Créditos: Divulgação
09-01-2026 às 11h14
Marcelo de Castro*
A construção da globalização ocorreu de forma gradual, marcada por fases históricas que acompanharam expansões comerciais, revoluções industriais e avanços tecnológicos. Ao longo dos séculos, esse processo integrou economias, culturas e sociedades, reduzindo barreiras e intensificando trocas em escala planetária.
A primeira fase teve início com as Grandes Navegações, entre os séculos XV e XVIII, quando potências como Portugal e Espanha expandiram rotas marítimas, inaugurando o colonialismo e o comércio transoceânico de especiarias, metais preciosos e, tragicamente, de seres humanos escravizados. A Primeira Revolução Industrial consolidou o capitalismo e promoveu avanços logísticos que conectaram continentes pela primeira vez.
A segunda fase, do final do século XIX até a Segunda Guerra Mundial, foi impulsionada pela Segunda Revolução Industrial. A produção em massa e o comércio internacional se intensificaram, enquanto potências europeias ampliavam sua dominação colonial na África e na Ásia, aprofundando a interdependência econômica global.
A terceira fase, no pós-guerra até as décadas de 1970 e 1980, foi marcada pela criação de instituições multilaterais como a ONU e o FMI, que buscaram fomentar cooperação, investimentos e comércio. Nesse período, a Terceira Revolução Industrial introduziu inovações técnicas e científicas que prepararam o terreno para o capitalismo financeiro.
Vivemos hoje a quarta fase, no chamado período técnico-científico-informacional. Internet, corporações transnacionais, fluxos instantâneos de capitais e dados integram o mundo de forma inédita. As tecnologias de comunicação e transporte reduziram distâncias, mas também aprofundaram desigualdades e tensões culturais.
Invenções como a máquina a vapor, o telégrafo, os contêineres e a internet foram decisivas nesse processo. A máquina a vapor revolucionou os transportes no século XVIII; os contêineres, no século XX, padronizaram a logística marítima e reduziram drasticamente os custos do comércio global; o telégrafo integrou mercados financeiros; e a internet consolidou a globalização digital ao conectar bilhões de pessoas em tempo real.
Embora essas transformações tenham se acelerado no final do último milênio e avancem no século XXI, as instituições mais antigas do Ocidente e Oriente continuam exercendo comando e controle sobre os novos regimes que tentam protagonizar rearranjos políticos globais. Como observou Maquiavel, o poder raramente desaparece; ele apenas muda de mãos e de forma.
Talvez essa seja a maior conquista — e também a maior tensão — da evolução humana. A busca pelo poder sempre foi uma obsessão do homem, mas, ao longo da história, surgiram blocos moderadores para equilibrar conflitos. A democracia, ainda jovem em instituições como a ONU e em países como o Brasil, mostra-se muitas vezes lenta, frágil e pouco experiente no comando de decisões globais.
A própria arquitetura da globalização definiu limites geopolíticos, blocos econômicos e regramentos. Romper essas fronteiras, criar novas rotas comerciais ou desafiar hegemonias — como a do dólar ou do euro — não é apenas ousadia: pode ser prepotência. A tentativa de criação de uma moeda dos BRICS, por exemplo, sacudiu zonas de conforto historicamente consolidadas.
As incertezas da agenda ambiental e a busca por uma nova ordem financeira ajudam a explicar recentes movimentos geopolíticos, como a pressão internacional sobre a Venezuela e o reposicionamento estratégico dos Estados Unidos em relação à América do Norte e do Sul. Essa liderança norte-americana foi forjada sobre logística, lastro financeiro e uma posição geográfica privilegiada entre dois grandes oceanos, mas sobretudo sobre um forte sentimento de nação e respeito institucional — algo que Tocqueville já identificava como pilar da democracia americana.
Na dança das cadeiras do poder global, não estão no centro do tabuleiro nem a agenda humanitária, nem a narrativa ambiental, tampouco as mazelas internas de cada país. O que está em jogo é algo mais básico e, ao mesmo tempo, mais decisivo: o respeito aos contratos, aos tratados e ao ordenamento jurídico internacional.
A chamada “linha vermelha” precisa ser respeitada. Isso se reflete, por exemplo, na retomada da produção de petróleo e gás na Venezuela, vinculada ao cumprimento de contratos com empresas e estatais estrangeiras, como a Petrobras, historicamente prejudicada por práticas do regime chavista. Retomar operações não significa isenção de responsabilidades sociais e econômicas com o país anfitrião — significa cumprir regras.
A história demonstra que quando contratos, leis e limites são ignorados, abrem-se as portas para atrocidades. Hannah Arendt nos lembrou que o mal prospera quando a ordem jurídica se dissolve e a responsabilidade individual é anulada.
O tabuleiro, ao que tudo indica, encontra-se relativamente equilibrado e distante de uma terceira guerra mundial. Isso só é possível graças a decisões firmes, convicções coletivas e à recusa de transformar a política internacional em espetáculo inconsequente.
O mundo não está se fragmentando; está se reposicionando. Caminhamos para uma sociedade 4.0, marcada pela integração de tecnologias avançadas e pela expansão das inteligências artificiais. Descobrimos o fogo no passado; agora, precisamos aprender para que servir no presente. Estamos, enfim, saindo das cavernas do conhecimento.
Como nos adverte o livro do Eclesiastes (3:1):
“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.”
O futuro, portanto, não é uma promessa distante. Ele já está acontecendo agora.
(*) Marcelo de Castro Souza, é técnico em Meio Ambiente, trabalha com mudanças de categoria de Unidade de Conservação na região da BR 163

