavam na roça. Embora poucos metros separassem as duas casas, as visitas à sua mãe eram menos frequentes do que se pode imaginar. Mesmo assim, era pouco recomendável que as visitas fossem realizadas sem o consentimento das tias. Caso contrário, as broncas de Mariana eram garantidas.
No dia seguinte à tragédia, Nair veria aquela rotina mudar drasticamente. A semana começava com a casa cheia. Os nove cômodos agora pareciam pequenos para tanto calor humano.
Se, no dia anterior, os corações sangravam a dor da perda material, nos próximos dias, a união familiar cicatrizaria as feridas da tragédia. Ali na sede permaneceram durante três anos, compartilhando alegrias e diversões. Acostumada com aquela nova dinâmica, Nair já se punha a pensar em como seria sua vida após o retorno deles. Tudo “voltaria a ser como dantes no castelo de Abrantes”?
Helena, Maria e Ana sugeriam que a irmã voltasse a morar junto com elas na nova casa. Mas Nair não queria fugir da missão para a qual as tias lhe designaram. Mesmo que, por vezes, a solidão da sede lhe parecesse desconfortável e um pouco angustiante, o medo de questionar os adultos se mostrava mais forte.
Com a nova casa construída com a ajuda comunitária e doações, era chegado o grande dia. Finalmente, mudaram-se para o mesmo local de outrora. A casa, embora construída no mesmo local, era de alvenaria e coberta com telhas curvas de cerâmica. Como Fênix, tudo parecia ressurgir das cinzas.
Aurora e as filhas, Glória e Migair, agora podiam retomar a rotina doméstica no novo fogão a lenha. Logo organizaram o novo lar e colocaram em seus devidos lugares os pertences sobreviventes ao incêndio. A máquina de costura Singer, de Aurora, que era tocada à mão, agora passava a ocupar um cantinho especial na casa, em cima da nova mesa de madeira doada pelo Sr. Breno Nazário Teixeira. Ali, sentada diante daquela mesa, as mulheres da casa ficariam horas remendando roupas e confeccionando as tradicionais colchas de retalho, como esta da foto, feita pelas mãos de Glória Ferreira.
*Sérgio Augusto Vicente é doutor em história e coordenador do Museu Mariano Procópio de Juiz de Fora e editor de Cultura do DM

