No cruzamento daquelas duas avenidas, a figura dele tornava-se cada vez mais nítida. A figura se revela sempre; a alma danificada, essa prefere o refúgio do silêncio - créditos: Ilustração Thiago de Paula
12-04-2026 às 07h40
Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho *
Josafá vinha em minha direção, atravessando a névoa clara daquela manhã de abril. Ainda marcávamos nossos encontros com a antecedência de quem viveu sob relógios clandestinos — como se a pontualidade fosse o último resquício de disciplina que o tempo não conseguiu apagar.
Seus passos eram firmes, quase geométricos, cortando a avenida vazia. Havia algo de militar naquela cadência, algo de sobrevivente.
— Eu caminho com cuidado — dizia ele, com um sorriso que nunca chegava aos olhos.
Lembrava-me do meu avô Juca, que recusava bengalas como quem recusa a derrota. “Quem pisa firme não precisa de apoio”, repetia. Mas a firmeza de Josafá não era orgulho. Era cálculo. Cada metro do mundo já lhe fora negado por dez anos, em três metros quadrados de cela.
No cruzamento das avenidas, a figura dele tornava-se mais nítida. A figura sempre se revela. A alma, não. A alma prefere o silêncio.
Eu o esperava com uma pergunta antiga, que me corroía: o que levara aquele homem a amar Cláudia daquela maneira — silenciosa e devastadora? Talvez não fosse apenas amor por ela. Talvez fosse amor por uma ideia: aquela da universidade que erguíamos no alto do morro, tijolo por tijolo, entre uma citação acadêmica e um beijo roubado.
Hoje conto isso porque Marcos morreu. E, com ele, caiu a última parede de silêncio. A morte dele abriu um espaço onde o silêncio já não faz sentido. Amávamos a mesma mulher. Nunca disputamos. Nunca confessamos. Carregamos essa verdade como se fosse mais uma disciplina clandestina.
No enterro de Cláudia, não fomos rivais. Fomos dois homens abraçados àquilo que restava.
Talvez ele soubesse. Talvez sempre soubesse. Há amizades que sobrevivem justamente porque escolhem não perguntar.
*Lucília Lopes e Tito Guimarães Filho são jornalistas

