Amizade sem filtro e abraços inteiros - créditos www.boasnovas.com.br
04-01-2026 |às 09h19
Gisele Bicalho (*)
Na Coreia do Sul, solidão não é problema; é negócio. Se falta companhia para uma festa, basta abrir o aplicativo: amigo sorridente, acompanhante elegante ou alguém disposto a posar como par romântico. Tudo profissional, com contrato e hora marcada.
No fundo, não importa o continente: em qualquer lugar do mundo as pessoas querem a mesma coisa: não se sentirem sozinhas. Eu usaria um serviço desses? Provavelmente não. Teria dificuldade em fingir costume. A mim bastam os poucos amigos que tenho, próximos ou distantes, mas sempre verdadeiros. E se aparecem, mesmo que 25 anos depois, basta um olhar para que tudo se torne presença.
Marguerite Yourcenar escreveu sobre esse milagre: “Às vezes vive-se anos, continuamente, com amigos; é uma rara oportunidade. Outras vezes, de acordo com suas ocupações ou as nossas, e o lugar onde se encontram ou nos encontramos, vão e vêm, presentes por semanas, ou meses, ou apenas dias. Mas toda amizade é um bem duradouro.
Mesmo depois de 25 anos de ausência, abraçamo-nos da mesma forma. Creio, aliás, que a amizade, como o amor de que ela participa, exige quase tanta arte como um passo de dança bem-sucedido. É preciso muito élan e muito comedimento, muitas trocas de palavras e muitos silêncios. E sobretudo muito respeito.”
Montaigne, filósofo francês do século XVI, dizia que amizade não precisa de explicação. Se lhe perguntavam o porquê de tanto amor, ele respondia: “porque era ele, porque era eu”. Simples, profundo. Ou seja, amizade não é cálculo, conveniência ou troca de favores. É encontro. Na versão coreana, seria mais: “é também porque estava disponível das 14h às 18h”.
Hoje, em tempos de redes sociais e filtros, autenticidade virou artigo raro. Mostramos versões editadas de nós mesmos, como se a vida fosse vitrine. Mas a amizade, quando é de verdade, desmonta essas máscaras. É no olhar do amigo que podemos ser inteiros, sem medo de parecer frágeis ou ridículos. Nada de filtros.
A amizade autêntica nos leva a rir de bobagens, confessar medos, celebrar vitórias pequenas. Não exige performance, apenas presença. Às vezes está em quem senta ao nosso lado no café, em quem liga sem motivo, em quem escuta sem pressa.
Ser amigo é escolher a verdade sobre a aparência, o vínculo sobre a utilidade. É aceitar o outro como ele é e ser aceito do mesmo jeito.
Toda essa prosa me lembra uma antiga prece portuguesa. Recebi pelo WhatsApp, presente da mãe de um amigo. Tem a ver com aquela conhecida lista de metas para o próximo ano, mas é também sobre amizade.
Ela dizia: “Não quero que o próximo ano me traga nada. Só quero que não leve. Que não leve o teto que me protege, o prato que me alimenta, a manta que me aquece, o sorriso dos meus amados, a saúde como tesouro, a amizade, a companhia, os abraços e os beijos. Que não leve os sonhos, nem os pedaços dos corações que carrego dentro de mim”.
Que assim seja. Que 2026 seja tempo de permanência e encontros memoráveis. De antigos e novos amigos, de vínculos fortalecidos. Tempo de vinhos ao entardecer, almoços que se prolongam em tardes preguiçosas de domingo. Que haja saúde, paz, justiça e muita fé, que é para nos manter de pé.
E se Montaigne nos ensinou que a amizade verdadeira não precisa de explicação, talvez o novo ano nos lembre que ela também não precisa de contrato. Que os encontros sejam espontâneos, os abraços inteiros e as conversas sem hora marcada.
Porque, no fim, o que permanece não são as fotos ensaiadas, mas os sorrisos que nascem sem aviso. Que seja um ano de vínculos reais, daqueles que nos permitem dizer, com simplicidade e verdade: “porque era ele, porque era eu”.
(*) Gisele Bicalho é jornalista

