Créditos: Divulgação
25-03-2026 às 10h27
Sérgio Augusto Vicente*
Duas janelas emolduram os rostos de duas mulheres. Entre ambas, separando-as ou interligando-as
(a depender do ponto de vista), a linha férrea. O momento é de despedida, de um adeus que se
repete às segundas-feiras. Ao redor, casas simples, ruas de um arraial mineiro.
O pescoço se alonga até se perder de vista. De um lado, a filha dentro do ônibus. Do outro, a mãe na
janela da casa centenária. Corações partidos pela necessidade da vida.
As mãos se levantam e atravessam as molduras (digo: janelas). Olhos lacrimejantes, palpitações e
um gosto de quero mais. Até a próxima segunda!
O ronco do ônibus impõe a distância geográfica, deixando para trás a vida pacata e provinciana de
um lugarejo que um dia se formou ao redor de uma estação ferroviária da Estrada de Ferro D. Pedro
II que, com a República, passou a se chamar Estrada Ferro Central do Brasil.
A antiga estação, ao lado da casa da senhora aqui citada, evoca remotas lembranças do tempo em
que o trem também por ali passava para transportar passageiros. Tempo de plataforma cheia, de
pessoas tagarelando com suas malas nas mãos, de gente chegando e partindo, sorrindo e chorando.
Ali, a vida pulsava, as novidades chegavam, casais fugiam, o comércio florescia… Tudo num
passado que parece muito mais remoto do que realmente é, ainda presentificado nas memórias dos
que viveram essa época e por aqui permanecem para nos contar.
As mulheres das duas janelas têm nome e história. Dona Terezinha, com seus mais de 90 anos,
viúva e moradora antiga daquela casa e daquele lugar, onde se casou com um dono de armazém e
criou seus filhos e filhas. Uma delas, a da janela do ônibus, professora experiente e mãe de dois
filhos adultos, sempre que pode, visita a mãe aos finais de semana e feriados.
Cotegipe é o nome desse pacato lugar. Distrito de Simão Pereira (Minas Gerais), a poucos
quilômetros de Matias Barbosa e de Juiz de Fora. Lugar de vida calma, aparentemente parada no
tempo. Falsa impressão. Ali, a vida não se estagnou. Pelo contrário, quase nada se manteve
incólume à contagiante brisa sedutora da vida citadina, outrora levada pelo trem, depois pelo
ônibus, pelos carros, pelo rádio, pela televisão e, mais recentemente, pelos smartphones conectados
à internet.
Terezinha e Margarete ainda se despedem à moda antiga, da forma mais humana que se possa
imaginar. Cena digna de uma moldura capaz de eternizá-la na parede mais bonita da sala.
A cena me remete à minha infância na roça, em que a comunicação acontecia por cartas ou pela
cabine telefônica do Sr. Toninho, que anotava na caderneta o número do DDD e as horas exatas do
início e do término das ligações, cobradas do usuário com juros e correção monetária. O telefone
era de discar e os meios de transporte que nos levavam até ele eram o cavalo, a bicicleta ou a
famosa “viação canela”. Era preciso uma dose cavalar de disposição física e de expectativa para ir
ao encontro da novidade.
Ritualizávamos a notícia e, quando não era possível atualizá-la, usávamos a imaginação, como nas
diversas vezes em que subíamos no pico da montanha a fim de espreitar a passagem do Belvedere
pela estrada vizinha, na expectativa da chegada de nossa Tia Adélia, que vinha do Rio de Janeiro
passar o Natal conosco, no sítio. Pelo telefone do Sr. Toninho, tomávamos conhecimento da data
aproximada – nunca exata – de sua chegada. De tal maneira que, por duas ou três vezes,
esperávamos o ônibus dobrar a curva e passar em vão pela encruzilhada. Ao menor sinal de sua
parada, descíamos em disparada o longo morro de onde avistávamos o Belvedere: coincidentemente
ou não, uma bela vista, apesar de nem sempre acompanhada do desfecho esperado.
Margarete e D. Terezinha me fazem relembrar o tempo em que a melancolia da partida e a
expectativa da chegada eram ritualizadas e não se confundiam necessariamente com a ansiedade de
uma “pseudo-vida” ritmada pelos toques abruptos e automáticos de uma tela demolidora da
habilidade cognitiva da espera. Uma espera que não se confundia com o tédio. Uma espera cujo
tempo não era despendido, mas dedicado à simbolização de presenças ausentes, de memórias
afetivas e de experiências de subjetivação. Tempo em que a espera era preenchida de significados
edificantes para a vida, e não da ansiosa, angustiante e alienante rolagem eterna dos fúteis,
fragmentados e descontextualizados vídeos do Tik-Tok.
Não me prendo à armadilha do saudosismo. Apenas procuro entender, ainda incrédulo, os novos
rumos da humanidade e a viabilidade da vida nessa “era” em que o efêmero, o superficial/artificial e
o imediatismo tomaram conta do existir.
Enquanto reflito sobre a cena que acabo de contemplar de dentro do ônibus, talvez despercebida aos
olhos hiperconectados dos demais passageiros, admiro as paisagens recortadas pelas grandes janelas
retangulares em movimento e tento resistir à tentação do pequeno, azul e reluzente retângulo,
oráculo da pós-modernidade, escondido, apagado, no bolso da calça. Mas eis que chega a hora de
exercitar o “toque sensível”, o touchscreen da alma, por meio do qual registro esse breve e
despretensioso devaneio…
*Sérgio Augusto Vicente é editor de cultura do Diário de Minas. É historiador da Fundação Museu
Mariano Procópio, curador e escritor, com graduação, mestrado e doutorado em História pela UFJF.

