São três pilhas como esta - créditos: divulgação
17-01-2026 as 13h20
Reportagem Soelson B. Araújo
A mineração de lítio no Vale do Jequitinhonha, apresentada nos últimos anos como promessa de desenvolvimento econômico e inserção do Brasil na transição energética global, atravessa um momento de forte crise institucional e social. No centro das atenções está a Sigma Lithium, responsável pela operação do complexo de Grota do Cirilo, entre os municípios de Itinga e Araçuaí, no nordeste de Minas Gerais. Entre o fim de 2025 e o início de 2026, a empresa passou a enfrentar uma sequência de sanções administrativas, pressões judiciais e questionamentos públicos que expõem fragilidades técnicas e aprofundam conflitos com as comunidades do entorno da mina.
A tensão se agravou após o Ministério do Trabalho e Emprego determinar, em dezembro de 2025, a interdição de três das cinco pilhas de rejeitos e estéril utilizadas pela mineradora. As estruturas, que concentram resíduos da extração e beneficiamento do lítio, apresentaram fatores de segurança abaixo dos limites exigidos pelas normas técnicas vigentes. Inspeções apontaram riscos concretos de instabilidade, incluindo indícios de rupturas parciais, o que levou os auditores a considerarem a possibilidade de um colapso capaz de lançar rejeitos a dezenas de metros de distância. Comunidades rurais próximas, como Poço Dantas e Ponte do Piauí, além de cursos d’água essenciais para abastecimento e subsistência local, figuram entre as áreas potencialmente afetadas.
Mesmo após recursos administrativos apresentados pela empresa, a decisão foi mantida em janeiro de 2026, consolidando a interdição e reforçando a avaliação de que as estruturas não oferecem segurança suficiente para operar na região. Para os moradores do entorno, a medida trouxe um misto de alívio e preocupação. Se, por um lado, a interdição é vista como um reconhecimento oficial dos riscos denunciados há meses, por outro, evidencia o grau de vulnerabilidade ao qual essas populações estiveram expostas desde o início da operação minerária.
O impacto social dos rejeitos vai além do risco físico imediato. Moradores relatam alterações na qualidade do ar, aumento da poeira fina sobre plantações e residências, vibrações constantes provocadas por explosões e rachaduras em casas simples, muitas delas construídas ao longo de décadas. Há também o temor permanente de contaminação do solo e da água com alto teor de alumínio já constatado por pesquisa da Fapesp – Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo, sendo as águas recursos essenciais em uma região marcada historicamente pela escassez hídrica e pela dependência da agricultura familiar. Para essas comunidades, a presença das pilhas de rejeitos representa não apenas uma ameaça ambiental, mas uma fonte contínua de insegurança e adoecimento, físico e psicológico.
A crise também reverberou no mercado financeiro, com queda nas ações da Sigma Lithium, refletindo a incerteza sobre a continuidade das operações sem acesso pleno às estruturas interditadas. No entanto, para os moradores do Vale, o debate econômico passa longe da realidade cotidiana. A promessa de empregos e progresso contrasta com a percepção local de que os custos sociais e ambientais recaem desproporcionalmente sobre populações já vulnerabilizadas, enquanto os benefícios econômicos se concentram fora da região.
Paralelamente às ações do MTE, a empresa tornou-se alvo de uma ofensiva judicial conduzida pelos Ministérios Públicos estadual e federal. Investigações apontam que os problemas envolvendo os rejeitos fazem parte de um quadro mais amplo de impactos socioambientais associados à mineração de lítio no Vale do Jequitinhonha. O Ministério Público Federal recomendou a revisão e suspensão de autorizações de pesquisa e lavra até que fossem garantidas consultas prévias, livres e informadas a comunidades indígenas, quilombolas e tradicionais, conforme determinações internacionais assumidas pelo Brasil. Já o Ministério Público de Minas Gerais ajuizou ação civil pública exigindo indenizações milionárias, reassentamento de famílias, programas de saúde e auditorias independentes, além de questionar a narrativa empresarial de mineração “sustentável”.
Essas iniciativas reforçam um debate que ganhou força entre pesquisadores, movimentos sociais e organizações locais, que denunciam falhas no licenciamento ambiental e uma relação assimétrica entre a mineradora e as comunidades afetadas. Para esses grupos, o caso da Sigma simboliza um modelo de exploração que reproduz desigualdades históricas no Vale do Jequitinhonha, região frequentemente tratada como zona de sacrifício em nome de projetos econômicos estratégicos.
A interdição das pilhas de rejeitos, portanto, não se limita a um problema técnico de engenharia. Ela expõe uma crise de confiança entre empresa, Estado e sociedade, e recoloca no centro da discussão o direito das populações locais à segurança, à saúde e a um meio ambiente equilibrado. À medida que processos judiciais avançam e novas fiscalizações são realizadas, o futuro da mineração de lítio na região passa a depender não apenas de soluções técnicas, mas da capacidade de enfrentar os impactos sociais acumulados e de redefinir a relação entre desenvolvimento econômico e justiça socioambiental no Vale do Jequitinhonha.
*Soelson B. Araújo é empresário, jornalista e escritor

