Idade da Razão - ilustração criada por IA - DM
15-03-2026 às 10h18
Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho*
Eu olhava para os três — Bolívar, Cláudia, Carlos — e sentia o peso do tempo comprimido, concentrado, naquela sala. Não era apenas uma reunião de colegiado. Era o acerto silencioso de contas entre passado e presente.
Ali estava Bolívar, o arquiteto de uma catedral de papel, organizando planilhas como quem ergue vitrais. Falava de orçamento enquanto o chão sob seus pés ardia. Eu o conhecia o suficiente para saber que seu “silêncio de vidro” não era ingenuidade. Era estratégia. Ignorar o pé de Carlos sob a mesa, ignorar o rubor contido no rosto de Cláudia, era sua forma mais refinada de punição.
Ao não reagir, ele rebaixava o gesto deles. Se não há escândalo, não há rebeldia. Se não há confronto, não há tragédia. O caso deixa de ser desafio e vira nota de rodapé. Bolívar não gritava; ele diminuía. E essa era uma violência mais sofisticada.
Cláudia, com toda a sua firmeza e segurança, parecia não perceber o quanto também estava presa ao jogo. Ela provocava porque precisava ser vista. Precisava ser enfrentada. Era como se cada gesto, cada risco assumido, reafirmasse que a tortura não havia conseguido anestesiá-la. O desejo era sua prova de vida.
Mas Bolívar respondia com indiferença calculada. Vencia pelo cansaço. Pela burocracia. Pela ata.
Ao meu lado, Josafá — o Homem Sensível Número 1 — mantinha os olhos fixos na janela. Ele, que conhecera o confinamento absoluto de três metros quadrados, parecia reconhecer naquela sala outra forma de cela. O amor clandestino de Cláudia e Carlos era o confinamento do segredo. O casamento de Bolívar era o isolamento das aparências. E a Universidade, que sonháramos como espaço de liberdade, transformava-se lentamente num labirinto de vidro: tudo visível, nada tocável.
Nós havíamos falado, tantas vezes, em Unidade. A fusão quase mística entre amor, política e saber. Acreditávamos que seria possível não separar a carne da ideia, o gesto do discurso. Agora, o que víamos era outra coisa: a unidade como esforço coletivo para manter a máscara no lugar.
Pensei nos bombons que Josafá oferecera a Cláudia no carro, quando ela ainda era Maria Berenice — trêmula, destroçada, recém-saída da noite mais longa. Naquela época, a dor tinha rosto. O inimigo era externo, armado, identificável.
Hoje, o inimigo era o espelho.
Era o conforto da aldeia. A necessidade de fingir que o desejo não existia para que a Universidade pudesse abrir suas portas na manhã seguinte com aparência de normalidade. Era o pacto silencioso de sobrevivência.
— Eles estão mortos e não sabem — Josafá murmurou, quase sem mover os lábios, enquanto Bolívar encerrava a sessão com formalidade impecável.
Não respondi.
Sabia que não estávamos mortos. Estávamos exilados dentro da própria criação. A Universidade era nosso triunfo — e também nossa tumba provisória. Construímos aquele edifício para escapar da asfixia do passado, mas agora caminhávamos por seus corredores como quem mede o próprio confinamento.
Cláudia levantou-se antes dos demais. O riso rouco cortou o ar, breve, desafiador. Havia nela algo que ainda se recusava a aceitar o aprisionamento polido. Se se lançava de um encontro ao outro, se testava limites, não era apenas por fome de pele. Era tentativa de romper o vidro. De provar que ainda havia passagem.
Mas toda fuga tem seu cansaço.
Para avançar, o cenário precisa mudar. Do brilho frio da reitoria para a penumbra da casa de pai — minha aldeia particular, onde me refugiei naquela noite. Ali, longe das atas e dos olhares institucionais, a máscara acadêmica de Cláudia começa a ceder.
Ela não me procura como amante nem como juiz. Procura-me como espelho.
E é nesse espelho — menos complacente que o de Bolívar, menos inflamado que o de Carlos — que talvez ela tenha de encarar não apenas o desejo, mas o vazio que o sustenta.
*Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho são jornalistas

