A Onça Freudiana - créditos: Ayres Armando
08-02-2026 às 10h40
Tadeu Martins*
Estamos em 1927, numa pequena cidade do Vale do Jequitinhonha, dentro de um consultório médico: O médico é Dr. Antônio, 31 anos, recém-formado pela Universidade da Bahia, clínico entusiasmado com os estudos sobre a força da mente humana. O paciente é Josino, 45 anos, pequeno produtor residente na zona rural, que padecia de “cansaço, tontura e sono mal dormido”. A consulta fora solicitada por Mário, primo do Josino e amigo do Dr. Antônio. Após minucioso exame, Dr. Antônio percebeu que o paciente gozava de boa saúde, todos os órgãos muito bem, mas o Josino estava muito abatido. Buscando descobrir a causa do mal-estar do paciente, Dr. Antônio partiu para um longo bate-papo.
– Você está se alimentando bem?
– Tô sim dotô. De manhã eu bebo café, depois almoço e de tardinha eu janto o resto do almoço que eu mesmo faço.
– Você não é casado?
-Era Dotô. Faz uns dois mês que a infeliz que eu me casei com ela fugiu com um motorista de caminhão, que passava de vez em quando na estrada lá perto de casa. Estrada que só passa um carro na vida e outro na morte. Nunca mais tive nutiça dela, dotô. Nós tinha um fí, de três anos, ela levou junto.
– Você começou a se sentir mal logo que ela partiu? – perguntou o médico, já antevendo a causa da fraqueza do Josino.
– Não dotô. Eu só comecei mesmo tem uns dez ou doze dias. Eu me acho que é o diabo daquela onça.
– Onça? Que onça?
– Eu moro sozinho dotô. De uns vinte dia pra cá, deu pra aparecer uma onça enorme na janela do meu quarto. Já atirei nela umas cinco vez, já armei arataca (armadilha), mas nada adianta. A bicha é esperta. E lá na minha religião (região), ninguém inda viu ela dotô. Parece que é só eu. Ela me persegue. Chega de noite e berra bem na janela.
– Onça berra?
– Berrar num berra não dotô. Eu é que não sei cumé que chama o cantado dela. Eu sei que é um urro feio. Dispois que ela começou aparecer, tem uns dez dias que eu não durmo direito.
Ao ouvir aquele relato, o médico começou a pensar com seus botões. Onça que ninguém via, que não comia nenhum animal. Estranho. Depois que perdeu a mulher e o filho, a tristeza e a solidão faziam o Josino, inconscientemente, associar sua mulher com uma onça. Aí, vinham as visões da onça, que só aparecia à noite. “A mente humana é capaz de criar coisas fantásticas quando quer expulsar uma realidade que machuca”, pensou o médico antes de fazer outra pergunta.
– Por que você não arranja uma pessoa para morar com você? – diz o médico, sugerindo mais que perguntando.
– Por causa da onça? Precisa não dotô. Posso ir perdendo sono e até fraquiano, mas um dia Deus há de ajudar e eu pego aquela muleca. Inda vou dar o couro dela para o sinhô. Nesse meio tempo, o Tunico já durmiu dois dias lá em casa, mas nesses dias ela num apareceu. Se tivesse aparecido, nós tinha acabado com ela – fala o lavrador, fortalecendo a impressão do médico.
– Eu vou receitar um medicamento que acalma, você vai dormir direito e vai melhorar sua fraqueza – diz o médico, entregando uma receita ao Josino.
– Uai dotô, cumé que eu vou fazer a onça tomar esses remédios?
– Não Josino. O remédio é para você tomar – responde o médico, sem conseguir esconder um sorriso.
– Mas dotô, quem precisa calmar né eu não, é a onça.
– Vamos esquecer esta onça e dormir um bocado. Você vai tomar esse remédio e logo vai estar forte de novo. Você vai ver.
Josino saiu do consultório, passou na farmácia, comprou a caixa de comprimidos, ouviu do farmacêutico a explicação de que não podia beber cachaça enquanto estivesse tomando aquele remédio, e voltou para sua casa na roça.
Dr. Antônio, alguns dias depois, foi a Salvador rever a família, ficando por lá uns dez dias. Quase uma semana depois que retornou à cidade onde trabalhava, ele foi visitar o seu amigo Mário. Entre um bom papo e um licorzinho de pequi, o Dr. Antônio pergunta ao amigo:
– E aquele primo seu, o Josino, já melhorou? Ele estava tão triste.”
– Uai doutor, você não soube não? Josino morreu. Uma onça comeu ele.
*Tadeu Martins, escritor e produtor cultural já publicou 15 livros e 84 folhetos de cordel, e gravou um CD de causos e cordéis. É o atual presidente da ALVA- Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha, e colunista do Diário de Minas.

