Créditos: Freepik
25-02-2026 às 17h05
Daniela Rodrigues Machado Vilela*
Todo ser humano pode ter, contundentemente, uma única certeza, a da morte, ou seja, da finitude, pois um dia se nasce e um dia se morre. Neste interregno de tempo entre nascimento e morte, vive-se, sobrevivendo-se às intempéries, aos acontecimentos sempre, em alguma medida, pontiagudos, imperfeitos. A jornada finita de todos é inexorável.
A vida se perfaz imperfeita, com as experiências sensoriais do físico, limitações, instintos e estímulos do corpo, vigor intelectual, derrotas e vitórias cotidianas. Tudo é dual, do nascimento à morte, todos os acontecimentos são cheios de arestas. Não há operação sem restos. É sempre tempo de se reorganizar até o suspiro final.
O mundo não é voltado para a satisfação de desejos. Não há espaço para se amargurar tanto com erros ou dissonâncias de expectativas. Há um caminho de aprendizados para se alcançar. Ademais, possuir inteligência emocional reside em compreender e assimilar que é componente da vida visitar o mundo do outro, suas escolhas e trajetórias, porém não se deve pretender consertar, ingerir sobre este. Cada um é fruto das próprias escolhas, do acaso, do meio e da sorte resultante da sua vida na terra. É sempre tempo de aprender com os exemplos do que deve ser replicado e o que se evitar.
Uma das coisas que as perdas ensinam é que a experiência do diálogo e da observação são vitais. Nada é concluso, só a morte coloca ponto final.
Às vezes, não agimos desta ou daquela maneira desejada ou desejável, mas tudo bem. Não se deve idealizar demais, não havendo maldade deliberada, sempre é tempo de aprender a se perdoar.
Não se deve julgar a vida apenas pelo seu percurso final, doença, proximidade da morte, mas pela trajetória total, por todo um passado de recordações, levando em conta os momentos bons, os encontros. Afinal, os desencontros e quebras de expectativas também fazem parte. É preciso valorizar o que se conseguiu realizar, o que foi positivo. Só assim o luto fica mais leve e conseguimos seguir adiante.
É necessário florescer de alguma forma quando quem se ama parte. A morte de entes queridos não pode virar um cavalo de batalha, por mais que doa perdê-los, juntar os cacos e se reconstruir é vital. Como se constata na Bíblia na passagem de Eclesiastes: tudo tem seu tempo, os ciclos da vida vêm e vão. Nada é perene, há movimento e contínua mudança até o suspiro final de cada um.
Todos erram: pais, filhos, netos e amigos. É preciso ter humildade e entender que errar, aprender, se alegrar e sofrer fazem parte da caminhada de cada ser humano. Às vezes, escolhe-se as prioridades erradas, mas o indivíduo não detém bola de cristal. Analisar os fatos após já ocorridos permite um olhar mais abrangente, mas não é possível retroceder e refazer os caminhos. É possível, porém, aprender para construir melhor dali para frente. Toda escolha envolve perdas e ganhos. É imperioso digerir as quebras de expectativas.
Para além, aos poucos, o homem se reinventa, lapidando suas arestas, entendendo que o mundo não é só teórico, não está só na cabeça ou no plano da idealização. É preciso intuir e agir e não apenas teorizar.
Sujeitos emanam frequências, estão em sintomia e dessintonia com pessoas e lugares. Valorizar as vivências, o sensorial, a frequência energética do ser é fator importante. Ninguém se torna sábio sem observar e apreender. Lidar com as próprias sombras e as alheias é gesto de sabedoria.
Sábio é quem presta atenção aos erros e acertos alheios e aprende o que tomar para si e o que evitar.
O “eu” de cada um, não existe em sua plenitude, somos todos um agregado de atributos de construção permanente. A Daniela não o “é” ou “será” em definitivo, ela se constrói e desconstrói todo o tempo, ela vive, sente, sofre e se alegra. Daniela é fluida, é ser em construção permanente, um “sendo”, diletante, eterna aprendiz. Com seu tempo de amadurecimento e história que lhes são próprios.
De modo que, a função maior da vida é o aprendizado, não podemos nos furtar a aprender pois, nada fecha completamente, é preciso elaborar as perdas, reorganizar os sentimentos. Afinal, aquela pessoa querida passará a existir dentro de quem a amou e este é o preço de amar alguém, retomar a convivência na lembrança e seguir adiante. Entendendo que viver é a arte de lidar também com vários lutos ao longo da vida.
O legado da morte é que ela transforma os atentos. Ela limita um trajeto existencial, separa, rompe vínculos, não há mais o corpo físico, a presença material daquela pessoa, nem o olhar, a voz, tampouco, o abraço, tudo passa a ser simbólico, restam lembranças. Reelaborar a perda, trabalhar com as memórias é vital, pois a dor da perda de quem se amou passará a fazer parte da vida daqueles que saudades sentem.
A morte dá dimensão da própria finitude, lutar contra este fatalismo é perda de tempo. Pessoas inteligentes se reconstroem todo o tempo, portanto, experienciam muitas “mortes” em vida. A “morte” de partes do “eu” é inerente ao ato de viver.
Após o luto, vem a esperança tímida diante do devir histórico, o tempo que a tudo cura de algum modo. Usar as palavras para promover ações transformadoras é urgente. Ultrapassar o meramente formal, ter coragem diante da dor e entender que na vida estamos sujeitos a muitas coisas das quais não temos controle algum, sendo a maior delas, a morte.
Enfim, a vida é mesmo absurda. De repente quem se estima vai para debaixo da terra enfiado numa caixa de madeira e ainda há “os intestinos do sepultamento”, que são toda a burocracia envolvida nos procedimentos precedentes, que exigem praticidade ao implicarem em atos de comércio num momento de dilaceração do humano, de saudade, sofrimento e dor. A vida, de fato, não é para amadores.
Afora a morte, que é fato implacável, do qual não se exime, sempre se acha que podia-se ter feito mais, vivido melhor. É preciso, não obstante, resistir, semear o bem, se reinventar, estar sensível às profundezas de si, enxergar-se com carinho “de fora”, “de cima” e “por dentro”. Seguir adiante, caminhando.
Nada tem fechamento perfeito. As tristezas, imperfeições, arestas, quebra de expectativas estão por toda parte e tudo bem, fazem parte da vida.
Enfim, para superar o luto é necessário tirar as expectativas da imaginação, houve e sempre vai haver lacunas. É tempo de aguçar o olhar e observar as experiências vivenciadas de um outro prisma. Nem dor, nem pranto, mas sim, fé, coragem e valorização do legado de experiências boas vivenciadas, saber que esta pessoa amada que faleceu vai morar em você, nas suas recordações. Assim como as versões de si que partiram.
Este texto é uma homenagem a pessoas queridas que partiram. Cada um tem seu tempo na terra, aproveite a estadia, companheiro, pois a viagem é uma questão de tempo! Como diz a canção de Gilberto Gil: “ó tempo rei, ó tempo rei!”
*Pós-doutora, Doutora, Mestra e Especialista em Direito pela UFMG. Professora Universitária. Pesquisadora com ênfase em Direito do Trabalho, Filosofia e Linguagem. Diletante na arte da vida e da pintura.

