Brasil dos sonhos, das ilusões, e eterno país do futuro - créditos: divulgação
18-02-2026 às 11h08
Por Marcelo Barros Gomes
A Quarta-Feira de Cinzas de 2026 traz uma coincidência eloquente. Enquanto o Brasil encerra seu Carnaval e limpa as ruas, a China inaugura, em17 de fevereiro, o Ano do Cavalo de Fogo — ciclo que retorna a cada 60 anos e simboliza movimento acelerado, coragem e ação direta. A metáfora é produtiva: de um lado, a disciplina de varrer a rua, separar o que presta do que deve ser descartado; de outro, o impulso de executar sem paralisia, com foco. Não se trata de escolher, mas de combinar governança que organiza e velocidade que entrega.
O momento brasileiro é decisivo. O país fecha mandatos presidencial e estaduais, inicia transições que podem repetir vícios antigos ou inaugurar novo padrão — e opera dentro de janelas de oportunidade que começam a se fechar. A pergunta não é retórica: depois da festa, o que sobra no chão, o que fazemos com isso e quanto tempo ainda temos?
Até 2041, o Brasil ainda desfruta de bônus demográfico decrescente. A proporção de população em idade ativa permite investir em educação, infraestrutura e inovação sem pressão irreversível sobre previdência e saúde. A partir de 2041, o país entra em envelhecimento acelerado: menos trabalhadores sustentando mais dependentes. A janela fecha em 15 anos. Isso significa que o tempo para reformas previdenciárias, elevação de produtividade, universalização da alfabetização e integração tecnológica é agora. Cada ano perdido reduz a capacidade de construir base sólida. Não é retórica: é matemática demográfica.
A segunda janela é ambiental. O Brasil detém o maior patrimônio de biodiversidade do planeta, a maior floresta tropical, recursos hídricos abundantes e potencial renovável. Mas essa vantagem só vira ativo econômico com governança rigorosa, rastreabilidade de cadeias produtivas e crédito de carbono com integridade. O mundo exige padrões de sustentabilidade para acesso a mercados de alto valor. Hidrogênio verde, mobilidade elétrica, bioeconomia florestal precisam sair do piloto. O tempo não espera; os competidores globais aceleram.
A terceira é digital. Inclusão digital — conectividade universal, identidade segura, serviços públicos digitalizados, interoperabilidade de bases — pode reduzir desigualdades e elevar produtividade. Mas exclusão digital aumenta abismos em velocidade exponencial. A janela se fecha enquanto outros países avançam em inteligência artificial e automação. Digitalização não é opcional; é pré-requisito para competir no século XXI.
O aproveitamento dessas janelas exige honestidade sobre obstáculos crônicos. O centro de governo permanece frágil, com pastas disputando protagonismo. O ruído federativo transforma pactos nacionais em colchas de retalhos. A comunicação oficial é reativa, tardia. A descontinuidade se repete: a cada troca de cadeiras, o país recomeça do zero. E a corrupção sistêmica corrói confiança. Mas o enfrentamento não pode virar paralisia. Integridade se constrói com desenho institucional sólido, transparência radical, dados auditáveis. É hora de trocar a lógica do escândalo pela lógica da entrega.
Christopher Hood, criador do termo New Public Management e uma das mentes mais influentes na reforma do Estado, faleceu em 2025. Tive a honra de tê-lo como orientador no Mestrado em Administração Pública e Políticas Públicas na London School of Economics. Hood nos desafiava: existe gestão pública para todas as estações? A experiência global mostrou que não há fórmula universal. Cada nação precisa construir suas “vestimentas institucionais” — desenhadas para operar nos ambientes mais adversos. Instituições que aprendem, sistemas que corrigem rota, políticas que sobrevivem a trocas de governo porque entregam resultados verificáveis.
A transição 2026-2027 exige método. Nos primeiros 60 dias, diagnóstico público deve inventariar políticas, contratos e sistemas. Em 100 dias, metas operacionais na ponta — matrículas, leitos, obras licitadas — sinalizam que mudança acontece no balcão, não apenas no discurso. Em 6 a 12 meses, pactos federativos temáticos com indicadores padronizados e revisões públicas. Consórcios regionais em logística, saúde, segurança e energia elevam qualidade da execução.
Transições de governo são momentos de maior vulnerabilidade e oportunidade na gestão pública. É quando descontinuidades custam caro e a curva de aprendizagem consome tempo precioso. O Instituto Internacional de Inovação em Políticas Públicas e Soluções (3Ipês) se propõe a apoiar essas transições com evidência, coerência sistêmica e transparência. Não se trata de substituir a política, mas de dar-lhe trilhos, dados e método. A política decide prioridades; a técnica desenha execução; a avaliação independente verifica resultados. Índices de integridade, pactos federativos com metas verificáveis, capacitação de gestores e difusão de melhores práticas reduzem volatilidade regulatória, cortam redundâncias e aumentam a taxa de conclusão de projetos prioritários. Esse tripé permite execução rápida sem perda de controle, inovação sem improviso e correção de rota sem trauma.
Governar é priorizar. Lista curta de prioridades nacionais, custeadas, realizadas em parceria com o setor privado sempre que possível e mensuráveis: alfabetização plena, atenção primária em saúde, combate à violência letal, infraestrutura logística, energia limpa, saneamento, conectividade digital, primeira infância. Orçamento é finito, tempo é escasso. Parcerias são a chave para impulsionar entregas efetivas.
A inserção internacional articula três âncoras. O Leste Asiático oferece lições de escala e velocidade e se apresenta como o maior mercado para nossos produtos. A Europa exige padrões regulatórios e rastreabilidade, condição para agregar valor às exportações. A América Latina, que se afirma culturalmente no Grammy e no Super Bowl com Bad Bunny, precisa traduzir força simbólica em integração econômica concreta: corredores de transporte, energia compartilhada, mercado digital comum.
Exemplos nórdicos mostram que tamanho não é destino; governança é. Finlândia, Noruega, Suécia e Dinamarca construíram excelência com população menor que muitas cidades brasileiras. A primeira medalha olímpica brasileira em Jogos de Inverno simboliza que o Brasil pode competir em qualquer terreno.
A pergunta mais importante é: ao final das próximas décadas estaremos no rol de nações que aprendem ou que fracassam? Que avalia políticas, registra lições, institucionaliza boas práticas, não recomeça do zero a cada troca de governo? Descontinuidade crônica não é destino; é escolha. Países que aprendem, avançam em agendas transformadoras. Países que repetem erros, retrocedem. No fim do dia, manter saudáveis as instituições e escolher boas práticas, baseadas em evidências, é o único caminho.
O Brasil tem15 anos para transformar a descendente oportunidade de bônus demográfico em produtividade, vantagem ambiental em renda, inclusão digital em oportunidade. A janela está aberta. Mas não estará para sempre. Varrer a rua é o começo. Galopar com propósito é o desafio. Aprender com o caminho é a garantia de progresso sustentável. Seremos nação que aprende, integra, executa e entrega? A resposta começa agora, no dia seguinte ao confete. Que os debates eleitorais suplantem o campo das acusações recíprocas para propostas concretas de um novo Brasil ao encontro de seu destino de potência global.
Marcelo Barros Gomes é Mestre em Administração Pública e Políticas Públicas pela London School of Economics (LSE) e Diretor Acadêmico do Instituto3Ipês.

