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11-03-2026 às 09h38
Raphael Silva Rodrigues*
A metáfora do “homem invisível”, cunhada por Ralph Ellison, ressoa profundamente em diversas sociedades, especialmente quando falamos de populações historicamente marginalizadas (ELLISON, Ralph. Homem invisível. Trad.: Mauro Gama. José Olympio: Rio de Janeiro, 2013). Não se trata de uma invisibilidade física, mas de uma ausência de reconhecimento, de voz e de representatividade nos espaços de poder. Essa invisibilidade é uma condição de não ser visto, de não ser ouvido, de não ser considerado e é justamente essa condição que se manifesta de forma cruel no cenário político e eleitoral, tanto no Brasil quanto em países vizinhos como a Colômbia.
A ideia de que o ser humano nasce com a capacidade de perfectibilidade, como defendia Rousseau, contrasta brutalmente com a realidade de milhões que, desde o nascimento, são estigmatizados e relegados às margens da sociedade. Essa estigmatização, enraizada em séculos de opressão, molda não apenas a vida cotidiana, mas também a forma como essas populações interagem com o sistema democrático, especialmente durante as eleições.
Para entender a invisibilidade contemporânea, é imperativo revisitar o passado. O Brasil, infelizmente, carrega o peso de ter sido o último país das Américas a abolir a escravidão, em 1888. Esse atraso não é apenas um dado histórico; é a raiz de uma estrutura social que perpetua desigualdades. Segundo os dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o Brasil é o segundo maior país em população negra ou de origem africana no mundo, atrás apenas da Nigéria. No entanto, essa vasta demografia não se traduz em representatividade proporcional.
A abolição da escravidão na Colômbia, decretada em 1851, foi um marco histórico que provocou significativas convulsões políticas no país. Para se ter uma ideia da magnitude dessa transição, no final do período colonial espanhol, os escravizados representavam quase 10% de toda a população colombiana. Essa presença demográfica, no entanto, não era uniforme, concentrando-se fortemente em regiões específicas que dependiam dessa mão de obra, como Cartagena, Cauca, a costa do Pacífico e Antioquia, áreas que sentiram com maior intensidade os impactos sociais e econômicos do fim do sistema escravocrata (COLECCIÓN Revivamos Nuestra Historia: la libertad de los esclavos. Director: J. Triana. [Colômbia]: Producciones Eduardo Lemaitre, 1986. Archivo Señal Memoria).
A história do tráfico negreiro é uma mancha indelével na humanidade. As condições sub-humanas dos navios, as mortes por doenças e o terrível “banzo” – a melancolia profunda que levava à morte – são testemunhos de uma tragédia humanitária de proporções gigantescas (GOMES, Laurentino. Escravidão. vol. I. 8ª reimpressão. Globo Livros: Rio de Janeiro, 2019).
O poema “O Navio Negreiro”, de Castro Alves, eterniza essa dor e a brutalidade de um sistema que desumanizou milhões (FREYRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala. José Olympio: Rio de Janeiro, 1978). Joaquim Nabuco, um dos grandes abolicionistas, já alertava que o cativeiro era o “mau elemento” que corrompia a sociedade brasileira, e não a raça em si. Essa visão, tão lúcida para sua época, ainda ecoa em nossos dias, mostrando que a abolição formal não significou o fim das estruturas de opressão.
A realidade brasileira encontra um eco preocupante na Colômbia. O país andino é o segundo com a maior população afrodescendente na América Latina, logo após o Brasil. De acordo com dados obtidos no Sistema Estadístico Nacional (SEN) – Colômbia, cerca de 11% de seus 51 milhões de habitantes, ou seja, aproximadamente 5 milhões de pessoas, se identificam como afro-colombianos, com uma concentração significativa no Valle del Cauca. Assim como no Brasil, essa parcela expressiva da população enfrenta desafios semelhantes de invisibilidade e sub-representação.
Quando olhamos para as corporações, os Poderes do Estado – Executivo, Legislativo e Judiciário – e as posições de chefia em ambos os países, a ausência de pessoas negras é gritante. Essa lacuna não é um acaso; é o resultado de um sistema que, mesmo após a abolição, continuou a negar oportunidades e a invisibilizar talentos.
Nas eleições, essa dinâmica se torna ainda mais perversa. Candidatos negros enfrentam barreiras estruturais para acessar financiamento, visibilidade midiática e apoio partidário. O eleitorado negro, por sua vez, muitas vezes se vê diante de opções que não representam seus interesses ou sua identidade, perpetuando um ciclo de desengajamento e frustração.
A questão central que se impõe é: como a população invisível se manifesta nas urnas? Seu voto, embora muitas vezes subestimado ou direcionado por interesses alheios, possui um poder transformador. No entanto, a falta de representatividade efetiva significa que as pautas e necessidades específicas dessas comunidades raramente chegam aos centros de decisão política. A saúde, a educação, a segurança pública e o acesso à justiça são áreas onde a desigualdade racial é mais evidente, e a ausência de vozes negras nos parlamentos e gabinetes impede a formulação de políticas públicas verdadeiramente inclusivas.
A eleição não é apenas um ato de escolha de representantes; é um termômetro da saúde democrática de uma nação. Quando uma parcela tão significativa da população permanece invisível nesse processo, a própria democracia é enfraquecida. A luta por mais representatividade não é apenas uma questão de justiça social; é uma necessidade para a construção de sociedades mais equitativas e funcionais.
O que estamos fazendo para mudar essa realidade? Essa indagação deve ecoar em cada cidadão, em cada eleitor, em cada político. Não basta reconhecer a invisibilidade; é preciso agir para desconstruí-la. Isso implica em exigir dos nossos representantes um compromisso real com a diversidade e a inclusão. Significa apoiar candidaturas que verdadeiramente representem as minorias. Significa, acima de tudo, educar-nos e educar as futuras gerações sobre a importância de uma sociedade onde todas as vozes sejam ouvidas e todos os rostos sejam vistos.
A invisibilidade não é um destino, mas uma condição imposta que pode e deve ser superada pela força da participação e da representação democrática. O futuro de nossas nações depende de quão bem conseguirmos enxergar e valorizar aqueles que, por tanto tempo, foram mantidos à sombra.
*Raphael é Doutor e Mestre em Direito (UFMG), com pesquisa Pós-doutoral pela Universitat de Barcelona, na Espanha. Especialista em Direito Tributário e Financeiro (PUC/MG). Professor do PPGA/Unihorizontes. Professor de cursos de Graduação e de Especialização (Unihorizontes e PUC/MG). Advogado e Consultor tributário.

