Sede do governo Paraguaio em Asuncion - créditos: divulagação
15-03-2026 às 18h00
Samuel Arruda*
Esta semana se alardeou pela mídia impressa e digita que EUA estaria montando base militar no Paraguai. Mas não se trata oficialmente da instalação de uma base militar permanente, e sim de um acordo que permite a presença e atuação de militares dos Estados Unidos em território paraguaio.
O Congresso do Paraguai aprovou um acordo conhecido como Status of Forces Agreement (SOFA), que autoriza a presença de militares e civis do Departamento de Defesa dos EUA no país para atividades como treinamentos, exercícios, ações humanitárias e cooperação em segurança.
O tratado também concede facilidades logísticas e imunidades diplomáticas aos militares norte-americanos, permitindo circulação de aeronaves, embarcações e equipamentos militares mediante notificação às autoridades paraguaias.
Autoridades paraguaias afirmam que o acordo não prevê oficialmente a criação de uma base militar permanente nem cessão territorial aos EUA, embora estabeleça um marco legal para presença e operações militares temporárias.
No contexto geopolítico, a iniciativa faz parte de uma estratégia mais ampla de cooperação em segurança no hemisfério ocidental, associada a projetos como o “Escudo das Américas”, voltado ao combate a cartéis e redes criminosas transnacionais.
Na prática, acordos desse tipo frequentemente funcionam como porta de entrada para presença militar contínua, mesmo quando não se cria formalmente uma base permanente. Historicamente, os EUA utilizam acordos SOFA para estabelecer infraestrutura logística e operações militares conjuntas em países aliados.
A aprovação do acordo gerou críticas de setores da oposição paraguaia e analistas regionais. Entre os principais pontos questionados estão:
Possível perda de soberania, já que militares norte-americanos podem operar com imunidades jurídicas semelhantes às diplomáticas.
Ampliação da influência militar dos EUA na América do Sul, região historicamente sensível à presença estratégica de Washington.
Risco de militarização da Tríplice Fronteira, área próxima ao Brasil e à Argentina e frequentemente associada ao combate ao crime organizado.
Especialistas também apontam que a presença militar externa pode alterar o equilíbrio geopolítico regional, especialmente se evoluir para instalações permanentes ou operações ampliadas.
Embora não haja anúncio formal de reação dura do governo brasileiro até o momento, o tema tende a gerar atenção diplomática em Brasília, por três motivos principais:
-Proximidade geográfica;
-O Paraguai faz fronteira direta com o Brasil, inclusive na região estratégica da Tríplice Fronteira (Brasil-Paraguai-Argentina);
-Doutrina diplomática brasileira;
-Historicamente, a política externa brasileira privilegia autonomia regional e redução da presença militar extrarregional na América do Sul;
-Segurança e integração regional;
A presença militar de uma potência externa pode afetar mecanismos regionais de cooperação, além de interferir em agendas de segurança e integração no Mercosul;
Do ponto de vista estratégico, o acordo levanta questões importantes:
A justificativa oficial é o combate ao narcotráfico e ao crime transnacional, mas operações militares desse tipo frequentemente têm objetivos geopolíticos mais amplos.
A presença dos EUA pode reforçar a dependência militar de países menores da região.
A América do Sul historicamente buscou manter-se como zona de relativa autonomia estratégica, sem grandes bases militares de potências externas.
Nesse cenário, o debate sobre o acordo Paraguai-EUA não é apenas jurídico ou militar, mas também político e geopolítico, envolvendo soberania nacional, influência regional e equilíbrio estratégico no continente.
*Samuel Arruda é jornalista e articulista

