Créditos: Divulgação
06-01-2026 às 09h48
J.D. Vital*
Antigamente, era pecado. Agora, não é mais proibido faltar à missa de domingo. Pelo menos, nos Estados Unidos. Lá, em Columbus, a encantadora capital do estado de Ohio, os católicos estão desobrigados de ir à missa dominical até o dia 11 de janeiro de 2026, quando a Igreja Católica encerra o ciclo festivo de Natal. Nesse segundo domingo do ano novo, a liturgia celebra o batismo de Jesus, às margens do rio Jordão.
O salvo-conduto, assinado por Dom Earl Kenneth Mario Fernandes, bispo da diocese de Columbus, dispensa de cumprir o primeiro dos cinco mandamentos da Igreja a todo fiel que se sentir ameaçado ou temer a prisão pelos agentes de controle da imigração no governo do presidente Donald Trump. A portaria oficial ganhou repercussão mundial após sua publicação pelo Vatican News, site oficial do Vaticano. As igrejas, abertas ao acolhimento dos pobres, viraram alvo preferencial da política anti-imigração.
Segundo o catecismo, ainda em vigor, os católicos devem participar da missa nos domingos e nos dias santos de guarda, um deles o Natal. Os mandamentos determinam também confessar-se e comungar pelo menos uma vez ao ano, jejum e abstinência de carne em certos dias e, ainda, contribuir com o dízimo para o sustento das paróquias.
O bispo Fernandes, de sobrenome português, conhece, na carne, o que significa ser imigrante nos Estados Unidos, sobretudo, se seu perfil racial não se encaixar no padrão étnico introduzido no século 19 pelos alemães naquela região, reduto político dos republicanos conservadores. Em 2024, Donald Trump venceu as eleições lá e levou no embornal os 17 delegados do colégio eleitoral.
Fernandes nasceu em Toledo, quarta cidade mais populosa de Ohio, filho de imigrantes católicos vindos de Goa, na Índia. Um dos heróis nascidos no estado é o astronauta John Glenn, o primeiro norte-americano a voar na órbita da Terra em 1962. Em homenagem, deram seu nome ao aeroporto de Columbus. LeBron James, o rei do basquete contemporâneo, nasceu em Akron e iniciou sua trajetória de títulos da NBA, jogando pelo Cleveland Cavaliers, para a glória de Ohio.
Com 2 milhões e 800 mil habitantes, a diocese de Dom Fernandes abrigava em 2023, segundo dados do Catholic Hierarchy, 344 mil católicos, representando 12,3 por cento da população. Até recentemente, a cidade orgulhava-se, dizem as agências de turismo, de sua diversidade cultural, da sua composição multiétnica. Destacava-se como um dos melhores centros gastronômicos dos Estados Unidos, eleita pelo “Readers’ Choice Awards 2025”, com variedades e sabores levados por imigrantes do México, do Vietnã, da Somália e de El Salvador, servidos em festivais animados de jazz e churrasco de costela.
Não é mais assim.
As batidas policiais afugentam turistas. Causam pavor e arrepios aos imigrantes em situação irregular. Ou, mesmo, regular. Cerca de 622 mil pessoas foram deportadas durante 2025, primeiro ano do segundo mandato do presidente Donald Trump, segundo noticiário da imprensa. As operações do ICE, sigla do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos, miraram particularmente o estado de Ohio e a diocese do bispo Fernandes, por sua concentração de estrangeiros em busca de trabalho.
A operação Buckeye, explicou o diretor do ICE, Todd M. Lyons, capturou “traficantes de drogas, agressores domésticos, ladrões e pessoas ainda piores”, sem autorização legal de permanência no país.
Dom Earl Fernandes disse ao Vatican News que não considera “as forças da ordem, de forma alguma, más ou perversas”. Na verdade, ele as elogia, “por terem erradicado aqueles que são verdadeiramente violentos, traficantes de drogas ou mesmo de pessoas. Todos queremos nos sentir seguros e protegidos”.
Essa segurança e proteção, argumenta o prelado, especialmente para aqueles que estão longe de casa, ”encontra-se frequentemente nas nossas igrejas e nas nossas comunidades escolares”. Os agentes de Trump sabem disso. Caçam-nos nesses locais sagrados.
Compadecido, o bispo apelou à generosidade da comunidade durante o Natal: “quem tem medo de ir à igreja também tem medo de ir trabalhar”. Por isso, a solidariedade cristã precisa acudir a aqueles que tiveram uma queda na renda familiar e passam necessidades.
O decreto episcopal expõe a face cruel da nova democracia norte-americana que no passado ostentava o lema “E pluribus unum”, que pode ser traduzido do latim como apologia à unidade entre muitos.
Em Columbus, onde a arquitetura germânica de tijolinhos vermelhos se sobressai, a Igreja Católica reinventou a tradição das catacumbas, aquelas mesmas, visitadas hoje por milhares de turistas em Roma, esconderijos milenares tidos como o único lugar seguro para a reunião e a troca de afeto cristão, em épocas das perseguições religiosas. Frequentar as capelas e igrejas ficou muito perigoso: é preciso encontrar locais seguros para orar.
O país que se gabava berço da democracia moderna vem se transformando em império do medo. Do culto nas catacumbas.
Ironicamente, isso acontece logo no momento em que há um pontífice norte-americano no trono de Pedro, o Papa Leão XIV.
Quando você for a Roma, visite-as na Via Ápia. São cemitérios subterrâneos romanos, como as catacumbas de São Calixto, São Sebastião e Santa Domitila.
Na América, reedita-se o terror implantado pelos imperadores romanos entre os séculos II até o V, quando Constantino reconheceu o cristianismo como religião do Estado e interrompeu as perseguições aos cristãos.
Ali, à sombra dos pinheiros perfilados em sentinela na Via Apia Antica, você poderá experimentar, entre uma garfada de “spaghetti alla carbonara” e uma taça do vinho da casa, o alivio de encontrar-se na Roma do imperador Nero. Perto dos gladiadores sanguinários e dos leões que devoravam cristãos no Coliseu, e longe, bem longe, a sete mil quilômetros dos agentes do ICE.
Mas, quem imaginava que o corajoso enfrentamento ao governo Trump viesse de um Dom Quixote das esquerdas, enganou-se. Dom Earl Kenneth Mario Fernandes, de 53 anos de idade, não integra as correntes associadas à Teologia da Libertação.
Pelo contrário.
Embora tenha sido nomeado bispo pelo carismático, progressista e inesquecível Papa Francisco, o bispo de pele amarronzada, como a do Mahatma Gandhi, declarou-se conservador, em entrevista ao “Catholic World Report”. É apaixonado pela “beleza transcendente da missa tridentina”, rezada em latim, símbolo do atraso para algumas correntes eclesiásticas.
São os mistérios do Espírito Santo, a luz que alumia a Igreja, sem dar bolas para polarizações políticas quando criam toda sorte de estupidez.
(*) J.D. Vital é jornalista, membro da Academia Mineira de Letras e autor de “Morte em Cocais”. Publicado também no site www.capabrasil.com.br

