Solange Mendes e seu amado Tadeu Martins - créditos: arquivo pessoal
Solange Mendes*
25-01-2026 às 12h36
“A minha irmã que mora em Ilhéus, me ligou para dar parabéns e saber dos planos para a noite. Depois de uma certa idade o plano é ficar vivo… Ontem planejei com o meu sobrinho Serafim, sair e ir para o Alambique, casa noturna e churrascaria, com tudo que eu tivesse direito, afinal não é todo dia que se faz aniversário.
Hoje acordei com um super café na cama, feito pelo meu filho, e sai para trocar presente e comprar algo que sei que mereço. Cheguei, e logo depois, chegaram minha irmã Narinha e Amanda, minha sobrinha e afilhada, e saímos pra almoçar, brindar a nova idade. Afinal não é todo dia que se fica mais velha… Cerveja gelada, mais cerveja, ri daqui, lembra dali, almoça e cá estou eu: acabada! O almoço resumiu minha comemoração, podia ter tomado, suco de laranja, como faço quase todo dia, mas não, fui comemorar, brindar, cerveja gostosa e gelada, comida …
É gente, os janeiros estão pesando, se eu quiser chegar a Nova York vou ter que maneirar. porque depois de uma certa idade o trem fica feio, e não estou aqui para morrer de dor de cabeça, de barriga, pedir pra morrer e fingir que está tudo bem ….
Deem-me um Engov, um chá de boldo, café forte, canja de galinha, bicarbonato, qualquer coisa, mas me ajudem a sobreviver. E pensar que antes eu tomava cachaça, vodca com sal, com laranja, com tomate, rabo de galo, Martini, Cortezano, catuaba, jurubeba, porradinha, cerveja quente ou gelada, uísque, rum e qualquer coisa que embebedasse e hoje estou aqui morta, com menos de meia dúzia de cerveja. É, pouca cerveja e muita idade, não combinam.
Minha irmã, participante dessa arrasadeira está morrendo, falou que foi o pobre do camarão, coitada, ainda se ilude, o que fez mal foi o excesso de idade. Agora, depois de um café forte, estou aqui tentando raciocinar e pôr no papel a experiência da maioridade que se resume em, com menos idade se pode tudo, com mais idade se pode menos, dizem que se fica mais experiente, e é mesmo. A experiência me diz já bebi que chega, dancei, virei noites na farra, agora, o que eu quero mesmo é só lembrar e falar sobre isso, porque praticar bebedeira, comilança, noites em claro, só mesmo para gente inexperiente.
Quer saber, bom mesmo é vida saudável, nunca vi dizer que sucos, refrigerantes, dão ressaca, e como já experimentei todos os destilados existentes, agora chegou a hora de dar uma chance para a natureza e, naturalmente, ficar mais velha.
E experiência para mim é assim, sei e quero o que é bom, se isso é ser velha, estou de boa, tem coisas que me embriagam sem álcool: o cheiro de chuva na terra, manga madura, pequi no arroz e o suor do meu Neném (meu marido), quando o sol quente entra pela janela. Aí, meu bem, não tem idade que resista …”.
*Solange Mendes é dona de casa, funcionária pública aposentada, mãe, avó, bisavó, cidadã de bem com a vida e colunista do Diário de Minas.

