
Dom Pedro II 200 Anos - créditos: divulgação
31-08-2025 às 10h00
Maria de Fátima Moraes Argon (*)

As imagens de D. Pedro II (1825-1891) e da família imperial, representação exemplar da boa sociedade no Brasil, ajudaram a difundir modelos de sociabilidade e civilidade, cultivados pelos brasileiros dos oitocentos como “modos franceses”. Livrarias e tipografias do Rio de Janeiro, além de oferecerem livros, revistas e outras publicações ilustradas, também promoviam a encomenda, a edição e a comercialização de desenhos, gravuras, litogravuras e, a partir de meados do século XIX, de fotografias da família imperial. As exposições da Academia Imperial de Belas Artes, por sua vez, apresentavam para um público ainda mais amplo retratos que projetavam a imagem pública do monarca como representante da família e da nação, exibindo em quadros a evolução de uma biografia singular.
Entre os que contribuíram para esse processo de idealização e assimilação das imagens da monarquia, destacam-se dois irmãos pintores, provenientes das Ardenas, François-René Moreaux (1807-1860) e Louis-Auguste Moreaux (1818-1877), que se fixaram no Rio de Janeiro, em 1838, quando também se iniciava o Segundo Reinado. Na pintura de François-René Moreaux, os retratos que apresentam o imperador em trajes majestáticos, ou como chefe de família ao lado da imperatriz e das princesas, repetem fórmulas já conhecidas de representação da realeza e da nobreza europeias nos ateliês de pintura. Na tela de François-René representando D. Pedro, a imperatriz D. Thereza Christina (1822-1889) e as princesas D. Isabel (1846-1921) e D. Leopoldina (1847-1871), datada de 1857 – que faz parte do acervo do Museu Imperial –, o imperador aparece com uma das mãos metida dentro da casaca, numa referência à famosa pose consagrada por Napoleão, como bem observa Lilia Schwarcz (1998, p. 333): “coincidência ou não, o fato é que as imagens, como que em paralelo, vão narrando uma outra história desse mesmo imperador”.
A partir dessa pintura, o litógrafo e editor Henrich Fleiuss (1823-1882) realizou, tempos depois, uma litogravura de reprodução intitulada A Augusta Familia Imperial do Brazil, que possibilitou maior circulação e difusão da obra. Henrich Fleiuss emigrou para o Brasil com o irmão Carl Fleiuss (?-1878), em 1859, e, no ano seguinte, associaram-se ao pintor e litógrafo alemão Karl Linde (c.1830-1873), com quem fundaram a firma Fleiuss Irmãos & Linde e o Instituto Artistico, inaugurado em 11 de janeiro de 1861, uma das mais importantes casas impressoras e editoriais da segunda metade do século XIX no Brasil.
A litogravura que aqui vemos dos imperadores e das princesas, também sob o título A Augusta Familia Imperial do Brazil, é uma das muitas peças do acervo do Museu Mariano Procópio, que tem em sua rica coleção um expressivo conjunto documental do período oitocentista e da família imperial, desde manuscritos, gravuras, pinturas, fotografias e objetos de grande valor histórico e artístico. A peça é assinada por C. Linde, produzida provavelmente entre 1860 e 1861, e impressa pelo Instituto Artistico Fleiuss Is. & Linde, situado à Rua Direita nº 59, medindo 31,5 cm x 44,8cm. Certamente, estas duas litogravuras da família imperial foram produzidas para promover seu instituto e, é claro, atrair as simpatias do imperador que, em 1863, concedeu ao estabelecimento a mercê do título de imperial, passando o estabelecimento a se chamar Imperial Instituto Artístico.

Legenda – Litogravura intitulada A Augusta Familia Imperial do Brazil. Acervo da Fundação Museu Mariano Procópio.
Os elementos de composição, como o ambiente/cenário, as poses, os objetos de decoração e os acessórios, são importantes para as diferentes modalidades de representação dos indivíduos retratados. As escolhas são sempre carregadas de intenções, sejam elas do artista ou do retratado, que acabam por atribuir significados à imagem. O premiado pintor e litógrafo Carlos Linde retrata um momento íntimo da vida familiar de D. Pedro II, no jardim de sua residência, desfrutando de uma hora de descanso, em uma ambientação envolta por tons claros e escuros, em diálogo com a indumentária da figura masculina, trajando roupa escura e sóbria, trazendo na lapela a insígnia de grão-mestre da Imperial Ordem da Rosa, em contraste com as figuras femininas trajando românticos vestidos claros, criando, assim, uma atmosfera de paz e harmonia.
A disposição de cada membro da família soberana delineou o seu lugar e papel dentro do grupo familiar, demonstrando uma narrativa visual e constituindo-se em um ato de construção de memória. D. Pedro II está colocado à esquerda, em um plano levemente elevado da imagem, sentado em uma cadeira de braços suntuosa, enquanto a imperatriz, à direita, sentada quase à sua frente, em uma cadeira mais simples, tendo a seu lado a sua filha caçula. A única personagem estrategicamente representada em pé é a Princesa Imperial D. Isabel, no centro da imagem, com o braço esquerdo estendido próximo à irmã, mas com o corpo voltado à esquerda em direção ao pai e sua mão direita sobre a cadeira dele, colocando-se na posição de herdeira do trono. Vale ressaltar que, em 29 de julho de 1860 – portanto, em data próxima à produção dessa litogravura –, esta havia prestado juramento à Constituição.
Os objetos vinculados aos indivíduos podem dizer muito sobre eles; estão carregados de intenções, escolhas, histórias e afetos. A imperatriz está segurando um leque, símbolo de luxo e elegância; D. Leopoldina segura flores, símbolo de inocência e pureza; a ausência de acessórios para D. Isabel, em consonância com a sua linguagem corporal, enfatiza o papel que exerceria no futuro. D. Pedro tem nas mãos um livro, associando seu nome e sua imagem à de homem ilustrado e reforçando sua figura de protetor das ciências e das artes.
Todos os retratos de D. Pedro II evidenciam semblantes, gestos e trajes carregados de simbolismos e impregnados por uma complexa simbologia social, que ajudaram a moldar uma imagem do imperador para além do seu tempo. Um bom exemplo disto é a estátua de D. Pedro II, a primeira em praça pública, inaugurada em Petrópolis, em 5 de fevereiro de 1911, cujo projeto de autoria do escultor Jean Magrou (1869-1945) foi escolhido pela “Comissão Executiva do Monumento á Memoria de D. Pedro II”, mas sendo solicitado ao artista uma única mudança: que o chapéu fosse substituído por um livro, a fim de perpetuar a “melhor” imagem construída por e para o imperador, de homem sábio e mecenas da produção científica, artística e literária no Brasil.
O projeto da estátua, que foi iniciativa de um grupo de pessoas com destaque para o Conde de Affonso Celso (1860-1938), contou com apoio de nomes importantes no cenário político, no mundo das artes e das letras, como Alfredo Ferreira Lage (1865-1944), filho do empresário Mariano Procopio Ferreira Lage (1821-1874), que tinha um vínculo político e de amizade com o Imperador D. Pedro II. Alfredo esteve presente no dia da inauguração da estátua e, meses depois, recebeu do Conde de Affonso Celso a encomenda da medalha comemorativa do monumento. O Museu Mariano Procópio, criado em 1921 a partir da sua coleção particular, conserva um medalhão (53,5 x 50 x 2,5cm), em bronze, com moldura de madeira entalhada, encimado pela coroa imperial e sete medalhas comemorativas do monumento: três em bronze (sendo uma exemplaire d´auteur nº 7), uma em prata, uma em prata dourada e duas provas de medalha – uma em chumbo e outra em bronze.
Na maioria dos retratos de D. Pedro II, sobretudo fotográficos, o livro é um elemento de composição que exerce um papel simbólico de legitimação da imagem construída durante toda a sua trajetória, como se vê nesta fotografia do acervo do Museu Mariano Procópio, tirada no período do exílio, em 8 de abril de 1891, no ateliê de Numa Blanc Fils (1849-1922). Nela, encontram-se dois livros sobre a mesa, um fechado e outro aberto, como se D. Pedro fizesse uma pausa nos estudos para se deixar fotografar com a sua filha e o seu neto, D. Pedro, o Príncipe do Grão Pará, aquele que teria sido D. Pedro III na sucessão.


Legenda – Fotografia (frente e verso). Acervo da Fundação Museu Mariano Procópio.
As pinturas, as gravuras e as fotografias foram instrumentos importantes na construção e/ou consolidação do (auto)retrato de D. Pedro II, uma vez que as imagens não são neutras; elas são uma construção histórica que expressa conceitos, sensações e emoções, produzindo, portanto, um discurso que contribui para a construção de uma identidade.
Saiba mais!
ARGON, Maria de Fátima Moraes. A estátua de d. Pedro II: arte, memória e política. O centenário da primeira estátua de d. Pedro II, inaugurada em Petrópolis, em 5 de fevereiro de 1911. Revista IHGB, Rio de Janeiro, a. 173, n. 455, pp. 11-300, abr./jun. 2012.
ARGON, Maria de Fátima Moraes; Turazzi, Maria Inez. Retratos no estrangeiro; o Brasil Imperial nos ateliês franceses. Petrópolis: Museu Imperial, 2009.
CERQUEIRA, Bruno da Silva Antunes de; ARGON, Maria de Fátima Moraes. Alegrias e Tristezas; estudos sobre a autobiografia de D. Isabel do Brasil. São Paulo: Linotipo Digital; Brasília: IDII, 2019.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador. D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 333.
(*) Maria de Fátima Moraes Argon é graduada em História pela Universidade Católica de Petrópolis e especializada em História do Brasil pela Universidade Candido Mendes e bacharel em Arquivologia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Pesquisadora aposentada do Museu Imperial (1980-2018). Atualmente, é arquivista-titular do Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade, unidade da Universidade Candido Mendes. Sócia do IHGB e de outras instituições congêneres.