Crise geopolítica preocupa presidente Lula - créditos: Divulgação
06-01-2026 às 14h36
Gotardo Seabra*
A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos e o posterior debate no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas provocaram forte repercussão no Brasil, aprofundando divisões políticas já existentes entre direita e esquerda e gerando reações contrastantes na opinião pública. O episódio, considerado histórico por seus apoiadores e alarmante por seus críticos, recolocou no centro do debate nacional temas como soberania, intervenção internacional e democracia na América Latina.
Entre setores da direita brasileira, a reação foi predominantemente favorável. Parlamentares, lideranças políticas e influenciadores alinhados a esse campo interpretaram a prisão de Maduro como o desfecho de um longo processo de denúncias envolvendo autoritarismo, repressão política, violações de direitos humanos e vínculos com o narcotráfico. Para esses grupos, a ação dos Estados Unidos representa um passo decisivo no enfrentamento a regimes considerados ditatoriais e um sinal de que líderes acusados de crimes internacionais podem, enfim, ser responsabilizados. A captura foi celebrada como uma esperança de mudança para a Venezuela e como um alerta a governos da região que, segundo esse discurso, flertam com práticas antidemocráticas.
Em sentido oposto, a esquerda brasileira reagiu com críticas contundentes à operação norte-americana. Lideranças políticas, partidos e integrantes do governo federal manifestaram preocupação com o precedente aberto pela captura de um chefe de Estado em exercício por uma potência estrangeira. Mesmo reconhecendo as graves crises política, econômica e humanitária enfrentadas pela Venezuela, esse campo sustenta que a ação viola princípios fundamentais do direito internacional, como a soberania nacional e a não intervenção. Para esses setores, a discussão do caso no Conselho de Segurança da ONU reforça a gravidade do episódio e evidencia o risco de instabilidade regional e de enfraquecimento das normas que regem as relações entre os países.
A população brasileira reagiu de forma dividida, refletindo a polarização política do país. Parte dos cidadãos manifestou apoio à prisão de Maduro, associando sua queda à possibilidade de reconstrução democrática venezuelana e à responsabilização por crimes que, segundo denúncias internacionais, afetaram milhões de pessoas. Por outro lado, muitos brasileiros demonstraram receio quanto às consequências da ação, questionando sua legalidade e temendo que intervenções militares estrangeiras se tornem um instrumento recorrente de resolução de crises políticas. Nas redes sociais, sentimentos de comemoração, indignação e apreensão coexistiram, revelando um debate intenso e marcado por visões opostas sobre o papel dos Estados Unidos e os limites da ação internacional.
No campo eleitoral, o episódio impõe desafios adicionais ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um ano decisivo. A postura crítica do governo brasileiro em relação à captura de Maduro tem sido explorada por adversários políticos, que associam Lula a regimes autoritários da América Latina e usam o caso para desgastar sua imagem junto ao eleitorado mais conservador e ao centro político. Ao mesmo tempo, uma mudança brusca de posição poderia provocar tensões com a base de esquerda e com setores que defendem uma política externa pautada pela soberania e pelo multilateralismo. Analistas avaliam que a forma como Lula conduzirá o discurso sobre a Venezuela e os Estados Unidos poderá influenciar o debate eleitoral, reforçando narrativas de política externa como elemento central da disputa presidencial deste ano.
O caso de Nicolás Maduro, agora no centro das atenções globais, ultrapassou as fronteiras venezuelanas e passou a influenciar diretamente o debate político no Brasil. Ao mesmo tempo em que expôs o desgaste da imagem do regime chavista, também reacendeu discussões históricas sobre intervenção estrangeira na América Latina. A evolução desse cenário e suas repercussões internas tendem a manter o tema em evidência no noticiário e no discurso político ao longo dos próximos meses.
*Gotardo Seabra é professor e jornalista

