Idade da Razão - imagem IA do DM
01-03-2026 às 10h00
Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho *
A universidade subia o morro em curvas, como a avenida onde revi Josafá naquele fim de tarde indeciso. Era mais do que arquitetura: era metáfora. Cada curva parecia repetir nossos desvios, nossos cruzamentos inevitáveis. Aquela instituição era o nosso último reduto. Entre um colegiado e outro, discutíamos não apenas verbas ou métodos pedagógicos, mas o próprio sentido de ainda estarmos vivos depois de tudo.
Se no capítulo anterior a Universidade apareceu como território de luta e desejo, agora ela se revela como o ponto onde esses dois impulsos se enroscam sem pudor.
Para Bolívar, a universidade era uma estrutura de poder — um organismo que precisava de ossatura firme para não colapsar. Ele acreditava na solidez das normas, na hierarquia bem desenhada, na linguagem precisa dos documentos oficiais. A ordem, para ele, era a única forma de proteger o sonho.
Para Cláudia, a universidade era palco e laboratório. Conhecimento e sedução não eram opostos; eram forças complementares. Ela sabia que o pensamento precisa de fricção para não virar dogma. Sabia também que sua presença — intelectual e física — produzia deslocamentos. E nunca fingiu ignorar isso.
Para nós, os “homens sensíveis” — Josafá, eu e outros sobreviventes das sombras — aquela universidade era o único lugar onde nosso passado ainda parecia ter algum brilho. Erguemos aquelas paredes com o mesmo vigor com que amávamos a mesma mulher: com a urgência de quem sabe que o tempo é um carrasco e que a vida pode ser interrompida sem aviso.
O Conselho Universitário era o coração burocrático e político da instituição. Ali, memória da resistência, projeto acadêmico e desejo carnal se comprimiam num mesmo ar denso, saturado de fumaça de cigarro e termos técnicos.
O salão estava impregnado de um silêncio tenso, cortado apenas pelo ventilador de teto que empurrava o calor de abril de um lado a outro. Bolívar presidia a mesa com a rigidez de um busto de bronze. Falava sobre “estratificação do saber” e “estrutura orgânica para a nova faculdade”. Era o discurso da universidade-instituição, a linguagem que transforma sonho em estatuto.
Sentada à esquerda dele, Cláudia não tomava notas. Girava uma caneta entre os dedos, os olhos fixos em um ponto impreciso da parede. Mas era como se ocupasse mais espaço do que a própria mesa. Sua inteligência era afiada; seu silêncio, calculado.
Do outro lado, Carlos — o mesmo das escapadas de final de semana — fingia examinar um relatório técnico. A postura era impecável. Sob a mesa de jacarandá, porém, sua perna avançava milímetro por milímetro, testando o limite do espaço de Cláudia. O gesto não era bruto; era consciente, quase metódico, como quem sabe exatamente onde pisa.
— A universidade não pode ser um apêndice do Estado — dizia Bolívar, com a voz carregada de solenidade. — Deve ser a unidade de pensamento que sobrevive às crises.

Cláudia inclinou-se para frente, interrompendo-o sem pedir licença. O vestido de linho acompanhou o movimento, insinuando curvas que não pediam aprovação. Josafá e eu, sentados ao fundo, trocamos um olhar rápido — não de escândalo, mas de reconhecimento. Conhecíamos aquela energia. Era a mesma que enfrentara interrogadores décadas antes.
— A unidade que você propõe, Bolívar, é asséptica demais — disse ela, a voz rouca, firme. — Uma escola só é real se for atravessada pela vida. Se não houver risco, o que estamos construindo é um museu.
A palavra risco pairou na sala.
Sob a mesa, o sapato de Carlos tocou o tornozelo de Cláudia. Subiu devagar, explorando com precisão um território já mapeado. Ela não recuou. Manteve os olhos fixos no marido, sustentando o argumento com lucidez impecável. Apenas um leve tensionar da mandíbula denunciava a corrente elétrica que lhe subia pelas pernas.
Bolívar ajustou os óculos. Se percebeu o desafio, escolheu enquadrá-lo como divergência teórica.
— Estamos discutindo currículos, Cláudia. Diretrizes objetivas.
Ela não sorriu.
— Estamos discutindo corpos, Bolívar. — A palavra saiu sem hesitação. — A universidade é o lugar onde expropriamos o silêncio que nos impuseram. Se aqui dentro não pudermos experimentar liberdade — em todos os sentidos — então o que estamos defendendo é apenas fachada.
Quando pronunciou o nome de Josafá, evocando os anos de prisão, o ar pareceu rarefeito. Ele, no fundo da sala, sentiu novamente os passos cadenciados que o levaram às celas. E viu, naquela mesa, a síntese estranha do nosso projeto: o marido que dava a institucionalidade, o amante que alimentava o fogo e a mulher que costurava tudo com sentido político.
Carlos passou a mão pela testa, o rosto discretamente suado. Havia nele uma fome que nada tinha de acadêmica. Bolívar retomou a leitura da pauta, falando de orçamentos e prazos.
Mas a verdadeira votação acontecia em outro plano.
Ali estava a nossa Unidade: amor, poder, memória e desejo enlaçados sem pureza. A universidade era construída naquele exato instante — entre um conceito de liberdade e um toque clandestino sob a mesa pesada. Entre o discurso que organizava o mundo e a carne que lembrava que o mundo também pulsa.
E talvez fosse essa mistura — essa liga de atração entre ideias e corpos — que tornava tudo tão perigoso e tão vivo.
(*) Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho são jornalistas

