Tragédia das corrupções desenfreadas no Brasil - créditos: divulgação
05-04-2026 às 14h36
Rogério Reis Devisate
Não se precisa de espionagem, para se levantar dados públicos – que são, por natureza, publicados, divulgados e disponíveis ao controle.
Com isso, a apuração de fraudes, corrupção e favorecimentros não é difícil… a questão fica mesmo para o que se fazer com isso.
De que adianta os milhões investidos em mecanismos de controle, tramitação de processos, perícias, cálculos, pareceres para… tudo ser arquivado, ao final?
Já não temos gordura para queimar, de tantos grandes escândalos que vivemos nas últimas décadas. Como se diz: em terra de esqueleto, toda fratura é exposta!
Os tempos atuais expõem tudo e as palavras não conseguem apagar o peso das imagens ou das mensagens que se consolidam na mente das pessoas. A questão é – novamente, sempre e ainda – sobre valores, ética e retidão.
Quem não se lembra dos Anões do Orçamento? Uma CPI investigou o famoso caso, que envolvia o desvio de R$ 800 milhões de reais – quantia muito pequena, quando comparada aos valores dos escândalos mais recentes. No caso do TRT-SP, teriam sido 2 bilhões de reais… Tivemos o caso das fraudes do INSS, com valores assemelhados. As fraudes dos Fundos de Pensão estavam na casa de 3 bilhões. O Banco Marka, em torno de 3,7 bilhões de reais. O caso dos hemoderivados dos Vampiros da Sáude estaria em 4 bilhões de reais. A Operação Zelotes dizia-se envolver 19 bilhões de reais. O caso Banestado já envolveria valores bem mais altos. A Operação Lava-Jato cuidou de algo em torno de 42 bilhões de reais. O caso do Banco Master estaria na casa dos 12 bilhões de reais, havendo também notícias com estimativas de 50 bilhões.
O fato é que muita coisa em jogo na nossa história estava próxima ao ditado popular que fala em “batom na cueca”. Apesar disso, fica o povo na dúvida sobre quanto foi devolvido aos cofres públicos e quais e quantos forma punidos.
Os valores acima são absurdamente altos e causam impactos em todos nós, notadamente em quem recebe auxílios governamentais e salários mais baixos. O dinheiro vale cada vez menos diante da carestia, sendo crível que a realidade dos mercados fala mais alto do que os índices de preços governamentais e tabelas estatísticas.
Há percepção de impunidade. Há percepção de corrupção. Há percepção de que nada muda…
Não por outro motivo, em 10.02.2026, a Transparência Internacional indica que o Brasil despencou no índice de corrupção, em matéria intitulada “BRASIL REPETE PIOR POSIÇÃO E SEGUNDA PIOR NOTA NO ÍNDICE DE PERCEPÇÃO DA CORRUPÇÃO”. Dentre as várias circunstâncias que considerou, diz que “o governo federal falhou gravemente na resposta ao escândalo do INSS”, aponta “o movimento de captura orçamentária, com crescimento voraz das emendas parlamentares, que mais uma vez bateram recordes e já ultrapassarão R$ 60 bilhões no orçamento aprovado para 2026” e considera que “o caso Master revelou uma rede poderosa de influência perpassando os três Poderes”.
Não são casos pequenos, sob qualquer ótica – e todos envolvem imensos valores.
Aspecto importante envolve a falha dos mecanismos de controle prévio – o que mais recentemente ganhou badalação sob a expressão compliance.
A propósito, a Lei nº 12.846/2013 prevê a instauração de processo administrativo de responsabilização da pessoa jurídica, de cada um dos Poderes. Atualmente é regulamentada pelo Decreto nº 11.129/2022, que otimizou a compliance na Administração Pública e nos aproximou de padrões internacionais.
Contudo, convenhamos, a questão é menos de novas normas e mais da base ética e da valorização dos atributos estruturantes de uma sociedade pacífica, justa e solidária.
Chegamos a um triste estado de coisas, pelo progresso nos grandes escândalos. Parece que houve uma escalada de nível e vemos o comprometimento de setores fundamentais para a República. Com isso, as pessoas ficam descrentes, assustadas e surpresas.
É interessante perceber em quem confiam os brasileiros. Impressiona o resultado a que chegou pesquisa conduzida pela Genial/Quaest e, em 08.9.2025, tratada sob o título “Mais fé, menos política: pesquisa Genial/Quaest mostra como os brasileiros confiam nas instituições”, onde vemos que a Igreja Católica é a que inspira maior confiança (73%), seguida pela Policia Militar (71%) e pelos Militares/Forças Armadas (70%), estando a Presidência da República com 54%, o STF com 50% e os partidos políticos com 36%.
Paralelamente, em matéria de 21.3.2026, intitulada “Confiança no STF despenca a mínimo histórico com desgaste ampliado pelo caso Master” e publicada na Gazeta do Povo, 60% não vêem imparcialidade nos ministros e cerca de “77% acreditam que fatores externos (políticos, partidos ou grupos poderosos) estão influenciando no julgamento”.
Tudo isso contribui para um estado geral de desconfiança, de falta de sono e vivência sob estado de alerta, contribuindo para o burnout coletivo – esgotamento físico, emocional e mental – que é hábil a causar a derrocada de qualquer sistema econômico e político.
Sem que o povo confie nos governantes, nas instituições e nos organismos de controle, uma ruptura naturalmente vai se instalando e, como cancro, corroendo os pilares que mantém rígida a estrutura social e política. Estamos doentes… sofremos de variações de burnout, vivendo em verdadeiro esgotamento da boa vontade, da empatia e da confiança. Em algumas ocasiões, temos burnout eleitoral, noutras burnout como contribuintes, com variações quando passamos os produtos no caixa do supermercado ou abastecemos os carros nos postos de combustíveis.
Também sofremos de burnout quando ligamos a TV ou o rádio e as notícias falam em corrupção e pizzas de impunidade.
Parece que muito se faz para que nada mude, realmente.
Enquanto pagarmos ingressos e ficarmos na plateia, esse tipo de show continuará a nos iludir.
*Rogério Reis Devisate, currículo na galeria de colunistas

