
Marisa Letícia protagonizou pouquíssimas polêmicas quando foi primeira-dama. CRÉDITOS: Divulgação
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25-03-2025 às 10h11
Ilder Miranda Costa*
- “Hétero é uma orientação sexual e cisgênero é uma identidade de gênero”, respondeu Lula.
A interlocutora achou que Lula falou da boca para fora.
- “Bobagem sua”, garantiu Lula, “trans pode ser hétero, assim como cis pode ser homo, e vice-versa”. Chegou a esboçar um gesto em direção a ela, mas evitou enfrentar, mais uma vez, o olhar horrorizado diante de falhas do cabelo e da barba. “Vá ao médico, Lula.” O jeito de cuidadora não incomodava. Duro era enfrentar a palidez estampada no rosto e refletida no espelho.
- Pela milionésima vez, Lula: hétero sente-se atraído por pessoa do sexo oposto e cis é quem se identifica com o sexo biológico que lhe foi designado quando nasceu.
A irritação explicava-se pelo que acabara de ler, no verbete ‘mulher’, em Dicionário Lula: “A gente pensa que mulher é mais calma, não é isso? A gente tem o hábito de achar que mulher é sexo fraco. Deus me livre. Só fala isso quem não conhece a dona Marisa, porque, se mulher fraca é aquela, Deus me livre quem se casou com uma mulher forte.”
A tarde caía devagar sobre uma Brasília cada vez mais estranha ao metalúrgico de São Bernardo-SP. Como que pescando a coisa no ar, começou a dizer que “Marisa Letícia protagonizou pouquíssimas polêmicas quando foi primeira-dama”.
Certa de que Lula aludiu a seu linguajar, usando palavrão, a interlocutora, que andava mordida por causa de Bonita desfilando pela rampa de acesso ao mezanino, no Salão dos Espelhos, olhou o horizonte infinito do Planalto Central e, silenciosamente, pediu paciência aos céus.
Mergulhado em recordações de um tempo em que seu mandato era aprovado por 45% dos brasileiros, Lula afundou o coração em saudade:
“Em 2004, [Marisa] determinou a implantação de canteiros em formato de estrela com flores vermelhas nos jardins do Palácio da Alvorada e da Granja do Torto. A medida foi criticada por entidades ligadas à preservação do patrimônio da cidade, já que os jardins dos palácios do governo são tombados.”
A interlocutora passou a falar, descuidadamente, e, deixando aquilo para lá, foi sumindo para dentro de si mesma. “Mais de mil e trezentos mil pedidos de informação negados, só em 2023”. Não resistiu e trouxe à tona o que a alma lhe sussurrava: – “Lula, essa história de não fornecer ‘a lista de militares do Batalhão da Guarda Presidencial que estavam de plantão durante os atos do dia 8 de janeiro de 2023’ me incomoda.”
- Pois impus ‘sigilo de 100 anos à agenda da primeira-dama’”, disse isso e sua imaginação voou até Nadejda Sergeyevna Alliluyeva (1901-1932), a segunda mulher de Josef Stalin. –
“Nadejda conheceu Stalin ainda menina, quando seu pai, o revolucionário Sergei Alliluyev, ‘o acolheu e lhe ofereceu abrigo após sua fuga da prisão, em 1911’ ”. - “Do que você está falando?”, ela não escondeu a aflição; “quem é essa mulher?”.
- “Vê aí”, a excitação de Lula era indisfarçável.
A interlocutora acessou a Wikipédia e ficou sabendo que “após a Revolução, Nadejda trabalhou com Lênin, de quem se tornou confidente”. Prosseguiu, dando tom feminista à leitura: “Nadejda e Stalin casaram-se em 1919, quando ele tinha 41 anos de idade e já era viúvo da primeira esposa. O casal teve dois filhos.”
Pulando trechos, pegando informação aqui e ali, foi dando notícias esparsas. A filha de Stalin escreveu, em sua autobiografia, “que a morte de sua mãe havia extinguido a última centelha de bondade humana em seu pai”.
“Em 9 de novembro de 1932, após discutir com Stalin em um jantar festivo e se posicionar contra políticas de coletivização do governo, Nadejda se matou em seu quarto com um tiro.”
A noite despencou, pesadamente, sobre a Capital Federal. Lula cochilou no sofá; arreado: sem tirar sapatos, sem afrouxar cinto, sem desabotoar camisa. Ela continuou folheando o Dicionário.
“Eu aprendi com a dona Marisa Letícia que a gente não pode gastar mais do que a gente ganha, e a gente só pode fazer dívida do tamanho que a gente pode pagar, porque senão a gente quebra.” “Mentiroso…”, ajuizou.
Entre as almofadas, a face torta de Lula expôs aos olhos penetrantes da mulher o vazio que se esconde por trás do egoísmo de quem, enquanto puder, tomará para si o poder. O incidente da queda já ia para o sexto mês e ela mantinha-se desconfiada de algo no cérebro. “Chapéu para esconder o quê? Apesar das cirurgias, distúrbios de marcha tonaram-se indisfarçáveis. E se acontecer? Eu sou a única à sombra da aba do Pananá.”
Com certo tremor na ponta dos dedos, digitou ‘mulher’, ‘presid…’. Veio: Todas as mulheres dos presidentes, livro de Ciça Guedes e Murilo Fiuza de Melo, apresentado da seguinte forma: “Em 130 anos de República, pouco se pesquisou sobre as primeiras-damas (…) mesmo limitadas pelos costumes de suas épocas e pela liturgia do cargo, muitas tiveram presença relevante na vida do país (…) de Mariana da Fonseca a Michelle Bolsonaro, passando por Nair de Teffé, Darcy Vargas, Maria Thereza Goulart, Dulce Figueiredo e Ruth Cardoso”.
Ela mergulhou na pesquisa. Há um século, o presidente da República era Artur da Silva Bernardes (1875-1955), que governou de 1922 a 1926. Ao lado do marido, Clélia Vaz de Mello (1876-1972) viveu “anos agitados, de aflições, de perigo para todos. (…)
Bernardes, fiel ao lema que se traçou – ‘a ordem acima da lei’ – governava com mão firme e espírito patriótico. Mas, lá fora, a tormenta rugia. Conspirações sucessivas tramavam a derrubada do regime.” ‘Com mão firme’, na citação anterior, significa que, durante quase todo o mandato, Arthur Bernardes submeteu o país a estado de sítio.
Em face do malogro da Revolução Constitucionalista de São Paulo, em 1932, o casal partiu para o exílio. “O ex-Presidente Bernardes fora levado, sob escolta armada, diretamente do Forte do Leme, onde se achava preso, para o navio que o conduziria à Europa. Dona Clélia e sua filha Conceição o aguardavam à bordo. Cais cheio – tanto de amigos de Bernardes como de partidários da ditadura.
Mal as escadas de embarque haviam sido levantadas, explodiu um conflito no meio da multidão, junto ao ancoradouro. Tiros, correrias, violências da polícia. Chegando ao tombadilho Dona Clélia vê, estendido no chão lá embaixo, Artur Bernardes Filho, todo ensanguentado. A roupa branca, que seu filho usava, tornava ainda mais visíveis as manchas de sangue. E, enquanto isso, o navio ia se afastando, se afastando devagar e ela, mãe extremosa, vendo-o caído no cais, sem nada poder fazer…”
Com o rosto enterrado no encosto do sofá e metade das nádegas penduradas no assento, Lula sonhou que, finalmente, havia chegado em casa, caminhando sobre as pedras irregulares de um calçamento, evitando escorregar em pilhas de estrume, num cais sufocado por poeira.
Enquanto Lula dormia, ela refletia sobre o suicídio de Nadejda, remoía-se diante do luto de Clélia. “Que tipo de sofrimento matou Marisa? Qual crueldade matará Michelle? E ela, por que imundície morrerá? 2026 está chegando… até lá nada poderá ser feito para aliviar a indisciplina em que estamos imersos. Nem mesmo a burguesia pode nos tirar dessa confusão porque ela não sabe liderar e a demanda do nosso tempo não é por seguidores, mas por líderes.” Resignada, voltou à pesquisa.
Sofia Pais de Barros (1877-1934) foi a primeira-dama do Brasil de 1926 a 1930. “Eles se casaram em 4 de março de 1900, quando ela tinha 23 anos e ele, 31. Invariavelmente descrito como um homem muito bonito, que adorava a vida boêmia, Chinton, como um dos irmãos o apelidara, tinha casos rumorosos desde os tempos de estudante, era alegre e bem-humorado, mas podia tornar-se violento quando contrariado. E era ‘o homem mais teimoso do século’ (…)
Sofia acabaria seus dias exilada na Suíça com o marido, depois que um golpe de estado, a Revolução de 1930, pôs fim ao seu governo e impediu Júlio Prestes, que havia sido eleito, de tomar posse como presidente, enterrando a República Velha. A ex-primeira-dama voltaria ao Brasil dentro de um caixão, trazido por dois de seus quatro filhos, para ser enterrada no Cemitério da Consolação.
No livro Como vivem os homens que governaram o Brasil, João Lima classifica de ‘ingratidão’ o gesto de Washington Luís de enviar os ‘despojos da inditosa senhora, que foi tão digna quanto sofredora’ para o Brasil apenas em companhia dos filhos, posto que Sofia lhe dera ‘amor, prestígio, fortuna, sem os quais não seria fácil o seu acesso na vida pública’.
Atribui o desejo do ex-presidente de permanecer em Lausanne a uma mulher, um ‘tipo loiro, leve e vaporoso’, que teria envolvido ‘em morna carícia o vulto forte e varonil do septuagenário brasileiro’. Com a ‘alma clareada por dois olhos azuis’, faria inveja a “um fauno adolescente dos trópicos”. Lima conta, ainda, que havia outra versão, que obteve de ‘boa fonte’: Washington Luís estaria de casamento tratado com uma ‘senhora francesa já na maturidade’.”
“Nada há de surpreendente, então; a República tem sido assim: ditatorial e irresponsável, alternadamente.”
No meio da noite, Lula acordou. A sala mergulhada em penumbra e um dos cantos suspenso pela luz amarela de um abajur. Ela continuava lendo. Ele pensou em inventar uma respiração pesada, mas desistiu porque, com certeza, ela diagnosticaria problema pulmonar e isso serviria de pretexto para mudar seu estilo de vida. Já bastava a rotina doméstica, que ele não experimentara com Marisa, sem licença para fazer política em casa, nem fora do expediente.
Cerrou o punho ao perceber o que ela ouvia. Um político de direita dizendo que “crime de lesa-pátria é submeter a política econômica e a política externa ao Foro de São Paulo (…). É protagonizar o mensalão para comprar o congresso e o petrolão para se perpetuar no poder. (…) É endividar a economia do Brasil, ao nível da insustentabilidade (…). É deixar o Brasil refém de uma justiça aparelhada (…) que, em vez de proteger a Constituição, protege o governo. É entregar o Brasil às mãos do tráfico de drogas e de armas (…). É destruir a segurança pública, criminalizando os policiais e enfraquecendo a aplicação da lei. É submeter-se a uma agenda ambiental que prejudica os interesses do Estado enquanto se alia aos maiores poluidores do planeta e, usando a desculpa ambiental, entregar a Amazônia aos cuidados de estrangeiros. É sufocar o setor produtivo com impostos abusivos, dificultando a geração de emprego, a renda e a inovação. É perseguir e demonizar o setor privado, enquanto libera dinheiro subsidiado para os amigos do rei.”
- “Desliga isso.”
Ela tremeu. Lembrou-se das ordens que lhe dava o primeiro marido. Encolheu-se com a imagem do pai projetada sobre a barba branca de Lula. O silêncio oprimiu o palácio. Daquela madrugada de fim de verão ficou a lembrança da brisa vinda do lago, dos sons de gafanhotos, grilos e sapos e do latir dos cães do outro lado do mundo.
- “Na minha casa, não.”
- “Você quer água?”
Ele não respondeu e ela desapareceu em direção à cozinha. Impressionada com a história de Nadejda que, após discutir com Stalin, correu para o quarto e se matou, largou o celular para trás.
Lula não resistiu. Na tela, “Valia Istomina: a última mulher de Stálin”. Lula, que não é de ler, fez um esforço:
“Valia Istomina, governanta pessoal de Stálin, teve que viver talvez o choque mais duro. Inicialmente, ela havia sido ‘destinada’ ao general Nikolai Vlasik, chefe dos guardas pessoais de Stálin. Mas, na época, ela foi cortejada por muitos homens, entre eles Lavrenti Béria, chefe do NKVD.
Quando Valia chamou a atenção do próprio Stálin, todos os outros recuaram. A jovem foi transferida para a datcha dele nas cercanias de Moscou, em Kuntsevo. Ela mesma colocava a mesa para ele e fazia a cama para ele dormir.
A tragédia aconteceu 17 anos depois, quando Stálin adoeceu e Valia não foi atrás dele. Ela foi estuprada por Vlasik e Beria. Ao saber que ela o havia ‘traído’, Stálin deu a ordem de enviar Valia ao mais sinistro campo de Kolima, na região de Magadan. Vlasik também foi preso e enviado para a um campo de trabalhos forçados, mas Béria foi poupado. Felizmente para Valia, ao chegar ao campo ela foi informada de que a ordem havia sido mudada e ela estava sendo mandada de volta. (…)
Após a morte de Stálin, sua filha Svetlana Alliluieva escreveu sobre Valia no livro Vinte cartas a um amigo: ‘Ela caiu de joelhos ao lado do sofá, deixou cair a cabeça no peito do morto e começou a chorar alto como uma mulher da aldeia. Até seus últimos dias, ela estava convencida de que não havia homem melhor que meu pai’.”
Lula quis lançar o celular contra a parede e, se o fizesse, tê-lo-ia feito com violência. Quis gritar, quis desistir, quis chorar. Em direção ao bar, tropeçou depois de atropelar uma mesinha de centro. Por dentro, a cabeça martelava: “em tão poucas linhas, tanta coisa sobre o companheiro Stalin”. Procurou uma palavra para qualificar sua experiência com a leitura; encontrou “perturbadora”.
“É para isso que os livros servem?”
* Ilder Miranda Costa é professor da Faculdade de Direito da UFMG
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