Créditos: Divulgação
11-02-2026 às 11h13
Philippe Oliveira de Almeida*
O musical Amor, Sublime Amor (West Side Story, lançado em 1961) adapta a tragédia de Romeu e Julieta para o contexto dos guetos de Nova York. Duas gangues – os Sharks, de imigrantes porto-riquenhos, e os Jets, de filhos de imigrantes irlandeses – disputam o controle das ruas da cidade, enquanto dois jovens (Tony, branco, e Maria, latina), se enamoram, contrariando suas famílias. Um dos pontos altos do filme é a canção “América”, na qual os porto-riquenhos discutem as vantagens e as desvantagens de se viver nos Estados Unidos. As mulheres celebram as virtudes da “América”, enquanto os homens oferecem contrapontos: “MULHERES: Life can be bright in America/ HOMENS: If you can fight in America/ MULHERES: Life is all right in America/ HOMENS: If you’re a white in America” (MULHERES: A vida pode ser brilhante na América/ HOMENS: Se você souber brigar na América/ MULHERES: A vida é muito boa na América/ HOMENS: Se você for branco na América). Em meio a piruetas e espacates, Amor, Sublime Amor traz mordazes comentários sobre o preconceito racial e a xenofobia nos EUA – e foi dessa brilhante película que me recordei ontem, assistindo ao show do rapper porto-riquenho Bad Bunny no intervalo do Super Bowl.
Darcy Ribeiro – mineiro de Montes Claros, e um dos mais importantes intelectuais do século XX – dizia que, nas Américas, existem três tipos de cultura: 1ª. os povos-testemunho (as populações indígenas que sobreviveram à espoliação e ao extermínio perpetrados pelos europeus); 2ª. os povos novos (as nações resultantes da hibridização e da mestiçagem decorrentes da violência colonial); e 3ª. os povos transplantados (tentativas de replicar, no Novo Mundo, versões aprimoradas das sociedades européias). Para Darcy Ribeiro, os quéchuas nos Andes seriam exemplo perfeito do primeiro tipo de cultura; o Brasil, a materialização do segundo tipo; e os EUA, a mais bem-sucedida expressão do terceiro tipo.
Embora uma parte dos Estados Unidos, em especial no sul, tenha vivenciado um processo de colonização similar ao nosso – economias escravistas com grandes fazendas (plantation) calcadas na monocultura e voltadas ao mercado externo –, parcela considerável do país, notadamente no norte, foi erigida por colonos pobres que, com toda a família, cruzaram o mar com o objetivo de assentar-se permanentemente, em pequenos sítios e chácaras. Esses peregrinos (ainda hoje celebrados pelos norte-americanos, no Dia de Ação de Graças) entendiam que a reforma protestante não havia reformado o suficiente – era preciso promover uma “reforma da reforma”, resgatando os preceitos apostólicos que a Europa, no correr dos séculos, teria abandonado. Perseguidos em seus próprios países, os puritanos acreditavam que apenas em um Novo Mundo (livre dos vícios do Velho Continente) seria possível criar uma nação genuinamente cristã. Uma nação unida, não por vínculos sanguíneos ou étnicos, mas pelo Evangelho – aberta, portanto, a todo e qualquer indivíduo comprometido em viver seguindo as pegadas do Nazareno. Um povo de exilados, de fugitivos, de imigrantes. Como a Terra Prometida de Canaã, para onde Moisés conduziu os hebreus após a saída do Egito. [O filme A bruxa, lançado em 2015 por Robert Eggers, talvez seja o melhor retrato dessas fantasias].
Ora, o mito da Terra Prometida – a Terra das Oportunidades, deliciosamente satirizada em Amor, Sublime Amor – representa o melhor e o pior da cultura estadunidense. Foi por entender-se como um refúgio para cristãos expatriados que os Estados Unidos receberam, ao longo dos séculos, levas de trabalhadores irlandeses, italianos, coreanos etc. Mas foi por essa mesma razão que, apoiando-se na Doutrina do Destino Manifesto, expandiu suas fronteiras aterrorizando países vizinhos e chacinando brutalmente populações indígenas (o extraordinário livro Enterrem meu coração na curva do rio, do historiador Dee Brown, ainda é o mais dorido relato sobre os horrores aos quais os yankees submeteram os povos nativos).
O fato é que os EUA sempre se compreenderam – correta ou incorretamente – como um povo feito por, de e para estrangeiros, com dever de acolher qualquer um disposto a trabalhar para edificar uma civilização inspirada na mensagem bíblica. Não podemos nos esquecer que o enorme desenvolvimento das universidades norte-americanas no século XX se deve, em grande medida, à capacidade que os EUA tiveram de recepcionar professores e pesquisadores europeus forçados a abandonar seus lares devido às duas grandes guerras mundiais.
Porém, nos últimos anos, essa auto-imagem dos estadunidenses foi posta em xeque. Devido à crise financeira que se arrasta desde 2008, a população norte-americana tem se deixado consumir pelo pavor – a filósofa Martha Nussbaum descreve o atual cenário político norte-americano como “monarquia do medo”. As massas pedem soluções para seu gradual empobrecimento, e as elites oferecem bodes expiatórios: “Perdeu seu emprego? O banco tomou sua casa? Não consegue arcar com as mensalidades da universidade e do plano de saúde? A culpa é dos chicanos, que graças à cultura woke (sic) estão roubando seu lugar!”. A resposta para o colapso material seria a reafirmação dos valores da cultura WASP (White Anglo-Saxon Protestant, branca anglo-saxã protestante) – a retomada do American Way of Life, contra o Americano Way of Life dos latinos. Como todo projeto fascista, o governo estadunidense oferece soluções morais (ou moralizantes) a problemas econômicos. Ignora o essencial (o desmantelamento da indústria norte-americana, a ascensão do capital especulativo, o abandono das políticas sociais…) e foca no periférico (o “identitarismo”, “as drogas e os estupradores mexicanos” etc.).
É esse o cerne do governo de Donald Trump: promete “tornar a América grande de novo”, não enfrentando oligopólios tecnofeudais, mas combatendo a imigração de comunidades do Sul Global. Foi nesse intuito que Trump fortaleceu o ICE – U. S. Immigration and Custons Enforcement, ou Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos –, a agência responsável por investigar, identificar, deter e deportar “imigrantes ilegais”. Trump triplicou o orçamento do ICE, e contratou 12.000 novos agentes. Por isso, ao longo de 2025, as operações da instituição se intensificaram, levando a um aumento de 2.450% das detenções de estrangeiros. Casos de brutalidade envolvendo o ICE cresceram exponencialmente, gerando revolta junto à comunidade internacional. A prisão de Liam Conejo Ramos, menino equatoriano de 5 anos detido pelo ICE, tornou-se um emblema das arbitrariedades de Trump.
O ICE coloca os estadunidenses diante de um dilema: para “salvar os princípios fundamentais” da Terra das Oportunidades, sacrifica os princípios fundamentais da Terra das Oportunidades – em especial, a xenofilia, a hospitalidade aos estrangeiros. “Não se esqueçam da hospitalidade; pois alguns, praticando-a, sem o saberem, hospedaram anjos” (Hebreus 13:2). Trump encarna o paradoxo de um país de imigrantes que se posiciona contra a imigração, em prol de “valores autóctones”. O filme O brutalista (produção de 2024 dirigida por Brady Corbet), cabe lembrar, já pontuava esse paradoxo: fugindo do Holocausto, um arquiteto judeu nascido na Hungria busca abrigo na Terra da Liberdade, onde é celebrado mas, também, explorado e abusado de todas as maneiras imagináveis. Os EUA são como Canaã, oferecendo leite e mel aos imigrantes, ou como Sodoma, estuprando e espancando estrangeiros?
É nesse contexto de tensões que a apresentação de Bad Bunny eclode, como uma das mais importantes produções da cultura pop da última década. O Super Bowl é o jogo anual do campeonato da National Football League, a principal liga de futebol americano dos EUA. Como a população estadunidense é obcecada com futebol americano, o Super Bowl representa uma das mais aguardadas e celebradas cerimônias do país. E as apresentações musicais que ocorrem no intervalo do Super Bowl são vistas, na televisão, por milhões de norte-americanos, ano após ano. Para o estadunidense médio, trata-se de um ritual quase religioso, de culto à “americanidade”. Assim, convidar Bad Bunny para conduzir o show em 2026 foi profundamente disruptivo.
Antigo domínio espanhol, Porto Rico foi invadida pelos EUA em 1898, em decorrência da Guerra Hispano-Americana. Em tese, é hoje um “Estado Livre Associado” dos EUA (tem normas próprias, mas subordina-se à constituição americana). Na prática, constitui-se numa colônia. Uma parcela dos porto-riquenhos, atualmente, luta para que o arquipélago se torne o 51º Estado americano; outra parcela reivindica a independência do território. Em um tempo marcado pelo fortalecimento de fronteiras nacionais e pelo florescer de políticas anti-discriminatórias, o sucesso meteórico de Bad Bunny constitui-se numa lufada de ar fresco. O cantor recebeu o troféu do Grammy por álbum do ano pelo disco Debi tirar más fotos, repleto de referências a Porto Rico (e à América Latina, de maneira geral).
O trabalho de Bad Bunny é fortemente enraizado em sua trajetória como imigrante, o que lhe possibilita fundir reggaton, R&B e salsa em canções que discutem imperialismo, choques culturais etc. Basta sublinhar as referências que, na música NuevaYol (Nova York), o cantor faz à clássica Mamá Borinquen Me Llama, do também porto-riquenho Andrés “El Jíbaro” Jiménez. “Mamãe, Borinquen me chama, este país não é o meu/ Borinquen é puro fogo, e aqui eu morro de frio” – Mamá, Borinquen me llama, este país no es el mio/ Borinquen es pura flama, y aquí me muero de frio”. [Borinquen é o nome indígena Taino para a ilha de Porto Rico, e significa “Terra dos Bravos Senhores”]. Bad Bunny, frise-se, não canta em inglês, mas em espanhol: numa era acostumada a ver o inglês como língua universal da cultura pop, o artista demarca sua ancestralidade.
O cenário e o figurino do espetáculo de Bad Bunny no Super Bowl remetem a um canavial. A escolha é precisa: como o grande antropólogo Gilberto Freyre destaca no imprescindível Açúcar: uma sociologia do doce, muitos países latino-americanos originaram-se como plantações de cana, para nutrir o mercado global. O açúcar, tal como o café e a borracha, foi – e segue sendo, em alguma medida – motivo para a escravização, a espoliação e a barbárie contra populações na América Central e na América do Sul. Somos, como Freyre pontua, produtos do açúcar.
Daí que, no poema O açúcar, Ferreira Gullar tenha escrito: “Em usinas escuras,/ homens de vida amarga/ e dura/ produziram esse açúcar/ branco e puro/ com que adoço meu café esta manhã em Ipanema”. Fazer do Levi’s Stadium – o estádio do Super Bowl – um canavial foi um ato contra colonial mais subversivo que a maioria dos escritos sobre pensamento de(s)colonial que vem sendo publicados nos últimos anos.
Num momento em que o ICE assemelha-se, cada vez mais, à SS nazista – convertendo-se na força para limitar de Trump –, o show de Bad Bunny saúda a latinidade e homenageia os chicanos nos EUA. O artista estende no palco a bandeira da independência de Porto Rico, e mostra como a arte pode ser uma ferramenta de contestação política, em nome dos descamisados. Marisqueiros, seringueiros e bóias-frias – e todos os demais trabalhadores que sangraram nas lutas de libertação latino-americanas, no curso dos séculos – estavam ao lado de Bad Bunny, em sua apresentação. O cantor indica que o antídoto contra Trump é o panamericanismo redivivo, digno de Simon Bolívar e Che Guevara, Victor Jara e Mercedes Sosa. É esse o caminho que Bad Bunny aponta, ao final de seu espetáculo: “Deus salve a América, seja Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Brasil, Colômbia, Venezuela, Guiana, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Guatemala, México, Cuba, Republica Dominicana, Jamaica, Antilhas, Estados Unidos, Canadá, ou minha terra natal, minha pátria, Porto Rico. Seguimos aqui”.
*Philippe Oliveira de Almeida é Professor de Filosofia do Direito na Faculdade Nacional de Direito (UFRJ)

