Ilustração- créditos: Imagem gerada por IA
08-02-2026 às 09h42
Gisele Bicalho*
Você já reparou que nomes também seguem modismos? Mais que isso, contam histórias? Alguns desaparecem sem deixar rastro. Ou você vai me dizer que conhece algum bebê chamado Umbelina? E Liberalina? Pois esse era o nome da minha avó paterna. Não foi herdado por nenhuma neta ou bisneta. Já Maria Luiza, nome oficial da minha avó Cocota, atravessou gerações. O mesmo acontece com Guilherme, firme na família há mais de quatro gerações.
Muitas vezes me pergunto por que certos nomes ganham força de repente. Helena é um bom exemplo. Foi o mais registrado no Brasil em 2025: nada menos que 28.271 crianças. É um nome sonoro e delicado. Mas será que isso basta para convencer quase 30 mil mães? Seria influência da TV? Até poderia ser. Manoel Carlos adorava batizar suas personagens de Helena. Por outro lado, hoje não há nenhuma Helena em destaque na telinha. Se não é isso, então, fica a pergunta que não quer calar: o que faz um nome se tornar moda ano após ano?
O que dizer dos milhares de Gael, Theo, Noah e de Maitê? Talvez esteja surgindo uma tendência de nomes simples e marcantes. Pode ser. Vai saber, né?
Há também os que não respeitam regras e são tradicionais. É o caso de Maria e de José, os mais comuns do Brasil. Atravessam séculos e gerações. De origem bíblica, carregam forte simbolismo religioso e cultural: Maria, associada à delicadeza e devoção, é o nome feminino mais registrado no país; José, ligado à simplicidade e firmeza, é o masculino mais recorrente. Juntos, formam uma dupla que traduz a identidade brasileira, presente em milhões de certidões e perpetuada em famílias que valorizam a tradição.
Se Maria e José são tradicionais, nomes das flores brasileiras também viraram tendência nos cartórios. Jasmin e Íris, por exemplo, são escolhas femininas delicadas e marcantes. Para além disso, são fáceis de pronunciar, modernos, simples e cheios de significado. Lembrando que Maria Flor virou tendência. É a mistura perfeita do tradicional com o moderno.
Há também muitos pais e mães que escolhem o nome dos filhos como forma de homenagear quem é referência para eles. Em tempos de Oscar, de “Ainda estou aqui” e de “O Agente Secreto”, certamente vão surgir muitas Eunices e Marcelos, personagens de Fernanda Torres e de Wagner Moura.
Na minha casa tem um caso desses. Quando Jacqueline nasceu, Mamãe quis homenagear a então primeira-dama dos Estados Unidos. Sorte da Jacq ter nascido mulher. Se fosse homem seria John Kennedy. Escapou por pouco da roubada.
Ah, e sobre os nomes compostos? Você não vai dizer nada? Vou, sim. Gosto muito dos nomes compostos. Eu sou Gisele Maria. Na minha casa ainda tem Denise Aparecida, tributo à Nossa Senhora. Guilherme ganhou Carlos em homenagem ao nosso avô paterno. Maria Luiza, como já contei no início dessa prosa, é lembrança da nossa avó. E Paulo Humberto, que quase ninguém conhece, carrega o nome de um dos irmãos do meu pai. Como assim não conhece? É que desde o útero ele foi chamado de Beto, referência ao Beto Rockfeller, personagem de uma novela famosa exibida no ano em que nasceu.
Gyslaine, a primogênita, seguiu na mesma toada e batizou os rebentos com nomes compostos carregados de simbolismo: João Guilherme, em homenagem aos bisavôs: Ana Dulce, combinação da bisavó e da avó, e Iara Luiza. Olha a Vovó aí de novo figurando na terceira geração. Já Iara foi uma escolha da nossa mãe. Acredito que seja pela sonoridade porque está relacionado ao folclore brasileiro, que tinha na Dona Nely uma defensora ferrenha.
Resumindo essa prosa toda, no fim das contas, nomes são mais que palavras: são memórias, modismos, homenagens e afetos que atravessam gerações. Uns desaparecem, outros ressurgem, alguns se eternizam. Entre Helenas, Marias, Josés, Jacquelines e Jasmins, cada escolha carrega uma história. A minha já contei: sou Gisele Maria. E você, qual é a história que o seu nome guarda?
FacebookTwitterWhatsAppEmailCompartilhar
*Gisele Bicalho é jornalista

