Créditos: Divulgação
24-02-2026 às 12h05
Raphael Silva Rodrigues*
Em um mundo vertiginoso, onde a busca incessante pelo acúmulo de bens materiais parece ditar o ritmo das aspirações humanas e definir o valor individual, resgato com carinho e profunda admiração o ensinamento de meu avô materno, José Alves da Silva (22.05.1930 – 03.01.2009). Homem simples, pintor de profissão, provedor incansável de uma família humilde, ele estudou apenas até o quarto ano do antigo grupo escolar.
No entanto, sua sabedoria transcendia qualquer diploma, qualquer título acadêmico. Com uma humildade ímpar – aquela que, por sua autenticidade desconcertante, aterrorizava os orgulhosos e desarmava os vaidosos –, vovô Nonô (como era conhecido) repetia com uma convicção que vinha da alma: a felicidade não está no que o homem possui, mas na capacidade que ele tem de dividir seus pertences, sejam eles materiais ou imateriais. Essa lição, tecida em gestos cotidianos de uma vida plena, ecoa como um farol em tempos de egoísmo velado e individualismo exacerbado, convidando-nos a uma reflexão profunda sobre o verdadeiro sentido da abundância.
Vovô Nonô, com as mãos calejadas de anos manejando pincel e rolo, voltava do trabalho exausto, mas nunca vazio de espírito. Sua jornada física podia ser árdua, mas seu coração permanecia transbordante. Se um vizinho batia à porta precisando de um prato de comida, ou mesmo de um punhado de farinha, ele dividia sem hesitar o pão de cada dia, o pouco que tinha, transformando a escassez em suficiência.
Não era teoria de livros; era a prática vivida, a filosofia encarnada. Ele partilhava não só o feijão e o arroz, mas também as histórias ao redor da mesa, os conselhos para quem sofria uma perda, o ombro amigo para o abatido, e até mesmo o silêncio compreensivo quando as palavras eram desnecessárias. Sua felicidade se multiplicava porque era generosa, fluindo como a tinta que ele espalhava nas paredes alheias para ajudar quem não podia pagar, deixando um rastro de beleza e solidariedade.
Essa visão ressoa com antigas sabedorias filosóficas, que vovô Nonô intuía sem nunca ter lido os gregos ou os grandes pensadores. Na filosofia clássica, a felicidade – ou eudaimonia, na Grécia antiga – não era apenas um estado de prazer, mas o propósito último da existência, um ideal de “florescimento humano”, uma vida bem vivida e virtuosa, em coerência com valores profundos e com o desenvolvimento pleno das capacidades humanas. Os estóicos, como Sêneca, viam-na na aceitação do inevitável e na liberdade interior, priorizando o que depende de nós – nossas atitudes, nossas escolhas – sobre o efêmero e o incontrolável. A generosidade e a partilha, nesse contexto, são atos de virtude que reforçam a autonomia moral e a paz interior.
Psicólogos modernos, como Martin Seligman, na teoria PERMA (Positive emotions, Engagement, Relationships, Meaning, Accomplishment), reforçam que a felicidade autêntica se constrói em pilares como relacionamentos positivos e contribuições sociais – exatamente o que vovô exemplificava ao dividir, fomentando empatia, solidariedade e um propósito compartilhado que transcende o eu.
Alain Badiou, em reflexões contemporâneas, critica a “felicidade banalizada” do consumo e da harmonia superficial, propondo uma felicidade real como exceção, ligada ao entusiasmo coletivo e à ruptura com o egoísmo, um “acontecimento” que transforma a percepção do mundo. Vovô Nonô, sem saber, era um estóico prático, um filósofo da partilha, provando que o “ser” generoso multiplica o bem-estar mais que qualquer posse acumulada, construindo uma eudaimonia genuína e contagiosa.
Sua casa não era repleta de luxos ou objetos de ostentação, mas transbordava de risos, de conversas carinhosas e de laços inquebráveis, forjados na reciprocidade e no afeto. Ele provava, cotidianamente, que bens materiais divididos geram uma abundância afetiva que nutre a alma e fortalece a comunidade. E os imateriais? Ah, esses eram seu tesouro maior, inesgotável: paciência para ouvir lamentos e desabafos sem pressa, sabedoria para aconselhar sem julgar, a presença constante e acolhedora.
A humildade do vovô Nonô era aterradora e desarmava as vaidades alheias; muitos o temiam porque, ao seu lado, o orgulho se revelava pequeno, frágil e sem sentido. Ele nos ensinava que possuir muito e reter tudo é receita para a solidão e o vazio existencial; dividir é o segredo da multiplicação da alma, da construção de um capital social e emocional que perdura.
Essa lição ganha contornos urgentes na sociedade moderna, cada vez mais conectada digitalmente, mas paradoxalmente isolada em sua essência. Estamos realmente preparados para o “ser” mais que o “ter”? Numa era de redes sociais, onde a felicidade é performada em filtros perfeitos, em uma ostentação virtual de vidas idealizadas, corremos o risco de confundir likes com laços reais, aprovação superficial com conexão genuína.
O modelo PERMA alerta que emoções positivas vêm de vínculos autênticos, de interações significativas, não de aprovações digitais efêmeras; propósitos florescem no cuidado mútuo, no serviço ao próximo, não no acúmulo solitário de bens ou seguidores. E Badiou nos provoca: a felicidade dominante é mera satisfação de desejos induzidos, preservando o status quo e a ordem estabelecida; a verdadeira surge no compartilhamento de um “novo tempo”, no entusiasmo coletivo que vovô Nonô vivia em sua comunidade, desafiando a lógica do consumo.
Grandes filósofos, de Aristóteles a contemporâneos, insistem: ser feliz é virtuosamente compartilhar, é suportar as dores e desafios da existência com conhecimento, generosidade e resiliência, construindo um bem-estar que é intrinsecamente relacional.
Olhe ao redor: o consumismo nos empurra para o “ter” – mais gadgets, mais status, mais experiências individualizadas –, mas estatísticas de solidão crescem alarmantemente, depressões explodem, e a ansiedade se torna uma epidemia silenciosa. A pandemia de COVID-19, em sua brutalidade, revelou o vazio das posses isoladas e a fragilidade do individualismo extremo; foi na solidariedade, nos panelaços de comida para os necessitados, nas redes de ajuda mútua entre vizinhos, que muitos redescobriram a alegria autêntica da conexão humana e do propósito compartilhado.
Vovô Nonô diria, com sua sabedoria simples e penetrante: “A sociedade moderna tem tudo, mas divide pouco. Por isso, sofre. A abundância material, sem a partilha, torna-se um fardo, não uma bênção.” Estamos preparados para essa mudança de paradigma? Basta resgatar os ensinamentos de humildes como ele: pintar a vida com as cores vibrantes da partilha, multiplicando a felicidade que, quando dividida, nunca acaba, mas se expande infinitamente.
Com todo o respeito e admiração por esse gigante gentil, que me legou não herança material, mas um legado eterno de ser humano pleno, de como viver uma vida rica em significado e conexão. Que sua lição nos inspire a dividir mais, a possuir menos – e a ser, enfim, felizes de verdade, em um mundo que tanto anseia por essa multiplicação do bem.
*Doutor e Mestre em Direito (UFMG), com pesquisa Pós-doutoral pela Universitat de Barcelona, na Espanha. Especialista em Direito Tributário e Financeiro (PUC/MG). Professor do PPGA/Unihorizontes. Professor de cursos de Graduação e de Especialização (Unihorizontes e PUC/MG). Advogado e Consultor tributário.

