Flávio Bolsonaro e presidente Lula - créditos: DM
12-04-2026 às 12h40
Samuel Arruda *
A política brasileira atravessa um período de intensa polarização, no qual a disputa entre os campos associados a Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro estrutura grande parte do debate público. Pesquisas recentes indicam que cerca de 74% da população se identifica com um desses dois polos, evidenciando um ambiente político altamente dividido (). Nesse contexto, compreender as divisões internas da direita e seus efeitos eleitorais torna-se essencial para analisar o cenário das próximas eleições estaduais e presidenciais
Embora uma parcela significativa da população brasileira se identifique com posições à direita — chegando a cerca de 46% quando se incluem direita e centro-direita — esse campo político não se apresenta de forma coesa. Após o ciclo político dominado pelo bolsonarismo, a direita passou a conviver com diferentes correntes: ainda tem uma forte base eleitoral e capacidade de mobilização, diante de sua aliança com a centro-direita e o “centrão”. Contam com governadores e figuras locais com projetos próprios.
Analistas já apontavam, desde 2024, um processo de fragmentação da direita que convive simultaneamente com a polarização nacional. Essa divisão cria disputas internas por protagonismo, narrativa e liderança.
A fragmentação da direita pode gerar consequências relevantes nas disputas eleitorais:
a) Dispersão de votos
Em eleições majoritárias, múltiplas candidaturas competitivas dentro do mesmo campo ideológico podem dividir o eleitorado, dificultando a chegada ao segundo turno ou enfraquecendo candidaturas.
b) Dificuldade de coordenação nacional
A ausência de uma liderança consensual dificulta a construção de alianças amplas, especialmente em eleições presidenciais, onde coalizões são decisivas.
c) Impacto nas eleições estaduais
Nos estados, a divisão pode favorecer adversários mais organizados ou gerar disputas internas que fragilizam campanhas locais.
d) Perda de narrativa unificada
Sem um discurso comum, o campo político tende a apresentar mensagens contraditórias, o que pode confundir eleitores e reduzir a eficácia da comunicação.
A divisão política no Brasil vai além das disputas eleitorais e afeta o tecido social. Pesquisas mostram que sentimentos como tristeza, cansaço e medo são comuns entre os brasileiros diante da polarização (). Além disso, o debate público tende a se tornar mais emocional e menos orientado por consensos mínimos.
No caso do governo federal, liderado por Luiz Inácio Lula da Silva, analistas frequentemente destacam que, em contextos polarizados, a comunicação política e a capacidade de dialogar com diferentes segmentos da sociedade ganham importância.
Entre os elementos apontados como relevantes para ampliar a percepção de empatia governamental, destacam-se:
a) Comunicação mais direta e acessível: traduzir políticas públicas em impactos concretos na vida das pessoas;
b) Reconhecimento de demandas diversas: dialogar não apenas com a base de apoio, mas também com setores críticos ou indecisos;
c) Redução do tom confrontacional: priorizar agendas comuns em vez de reforçar antagonismos;
d) Foco em resultados práticos: políticas públicas com efeitos perceptíveis tendem a reduzir tensões políticas.
A polarização brasileira é sustentada tanto por fatores políticos quanto sociais. Alguns caminhos frequentemente discutidos por especialistas incluem: fortalecimento de instituições e do debate democrático; incentivo a coalizões mais amplas e moderadas; valorização de pautas consensuais (economia, emprego, serviços públicos); redução da centralidade de conflitos personalistas.
O cenário político brasileiro combina dois fenômenos simultâneos: forte polarização entre dois polos e fragmentação interna, especialmente no campo da direita. Essa combinação tende a produzir disputas eleitorais complexas, nas quais a coordenação política e a capacidade de diálogo se tornam decisivas.
Ao mesmo tempo, a redução da polarização depende não apenas da reorganização das forças políticas, mas também de estratégias de comunicação e governança que ampliem a confiança pública e a percepção de inclusão por parte da população.
*Samuel Arruda é jornalista e articulista

