Autocaricatura - créditos: Carlos Drummond de Andrade
05-04-2026 às 09h10
Sérgio Augusto Vicente*
Em seu 160° aniversário, o Diário de Minas comemora de um jeito especial: homenageia um dos mais ilustres escritores que passaram por seus quadros. Referimo-nos ao mineiro Carlos Drummond de Andrade, poeta e cronista que, nos anos 1920, no auge de sua juventude e ainda incipiente carreira literária, não apenas estampou nas páginas desse periódico seus versos e crônicas, mas também dele se tornou redator-chefe.
Nascido em Itabira (MG) em 1902, o futuro grande nome da literatura brasileira escolheu a jovem capital de Minas como cenário de parte de sua juventude. Foi em terras belorizontinas dos anos 1920 que o rapaz de vinte e poucos anos conseguiu a sua inserção no Diário de Minas. Fundado em Ouro Preto em 1866 e restabelecido na nova capital mineira em 1899, esse jornal era ainda considerado uma espécie de órgão oficioso do Partido Republicano Mineiro (PRM).
Foi através desse jornal que Drummond, antes de transferir residência para o Rio de Janeiro na década de 1930 – quando se estabeleceu como funcionário público e aprofundou a sua inserção no universo editorial –, fez percorrer a incipiente (“fresca brisa”) do Modernismo no “mar de montanhas das gerais”.
É sobre isso e muito mais que iremos abordar ao longo dos próximos domingos, na coluna “Diário de Minas – 160 anos: um tributo a Carlos Drummond de Andrade”. A cada semana, um(a) convidado(a) especial refletirá sobre algum aspecto da vida e da obra drummondianas.
Algumas perguntas perpassarão os artigos. Dentre elas, não poderíamos deixar de destacar as seguintes: De que forma Drummond conseguiu instrumentalizar o Diário de Minas como um dos vetores do Modernismo na capital mineira, considerando que, àquela época, o jornal era porta-voz do discurso conservador e aristocrático das elites políticas mineiras? Como Drummond se equilibrou entre as facetas de poeta e cronista? Como ele concebia o papel da crônica em sua produção? Quais eram os temas de sua predileção? Como identificar os principais vieses de seu fazer literário? Quais as possibilidades de interpretação de sua correspondência com os seus interlocutores? Como o escritor teria lidado com suas próprias memórias? De que maneira essas memórias foram evocadas e enquadradas após o seu falecimento, em 1987?
E, para oficializarmos a abertura dessa coluna, nada melhor do que remontarmos a um curioso traço de sua biografia. Apesar de não ser propriamente uma novidade para muitos leitores, é importante destacar que Drummond também exercitava, de forma amadora, a arte do desenho. Em 29 de janeiro e 10 de setembro de 1955, “O Cruzeiro” publicava dois exemplares de sua lavra em “Arquivos Implacáveis de João Condé”, seção que veiculou, durante quase duas décadas, cartas, poemas, manuscritos, caricaturas, fotografias e diversas relíquias de escritores brasileiros – acervo colecionado pelo jornalista que dava nome à seção.
O itabirano que, àquela altura da carreira, dispensava apresentações, era apresentado pela revista como “o grande poeta” que reunia mais um predicado: as qualidades de “caricaturista autêntico, dos outros e de si próprio”. Já bastante conhecido e consagrado pela crítica e pelos leitores, não surpreende que Drummond fosse um dos principais objetos de interesse de João Condé, a quem assim se referia: “Se um dia eu rasgasse os meus versos, por desencanto ou nojo da poesia, não estaria certo de sua extinção: restariam os arquivos implacáveis de João Condé”.

Legenda – Autocaricaturas de Drummond, publicadas na revista O Cruzeiro, nos dias 29 de janeiro e 10 de setembro de 1955. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
Além dessas duas autocaricaturas publicadas em “O Cruzeiro”, tivemos acesso a outras versões – todas elas gentilmente cedidas por seu neto, o artista plástico e produtor cultural Pedro Drummond. Como se vê, não somente os versos e as crônicas drummondianas nos deixam entrever a presença da concepção estética modernista. Seus desenhos também nos remetem a um estilo que foge de qualquer rebuscamento da forma. Eles se valem, ao contrário, de traços minimalistas e ligeiros, que captam a essência dos elementos caracterizadores de sua fisionomia.

Legenda – Outras autocaricaturas de Carlos Drummond de Andrade. Acervo pessoal de Pedro Drummond, neto do escritor.
Foi exatamente essa faceta de desenhista do autor do “Poema de Sete Faces” que nos inspirou na construção da identidade visual dessa coluna no Diário de Minas. Escolhidas as autocaricaturas que deveriam compor a arte, acrescentamos aos traços drummondianos algumas curvas alusivas às montanhas mineiras, por entre as quais nasceu o poeta. Uma lúdica associação do escritor com a mineiridade. Afinal, mesmo vivendo grande parte de sua vida na metrópole (Rio de Janeiro), o “ilustre itabirano” jamais tentou apagar suas raízes interioranas, conseguindo mergulhar fundo – com um aguçado olhar para as coisas simples e singelas do cotidiano – no que há de mais universal na alma humana.

Legenda – Artes produzidas por Sérgio Augusto Vicente para compor a identidade visual da coluna “Diário de Minas – 160 anos: um tributo a Carlos Drummond de Andrade”. Autocaricaturas cedidas pelo neto do poeta, Pedro Drummond.
Sabemos o quão difícil é mergulhar no oceano de histórias que compõe a vida de um indivíduo. Nesse caso em particular, um escritor que viveu 85 anos (1902-1987) de fértil e numerosa produção literária. Não esgotaremos sua vida nessa coluna – nem poderia ser essa a nossa pretensão, é claro. Contudo, através de lampejos ensaísticos, exploraremos algumas peças desse enorme quebra-cabeça. Aguardem-nos até o próximo domingo, quando publicaremos uma valiosa colaboração de Humberto Werneck, cronista e um dos biógrafos do nosso homenageado.
*Sérgio Augusto Vicente é editor de cultura do Diário de Minas, historiador da Fundação Museu Mariano Procópio, curador e escritor, com graduação, mestrado e doutorado em História pela UFJF. É biógrafo do escritor mineiro Belmiro Braga (1870-1937).

