Créditos: Divulgação
30-11-2025 às 10h20
Maraliz de Castro Vieira Christo*
Convidada pelo Museu Mariano Procópio para escrever sobre alguma peça do acervo relacionada a D. Pedro II, em virtude do bicentenário de seu nascimento, lembrei-me dos diversos retratos do Imperador, ali existentes, representado em diferentes idades, trajes, formatos e ocasiões. Muitos foram os retratos produzidos em função do monarca, em virtude de seu longo reinado, quase 50 anos, e da necessidade de órgãos públicos exibirem sua imagem, rendendo-lhe homenagens nas datas festivas.
Dentre os retratos do museu, um desperta nossa atenção, não pelo autor, tampouco pela qualidade técnica ou inovação iconográfica, mas pela data: 1905. Por que fazer um retrato do Imperador a óleo sobre tela, em tamanho natural (232 x 154 cm), em plena República?
O retrato foi realizado por Carlos Xavier Bastos, artista local, nascido em 1874. Pouco se sabe sobre ele. Algumas notícias do jornal O Pharol revelam estar ativo em Juiz de Fora entre 1889 e 1913, quando, provavelmente, mudou-se para o Rio de Janeiro. Trabalhava como cenógrafo, dedicava-se à pintura de estandartes e carros alegóricos para grupos carnavalescos, decorava paredes de cafés e instituições. A partir de 1899, de quando em vez, expunha quadros de cavalete, no escritório do jornal ou nas vitrines de lojas. São paisagens, temas religiosos ou retratos como os do poeta Belmiro Braga e do político Duarte de Abreu. Além do retrato de D. Pedro II, o Museu Mariano Procópio possui da autoria do pintor uma paisagem e pequena tela representando um mendigo. Quadros que atestam os limitados recursos do artista autodidata. Sobre sua vida pessoal, uma notícia se mostra reveladora quanto à possível posição política do artista: em 1900, o jornal O Pharol noticiou o nascimento de seu filho, que recebera o nome de “Pedro Segundo Xavier Bastos”.

Carlos Bastos retratou o Imperador de forma convencional, em pé, com farda de gala da Marinha, portando a banda da Imperial Ordem do Cruzeiro, a placa da Grã-cruz da mesma ordem e uma espada. A mão esquerda segura o chapéu, em posição muito próxima a uma foto do Imperador, realizada no estúdio de Insley Pacheco, em 1865, durante a Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai, pertencente ao Museu Mariano Procópio. Com cabelos e barbas brancas, ele fita o espectador, ao lado de uma mesa com livros e globo terrestre, acentuando a erudição do monarca. Ao fundo, duas colunas, uma abertura por onde vislumbra-se o azul do céu e o tecido esverdeado de uma possível cortina. A pintura chapada denuncia o trabalho de cenógrafo. Interessante o fato de Bastos ter representado D. Pedro II com a farda da Marinha, instituição mais próxima da monarquia, apesar do Imperador, no final da vida, preferir ser representado com trajes civis, como já o fizera, por exemplo, Louis Robert de Cuvillon, em obra igualmente existente no Museu Mariano Procópio.

Sobre o quadro de Bastos, obtivemos notícias esclarecedoras também em O Pharol. Em setembro de 1903, no escritório do jornal, foi exposto um retrato, “em ponto grande”, de D. Pedro de Alcântara, executado a fusin, ou seja, carvão, por Carlos Bastos, atendendo a uma encomenda de José Augusto Pinto, que identificamos ser comerciante de secos e molhados, estabelecido em Juiz de Fora. Em outubro de 1905, o quadro a óleo estava pronto para ser cerimoniosamente entronizado na sala das sessões da Câmara Municipal, como de fato ocorreu, no dia 2 de dezembro, em comemoração ao aniversário de D. Pedro II. Tais informações intensificaram a questão inicial. Por que a Câmara Municipal de uma cidade conhecida por seus republicanos históricos faria semelhante homenagem ao falecido Imperador, em plena República?
Os jornais não nos apontam as motivações para a feitura do quadro, tampouco as Atas da Câmara Municipal, disponíveis no Arquivo Histórico de Juiz de Fora. Infelizmente, a Câmara não realizou sessões entre 2 de outubro de 1905 e 2 de abril de 1906, por falta de quórum, impossibilitando identificar o propositor da aquisição do quadro, assim como possíveis debates e votação.
Por que a presença de um quadro representando D. Pedro II na Câmara Municipal de Juiz de Fora, na República, nos traz tanta estranheza? Resposta: pelo poder desta representação.
Para o entendimento de nossa questão, é necessário, rapidamente, retomarmos a função dos retratos dos monarcas no Império brasileiro. Desde o processo de independência, a circulação dos retratos do Imperador era fundamental, não só para que os súditos conhecessem o novo monarca, mas para que se estabelecesse a liturgia do poder. D. Pedro I, já em 1825, enviara retratos seus para os palácios dos governadores das províncias, que seriam recebidos e aclamados. Pela aclamação, diante dos retratos, as províncias reconheciam e se submetiam ao poder imperial. Três anos após, a Lei de 27 de agosto de 1828, que regia os Conselhos Gerais de Província, determinava a colocação do retrato do Imperador, na parede da sala das sessões dos conselhos, em lugar elevado, sob um dossel. O retrato permaneceria coberto por cortinas, só desvelado nos dias solenes de abertura e encerramento do Conselho. Repetir-se-ia nas províncias a liturgia de abertura e fechamento dos trabalhos legislativos do Senado, na corte do Rio de Janeiro, quando o Imperador abria as sessões com um pronunciamento, conhecido como a “fala do trono”.
Ao longo do século XIX, as Câmaras Municipais também colocaram em suas salas de sessões o retrato do Imperador sob um dossel. Nas datas festivas, principalmente no aniversário de D. Pedro II, realizava-se um cortejo para reverenciar-se o retrato do monarca, passando cada convidado, seguindo a ordem de dignidade, diante do retrato, prestando-lhe homenagens. Muitos dos retratos de D. Pedro II presentes nos museus ou institutos históricos brasileiros originaram-se das Câmaras Municipais. No Museu Mariano Procópio encontramos, por exemplo, um pequeno estudo realizado por Décio Villares para um retrato de d. Pedro II, ao que parece, destinado ao novo Paço Municipal do Rio de Janeiro, inaugurado em 1882.

A Câmara Municipal de Juiz de Fora, instalada em 1853, iria igualmente ocupar um novo prédio, mandado erigir para abrigar o Legislativo e o Fórum. Para sua inauguração, em 1878, com a presença de D. Pedro II, o Terceiro Barão de Itapagipe (1838-1911) doou à Câmara um retrato a óleo do Imperador, em tamanho natural, para ser colocado na sala das sessões no novo palácio da câmara e da justiça, ao lado de um trono. Ali, o retrato, de autoria desconhecida, permaneceu até a Proclamação da República.
Uma das primeiras providências do novo regime foi a supressão dos símbolos monárquicos dos órgãos públicos, incluindo as Câmaras Municipais. Assim, assistiu-se à retirada dos retratos de D. Pedro II, expurgados para os porões ou vandalizados, a exemplo do retrato realizado por Rocha Fragoso, alvejado por um tiro de revólver em Belém do Pará, hoje pertencente ao Museu Mariano Procópio.
Retirado da sala das sessões, o quadro da Câmara Municipal de Juiz de Fora permaneceu em um corredor. Em 1893, a Câmara compraria a tela de Pedro Américo, Tiradentes supliciado, expondo-a em sua sala das sessões. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Trocam-se o regime, alteram-se os símbolos.
Entretanto, o início do novo regime não foi caracterizado pela passividade. Ao menos durante os dois primeiros governos militares, de Deodoro da Fonseca (1889-1901) e Floriano Peixoto (1891-1894), o clima era de instabilidade, temendo-se a restauração monárquica. A morte no exílio do Imperador deposto, em 5 de dezembro de 1891, originou tentativas de recolocação dos retratos do Imperador nas salas de sessões das Câmaras Municipais, a exemplo das Câmaras de São José de Além Paraíba e de Ouro Preto. Fato que provocou a intervenção do governo da província e acalorado debate sobre a autonomia municipal.
Compreendida a importância simbólica do retrato do Imperador, voltamos nosso foco para a conjuntura que resultou na elaboração do quadro de Carlos Bastos. Em dezembro de 1905, enquanto o quadro era solenemente entronizado na Câmara Municipal de Juiz de Fora, criava-se no Rio de Janeiro a “Associação de Reverência à Memória de D. Pedro II”, objetivando o apoio popular à construção da memória do monarca.
Era necessário tornar presente a imagem do antigo Imperador, privilegiando-se estátuas que o representassem em praça pública. Assim, a mencionada associação apoiou a ereção das esculturas de D. Pedro II nas cidades de Petrópolis, inaugurada em 1911, e de Fortaleza, concluída em 1913. Ambas já ensejavam subscrição aberta ao público em 1905. Entretanto, se nos lembrarmos ter Carlos Bastos realizado o desenho original para o quadro em 1903, anteriormente aos projetos dos referidos monumentos, poderemos cogitar ser o quadro uma das primeiras obras propostas no sentido da construção da memória de D. Pedro II no pós-Proclamação da República. A presença dessas imagens era estratégica para fomentar o debate em torno do fim do banimento da família imperial e da repatriação dos restos mortais de d. Pedro de Alcântara e d. Teresa Cristina.
Porém, talvez esta não seja a única explicação plausível para colocar-se o retrato do Imperador deposto na Câmara Municipal de Juiz de Fora. No dia 2 de dezembro de 1905, quando o quadro de Carlos Bastos adentrou a Câmara Municipal, em comemoração aos 80 anos de nascimento de D. Pedro II, a capa da revista O Malho, publicada na capital federal, estampava uma charge assinada por João José Vaz. Nela se vê, ao centro, um retrato em busto de D. Pedro II, em dourada moldura oval, sustentado por um cavalete, ladeado, à esquerda, por Afonso Pena e, à direita, por Afonso Celso, o qual aponta para o monarca, representado em trajes civis. Uma cadeira suspensa pelo futuro presidente da República (1906-1910) simboliza a oferta, ao monarquista, do cargo de representante do Estado na seguinte legislatura, como demonstra o diálogo abaixo da charge: “À vista da calorosa recepção que acabas de ter do povo mineiro, não posso deixar de te oferecer esta cadeira de representante do nosso Estado, na próxima legislatura. Aceitas?”. Pergunta a que Afonso Celso responde: “Aceito, contanto que a olímpica figura do grande Imperador morto continue a governar cada vez mais os meus atos…”. A charge expressa a política de conciliação, entre republicanos e monarquistas, adotada em Minas Gerais desde o governo de Cesário Alvim. Afonso Celso, que apontava para o retrato do Imperador, também liderava a anteriormente citada “Associação de Reverência à Memória de D. Pedro II”, criada no mesmo mês.

Sabe-se que Duarte de Abreu, enquanto presidente da Câmara e Agente Executivo de Juiz de Fora, entre 1904 e 1907, aderira à política de conciliação. Fato que poderia ter facilitado a colocação do retrato de D. Pedro II, em tamanho natural, na sala das sessões da Câmara Municipal de Juiz de Fora. A necessidade de se promover uma conciliação e aceitação do quadro, apesar de sua forte simbologia, nos faz indagar sobre o poder que ainda restava aos monarquistas, nesta nova conjuntura. O quadro nos parece estar no cerne de uma disputa entre republicanos e antigos monarquistas locais, camuflada pela política de conciliação.
Ignoramos quando o quadro de Carlos Bastos deixou a Câmara Municipal. A referência mais antiga da tela no Museu Mariano Procópio é uma fotografia da década de 1950, em que Pedro Gastão, bisneto de D. Pedro II, e esposa posam com a então diretora, Geralda Armond, em frente a esse retrato do Imperador, apoiado no chão, durante visita ao museu.

Hoje, o quadro repousa na reserva técnica, com a instigante data, que lhe dá todo o sentido, desprendendo-se lentamente da matéria pictórica.
Para saber mais!
Atas da Câmara Municipal de Juiz de Fora.
Gazeta da Tarde, Rio de Janeiro, 10 de agosto de 1882.
O Pharol, Juiz de Fora.
O Malho, Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1905.
ARGON, Maria de Fátima Moraes. A estátua de D. Pedro II: arte, memória e política. O centenário da primeira estátua de D. Pedro II, inaugurada em Petrópolis, em 5 de fevereiro de 1911. Revista IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro) nº 455 (2012), p. 147-178.
BARBOSA, Luciano Senna Peres. “Viva o povo de Juiz de Fora”. Eleições e estratégias discursivas na Primeira República brasileira. Juiz de Fora, FUNALFA/EdUFJF, 2013.
Catálogo: A peça da semana. Juiz de Fora: Museu Mariano Procópio, 2022.
DREYFUSS, Jenny. D. Pedro II através de sua iconografia. Anais do Museu Histórico Nacional. Rio de Janeiro, vol. IV, 1943.
FAGUNDES, Luciana Pessanha. Nos rastros das batalhas: repensando o Museu Imperial a partir dos debates sobre as memórias de D. Pedro II e seu reinado (1891-1943). Anuário do Museu Imperial, Petrópolis: Museu Imperial, v. 3, 2020, p. 159-184.
GENOVEZ, Patrícia Falco. As malhas do poder: uma análise da elite de Juiz de Fora na segunda metade do século XIX. Juiz de Fora: Clio edições eletrônicas, 2002.
JANOTTI, Maria de Lourdes Mônaco. Os subversivos da República. São Paulo: Editora Brasiliense, 1986.
*Maraliz de Castro Vieira Christo é doutora pela Unicamp. Foi bolsista da Foundation Getty junto ao Institut National d’Histoire de l’Art de Paris (2003-2004). Recebeu o Grande Prêmio Capes de Tese em 2006. Fez estágio pós-doutoral na Universitat Jaume I de Castelló, Espanha, na Escuela Nacional de Antropología e História-INAH, México, e na EBA-UFRJ. É professora titular de História da Arte do Programa de Pós-graduação em História da UFJF, pesquisadora do CNPq, da Fapemig e membro do CBHA.

