
Éramos doze na década de 1970. CRÉDITOS: Divulgação
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02-04-2025 às 09h44
Alberto Sena*
Éramos doze na Editoria de Polícia do jornal Estado de Minas, na década de 1970. Acaso fôssemos reunir hoje a turma de excepcionais colegas de equipe chefiada por Wander Piroli, poderíamos contar com a minha presença física e de mais três, Tito Guimarães Filho, Arnaldo Viana e Paulo Narciso.
Sete dos doze já não mais estão no meio de nós, mas de alguma maneira certamente estariam presentes: Wander, Paulo Lott, Fialho Pacheco, Vargas Vilaça, André Carvalho, Délio Rocha, Marcos Andrade e desde a noite deste seis do mês junino de fogueiras de São João, João Gabriel da Silva Pinto, intrépido repórter, também fez a passagem, em Itaúna (MG), segundo me informou o jornalista e escritor Tito Guimarães.
Grande companheiro João Gabriel! Por esses dias me lembrei e ainda perguntei ao Tito se tinha notícias dele, grande admirador de Ernest Hemingway e Guimarães Rosa. Voltou para a terra natal, Itaúna, onde trabalhava na Prefeitura Municipal.
Tinha o número do celular dele na minha agenda antiga, fiz uma ligação, mas uma voz feminina gravada disse “esse número não existe”. Fiz nova tentativa numa incursão virtual, mas não obtive êxito e então me envolvi com outras coisas e vim agora saber ter ele partido e só nos restaram as lembranças.
Uma das marcantes coberturas realizadas por João Gabriel, foi o caso do abandono de 90 crianças presas (como se crianças pudessem ser presas) em São Paulo e abandonadas em Camanducaia (MG).
João Gabriel foi lá e produziu reportagens de grande conteúdo político e socioeconômico que fez dele um dos melhores repórteres dessa safra, com texto brilhante, que bem demonstrava as suas origens simples.
“Wander se referia com orgulho a este trabalho realizado pelo “canalha”, acho que era assim “carinhosamente” que ele se referia ao “João, o “filho do carroceiro”, dono de faro e excelente texto jornalístico”, como lembra Tito e eu também.
Essa nossa convivência durou eternos sete anos, quando então fui viver pouco mais de um ano em Viçosa (MG) e Wander foi convidado a criar o Jornal de Shopping, um semanário para concorrer com o Jornal de Casa, do qual fui convidado a participar.
Corria o ano de 1980. A exaltada Editoria de Polícia do Estado de Minas se dispersou naturalmente como manda o figurino do destino de cada um. Claro que ainda me encontrei com João Gabriel noutras paragens, como o jornal Hoje em Dia.
De uns anos para cá não mais vi João Gabriel. E para lembrar uma das muitas reportagens feitas em parceria, tenho fresquinha na memória a nossa caçada frustrada ao Ramiro Matildes Siqueira, apelidado “Bandido da Cartucheira”.
Disse “nossa caçada” porque acompanhávamos a polícia nessa incursão. Os policiais em suas respectivas viaturas e nós em carro de reportagem. Passamos a noite dentro dos carros para surpreendermos Ramiro logo cedo.
Ele estaria escondido numa grota. João e eu íamos quase sem respirar para não fazer barulho, em meio à um bananal, quando um beija-flor nos assustou ao passar zunindo por nossos ouvidos. E quando estávamos numa trilha e nos aproximando da grota, um policial acidentalmente fez disparar o rifle.
Se Ramiro ali estivesse, teria dado no pé. Um policial fez dois ou três disparos para dentro da grota, só para constar porque por ali não passara nem o espectro do “Bandido da Cartucheira”.
Ao companheiro João Gabriel, aplausos, meus respeitos e considerações. Certamente, teve uma boa recepção ao atravessar o túnel e se acha na luz eterna.
LUTO NA IMPRENSA
Morre João Gabriel da Silva Pinto
08 de junho de 2022
Foi sepultado ontem, em Itaúna, Centro de Minas, sua cidade natal, o corpo do jornalista João Gabriel da Silva Pinto. Com marcante passagem pelo Estado de Minas e Rádio Guarani, ele completaria 73 anos no próximo dia 15. João Gabriel começou a carreira na Folha do Oeste e, depois de passagens pelo Itaunense e Brechor, transferiu-se para Belo Horizonte.
Atuou no Diário de Minas antes de ingressar no Grande Jornal dos Mineiros, no qual alcançou o ápice da carreira como repórter e subeditor da Editora de Polícia.
Conquistou, em 1977, o Prêmio Esso de Reportagem, em equipe, com a cobertura da morte do operário Jorge Defensor, preso e torturado pela Polícia Civil.
Trabalhou ainda nas rádios Guarani e Guarani Rural. Nas emissoras dos Associados, fez importantes coberturas de alcance social e acompanhou a visita do papa João Paulo II à capital mineira. Gabriel foi ainda profissional da Rádio Educadora de Coronel Fabriciano, jornal Hoje em Dia e Rádio Inconfidência Rural.
Ele não resistiu a um câncer.
* Alberto Sena é jornalista