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14-01-2026 às 09h15
Solange Mendes*
O dia que ainda é possível. Aí ela acordou, não sentia dores, não sentia fome, e não sentia frio. Ouvia vozes, barulhos como de uma bomba de encher pneus, que fazia um barulho, parava fazia outro barulho, parava… De repente as vozes chegaram perto, queria ver, mas os olhos fechados não abriam, queria falar mas não conseguia.
Ao longe um barulho de sirene, as vozes mais perto, queria se mover, queria saber o que acontecia. De repente lhe veio à memória, sua casa, seu quarto, a luz da manhã pela janela, o vento que balançava as cortinas, o barulho das asas do beija flor, em busca da água que sempre mantinha logo acima das azaleias que floriam o ano todo, o cheiro da manhã, a prece que ouvia pelo celular depois que tomava o remédio e depois o frio, a tosse, a garganta seca e o medo. Mais uma vez quis falar, quis saber o que acontecia …
As vozes agora chegam nítidas, alguém pede pra aspirar o tubo, limpar as secreções, consertar o travesseiro, calcar o braço, depois veio um barulho de porta se abrindo, alguém queria saber o que tinha mudado da manhã até agora.
Dez dias e simplesmente o quadro não mudava, não existia nem melhora nem piora, o pulmão infectado, o coração estava ali tranquilo pulsando calmo.
Então ela realmente acordou, mesmo não conseguindo abrir os olhos, queria falar queria perguntar pelos filhos, pelo netos, queria dizer que estava ali, queria respirar, sem aquilo que incomodava sua boca, sua garganta, aquilo que forçava a sua língua..
Já tinha vivido aquilo, já tinha sentido aquele momento de não ter ação, de só ter o pensamento rápido, vendo passar sua vida, suas alegrias e seus sonhos…
Mas agora ela tinha medo, da outra vez ela não teve tempo de pensar, mas agora tinha tempo de ter medo, de se sentir só e de se sentir presa à cama e ao tubo. Sim, ela estava num CTI, estava querendo viver, estava querendo correr pra casa, queria correr pra chuva, queria andar descalça por ai, mas estava ali, presa nos braços de uma doença que tinha mais força, tinha mais folego, e todo o ar que lhe faltava …
O monitor mostrava que o coração estava numa linha reta, e o bpm de 60 fazia com que aumentassem as falas, as manobras e assim sem poder dizer nada, sem poder olhar para ninguém, ela se foi …
No dia seguinte pela manhã, enquanto o beija flor se alegrava com a água na janela, o telefone tocou, depois de 10 dias sem visitas, sem carinho e sem chance alguma, ela se foi.
Para aqueles que ela sempre amou só restaram as orações distantes e a gratidão pela vida e nem um carinho em se despedir.
Enquanto isso no Planalto, um presidente desvairado, com um sorriso de hiena, soltando muitos perdigotos, espalhava vírus, ódio e afagos…

