Luiz Eduardo Falcão, presidente da AMM - Associação Mineira de Municípios - créditos: AMM
17-02-2026 às 08h36
Samuel Arruda*
A Associação Mineira de Municípios (AMM) anunciou a realização de uma caravana institucional que vai percorrer cidades do Vale do Jequitinhonha, com o objetivo declarado de ouvir prefeitos, lideranças e a população para levantar demandas prioritárias da região. A iniciativa, segundo a entidade, pretende consolidar propostas e encaminhá-las ao Governo de Minas Gerais e ao Governo Federal do Brasil.
A proposta, no entanto, já nasce cercada de questionamentos políticos.
O presidente da AMM, Luiz Eduardo Falcão, tem protagonizado embates públicos com o governo estadual. Nos bastidores políticos, a avaliação é de que a relação institucional entre a entidade municipalista e o Executivo mineiro atravessa um momento de tensão. Ao mesmo tempo, interlocutores em Brasília apontam que Falcão não teria hoje influência significativa junto ao governo federal.
Diante desse cenário, surge a pergunta que ecoa entre prefeitos e lideranças do próprio Vale do Jequitinhonha:
Qual é a efetividade prática da caravana?
Promessa: ouvir para reivindicar
A AMM afirma que a caravana será um instrumento de escuta ativa. Entre os principais problemas históricos da região estão:
- Infraestrutura precária de rodovias;
- Dificuldades no acesso à saúde especializada;
- Baixo investimento em geração de emprego e renda;
- Falta de recursos para saneamento básico;
- Déficits na educação básica e técnica.
O Vale do Jequitinhonha, uma das regiões com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de Minas Gerais, há décadas reivindica maior atenção do poder público estadual e federal. E especialistas e lideres políticos da região dizem que hoje os prefeitos individualmente tem mais força que seu representante estadual para reivindicar.
O impasse é político. Se a proposta da caravana é fortalecer o diálogo e organizar uma pauta regional, a dúvida que se impõe é política:
Se o presidente da AMM enfrenta desgaste com o governo estadual e não possui interlocução consolidada no governo federal, qual é o alcance real das reivindicações que pretende apresentar?
Prefeitos ouvidos reservadamente questionam se a iniciativa terá caráter técnico ou político. Há quem avalie que a caravana possa servir mais como instrumento de articulação e fortalecimento interno da AMM junto aos gestores municipais do que como um canal efetivo de negociação institucional.
Mobilização ou capital político?
Outro ponto levantado por analistas é o timing da ação. Em um momento de reorganização política no estado, percorrer o Vale do Jequitinhonha — região estratégica eleitoralmente — pode representar uma tentativa de ampliar base de apoio entre prefeitos e lideranças locais.
No entanto, a questão central permanece: se não há força política consolidada para transformar demandas em recursos e políticas públicas, a caravana será capaz de produzir resultados concretos ou se limitará à construção de discurso?
Enquanto a AMM defende que ouvir a base municipal é parte essencial do seu papel institucional, críticos cobram transparência sobre os desdobramentos práticos da iniciativa.
No fim, a população do Vale do Jequitinhonha aguarda não apenas promessas, mas soluções. E a resposta à pergunta que circula nos bastidores políticos ainda está em aberto:
O que, de fato, a AMM pretende entregar aos prefeitos da região além de escuta e articulação política?
*Samuel Arruda é jornalista e articulista

