2026 pode ser diferente ou igual 2025, depende só de você - créditos: divulgação
04-01-2026 às 12h05
Daniela Rodrigues Machado Vilela*
O que espera o indivíduo é viver um novo ano cheio de encontros, paz, serenidade, realizações e esperança. Porém, se esquece que na natureza de fato nada muda de 2025 para 2026, o que ocorre é que um dia termina e outro se inicia. A convenção humana dispõe e crê na mudança do calendário, uma soma de dias se finda e outra, convencionalmente, se inicia. A partir desta nova contagem, pode-se começar a pensar e agir de modo diferente, renovar o ânimo e mudar o curso das decisões e ações.
Ano novo é oportunidade de reorganização da vida. Tempo de apurar os sentidos e rejuvenescer a alma, lapidar o sensorial (tato, paladar, audição, olfato e visão), mas também possibilidade de amar mais e melhor. De tentar ouvir-se com profundidade, se deixar tocar pelas emoções mais genuínas, provar, observar e experienciar.
Talvez, os grandes valores da vida terrena sejam sentir o cheiro da chuva, se tocar pela paz dos ambientes, pois felicidade não é palavra, mas estado de espírito, um permitir-se sentir a transcendência. O maior gesto de acolhimento é se deixar tocar pela incompletude de si, pelas dúvidas e dores que nos compõem. Somos sim, eternos diletantes.
A transcendência, o Deus que habita a tudo e todos é inexplicável, e seria insano querer descrever a essência de tudo. Uma definição de Deus, provavelmente, seja a de que tudo que existe na natureza é de algum modo sagrado, contém sua beleza e sombras, estas são ideias, ditas aqui de modo bem simplificado, que remetem ao “Deus” de Spinoza, que conceitua-o enquanto uma substância única de que tudo deriva.
Não existe viver sem a materialidade do corpo, portanto, este é o templo de onde o homem deve exercer seu dever de cuidado para consigo. Na essência do ser está o sagrado, o homem é agente de um constante religar-se.
Na vida, todos estão de algum modo buscando sofrer menos, desejando a satisfação de sonhos e ideais. Estar feliz pressupõe uma percepção de emoções positivas.
Ano novo é tempo de buscar saúde mental, bem-estar, recordar experiências significativas e tentar uma coerência das ações rumo aos propósitos. Confirmar escolhas diárias, revê-las ou modificá-las. Cultivar o bem, realizar o que traz satisfação. Não há manuais, as manobras e escolhas são as apostas que cada um realiza.
Buscar ouvir o outro de modo genuinamente interessado, estando atento aos importantes aprendizados possíveis é gesto de sabedoria, pois o compartilhar de experiências engrandece. Ouvir de verdade envolve humildade, humanidade, curiosidade e grandiosidade. Afinal, estar presente na conversa sem monopolizar a fala, observando e absorvendo o que lhe faz sentido não é tarefa desprezível ou facilmente realizável.
O que salva na vida, em momentos incontáveis, é a arte. Não devemos ser relutantes em aceitar que a vida contempla múltiplas manifestações. A arte é espaço para surpresa, é oportunidade de um retirar-se do convencional. É exercício imaginativo, contemplação, explosão de significados, experimentação. Possibilidade de mente aberta.
Enfim, tudo na vida decorre de uma constância de atos, movimentos, atitudes, repetições, soma de ações coordenadas. O efeito do agir causa uma espiral de consequências concatenadas.
Portanto, o tempo só existe na mudança: tudo é dual, continuidades e descontinuidades, construções e rupturas, vida e morte. Tudo se constrói tijolinho por tijolinho. Ano novo é isto, tempo de início de projetos, de encarar que não há perfeição, operação sem restos. Interagir com a realidade é necessário para obter os aprendizados: apreender, ensinar, modificar a si e oportunizar partilha de descobertas aos demais. Fazer a diferença é entender que na vida nada se faz em saltos.
Conclusivamente, é tempo de continuar a caminhada, interromper cursos que não façam mais sentido. Vai! Continua na luta, tudo é processo. Remoce o olhar, aproveite os próximos 365 dias. Carpe Diem!
* Doutora, Mestra e Especialista em Direito pela UFMG. Cursou dois anos de estudos pós-doutorais pela mesma instituição com financiamento público. É professora, pesquisadora, diletante na vida e na pintura e aficionada por arte.

