Créditos: Divulgação
11-02-2026 às 09h29
Sérgio Augusto Vicente*
Dizem que o tempo nos apaga a dor e nos deixa apenas com a saudade do ente querido que partiu desse plano. Entretanto, talvez essa não passe de uma forma simplista de encarar os fatos.
Pela primeira vez, estou vivendo e sentindo na pele a verdadeira e mais intensa experiência do luto. Já faz cinco meses do falecimento do meu pai, mas não há um dia sequer em que não me lembre dele.
O luto tem as suas fases. No início, o pranto, o choro desconsolado e o choque da perda. Depois, a ilusão dos sentidos. O cérebro nos blinda, transformando a presença ausente materializada nos cheiros que ainda permanecem nos objetos pessoais, na posição exata em que os objetos eram deixados pela pessoa, em ilusão de uma ausência temporária. Tudo não parece se passar de uma simples viagem com expectativa de retorno.
Acontece que o tempo se passa, vai passando, passando, passando… e a ilusão da ausência temporária se transforma em um espaço vazio que se torna maior do que as memórias, que trabalham insistentemente na multiplicação da saudade. As memórias matam a ilusória expectativa do retorno que estava no inconsciente e tudo se metamorfoseia em doces saudades que apertam o peito como um fruto meio verde. Saudade de algo que, cada vez mais, escapa das mãos e temos medo de perder através do efeito deletério do tempo. Sim! Perderemos também as memórias, mas tudo se esvai num compasso tão lento… Os gregos antigos diriam que não podemos cochilar com a silenciosa e potente borracha que Cronos carrega nas mãos. Por isso, creditamos a Aian, o deus da eternidade, a missão de não deixar que as memórias se apaguem.
Mas o fato é que não acredito em deuses capazes de imortalizar as memórias. Essa é uma tarefa que nos compete. Preservar memórias é um dever permanente. Tudo se esvai quando não é cultivado, como a planta que morre sem adubo e água, por inanição. Portanto, cultivemos as memórias diuturnamente, como a planta que enfeita a sua varanda.
Para quem fica, resta a responsabilidade de evitar a segunda morte: a do esquecimento. Ainda que, espontaneamente ou de forma deliberada, façamos com as memórias de quem partiu os mais diversos usos e até as romantizemos, o fato é que não vivemos sem memórias. Afinal, cada ente que parte é um pedaço de nossa identidade que se vê ameaçada e precisa ser preservada para que o tempo não nos apague. Preservá-la é mais do que um instinto de sobrevivência: é uma estratégia de sobrevivência e resistência em um mundo efêmero e volátil, dominado pelo Alzheimer coletivo do individualismo narcísico.
Somos mais do que performances em redes sociais, do que imagens de heróis e heroínas, imersos em simulacros de fantasias vazias, como se o sofrimento não nos fizesse parte ou nos bastássemos diante do espelho.
Somos todos construções coletivas com pitadas de livre-arbítrio. E o luto faz parte da dor de processar e tentar reparar, a cada dia, um pouco da perda do que fomos até agora. Como dizia José Saramago, de tanto morrermos aos poucos com a morte de pessoas queridas, resta-nos muito pouco a morrer quando chega a nossa vez de partir. Mas, sem deixar de admirar a beleza dessa reflexão do nosso grande escritor, prefiro encerrar essa mensagem com uma notícia de esperança e alegria: nunca desistamos de ressignificar as dores das perdas (e elas são tantas ao longo da vida!), transformando-as em potência de vida e em transformação para um futuro construído por nós, mas repleto de providência divina.
* Sérgio Augusto Vicente é doutor, mestre, bacharel e licenciado em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Historiador, professor, escritor e curador. Trabalha na Fundação Museu Mariano Procópio (Juiz de Fora – MG). Publica textos acadêmicos na área de História e textos de divulgação histórica em periódicos de amplo alcance de público, assim como ensaios, crônicas, contos e prosas poéticas. Já publicou em diversos jornais e revistas. Atualmente, atua como colunista e editor de cultura do jornal Diário de Minas (Belo Horizonte – MG).

