
Era viver ou morrer. CRÉDITOS: Freepik
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Rufino Fialho Filho*
02-04-2025 às 09h24
Ele olhou nos olhos do sargento e voltou-se de novo
para sua estrela. Ali, através da janela da cela, dava para
ver aquela estrela, a mais distante. O sargento já atravessava
o pátio quando ouviu de novo o grito.
- Canalha!
Porto Alegre, 1968.
Dentro da cela, no quartel da Polícia do Exército, em Porto Alegre, capital do Estado mais setentrional do Brasil, o Rio Grande do Sul, o soldado Antônio Mateus Costa, recruta, de 18 anos, vivia uma situação complexa, muito complicada. Complicadíssima. Desconfortável para um jovem do interior gaúcho.
Desde que se engajara no Exército brasileiro acreditara que os heróis vestiam farda. Depois de seis meses e em menos de um minuto, já duvidava. Por uma falta disciplinar questionável, definida pelo comando do quartel como grave, preso, ele responderia a um IPM, Inquérito Policial Militar.
Preso na cela central, de onde chegava-se a duas outras celas internas, pequenos cubículos individuais – as celas de castigo. Estas eram separadas da cela central por um pequeno corredor e por uma grade intermediária.
Mais do que já condenado àquela prisão, paralela ao inquérito, Mateus teria que decidir se colaboraria com o governo militar no interrogatório de um preso político ou a tentativa frustrada de suicídio teria desfecho – que seria o suicídio mesmo.
Isto foi dito para Mateus com todas as letras.
A falta disciplinar grave: na ronda de vigilância do quartel, um homem aproximara-se em atitude suspeita, o soldado deu ordem para que parasse. O homem não parou e correu em sua direção ameaçadoramente. Tudo indicava que seria uma invasão do quartel. Seria sua hora de testar os treinamentos para conter um invasor. Fez todos os procedimentos, gritos, alertas e ao apontar a baioneta para aquele homem a menos de dez metros e acionar a arma, o homem se identificou dizendo que se tratava do general chefe da Polícia Federal. Mateus ordenou que o “general” encostasse no muro do quartel, com as mãos para cima – era este o procedimento até que se obtivesse a identificação do invasor. Vários soldados e oficiais correram para o local ode estavam o soldado e o invasor.
O invasor, em trajes civis, gritava que era um general. Quando viu a aproximação dos militares, o general se lançou sobre o soldado, que estava assustado e o distraiu. Tentava tomar a arma de Mateus. Na luta corporal, Mateus, muito mais forte, imobilizou o general.
O general durante a luta com o soldado gritava o tempo todo que era o general Azambuja.
O soldado ignorou a gritaria e só parou depois que o general, bastante machucado e ensanguentado, não mais podia se mexer.
Mesmo surpreso ao se confirmar que se tratava de fato de um general, o soldado o manteve dominado. Para o general aquela “humilhação” era imperdoável.
Vítima de uma cilada ou de uma farsa, Mateus não teve dúvidas, voltou a pistola 45 contra a boca e disparou.
Aí a tragédia, arma não funcionou.
Cometera outra falta grave: tentativa de suicídio.
O COLABORADOR
Qual seria a missão do soldado Mateus como colaborador? Preso naquela cela central do Quartel da Polícia do Exército, em Porto Alegre, ele teria que tornar-se amigo de um prisioneiro político que chegaria ao quartel vindo de uma unidade do exército de Santa Maria.
O prisioneiro fora capturado na fronteira, no Chuí, cidade dividida entre o Brasil e Uruguai. Tratava-se de um terrorista, militante político, suspeito de articulações com a guerrilha comandada por Ernesto Che Guevara, no Sul da América.
Naquele momento, Che Guevara ainda não fora localizado em nenhum dos focos guerrilheiros existentes. Este terrorista brasileiro poderia estar de posse de informações valiosas sobre os movimentos guerrilheiros e, principalmente, de dados para a localização de Che Guevara. (Ele era um terrorista e os outros eram guerrilheiros). Outra informação que deveriam extrair dele seria sobre a infiltração de espiões dentro do Exército em São Paulo.
As guerrilhas multiplicavam-se na Argentina, Uruguai, Chile, Peru, Equador, Bolívia, Colômbia e Venezuela. Outros oficiais do Exército brasileiro viriam de São Paulo para colaborar com os militares gaúchos e com a Polícia Federal nos interrogatórios.
Era um preso considerado importante para a elucidação de alguns episódios, dentre eles o destino de Che Guevara, com quem o prisioneiro estivera, em Montevidéu, no Uruguai.
O Quartel da Polícia do Exército ficava em uma área acidentada de Porto Alegre. Hoje, você não o encontra mais, o histórico quartel foi demolido. Era uma construção do século XVIII. Pelo forro de madeira aconteceram várias fugas; uma delas, a do coronel Dault, ainda investigada, naquela ocasião, em 1968.
No primeiro momento, o soldado Mateus se recusara a colaborar. Crise de consciência. Teria que trair um homem. Ele sequer conhecia este homem. Aos seus companheiros de escola, Mateus garantira que, naquela luta política interna, jamais teria qualquer participação, pois a considerava uma luta fratricida. Situação difícil. Tinha consciência e sabia, exatamente, do que aqueles homens, até então seus companheiros de farda, seriam capazes – poderiam matá-lo e simular o suicídio já anunciado.
Ninguém imaginaria que ele seria capturado pela história e que teria um papel torpe a desempenhar, de traidor de um homem, de delator, de colaborador com torturadores ou, como lhe disseram, tornar-se-ia “um futuro agente” dos militares brasileiros na luta contra o terror ou melhor, transformar-se-ia em um espião, um 007, um James Bond. Ou colaboraria naquele interrogatório e poderia ser aproveitado em outras ações da repressão ou morreria. Ele sabia que o jogo era duro.
Era viver ou morrer.
Depois que discutira e prendera o general, um homem pequeno e de voz grossa, sentiu-se violentado pela sua ignorância. Entrou em pânico. Se matar seria sua única opção. Uma decisão que já abortara. Não faria isso. Lembrava-se da tentativa de suicídio durante a prisão do invasor e considerava que o seu gesto de desespero fora a sua maior estupidez. Quanto à imobilização e prisão do invasor tinha certeza de que cumprira rigorosamente as instruções obtidas durante os treinamentos militares para o serviço e vigilância
A humilhação da sua prisão fora grande demais. Maior seria agora a traição a uma pessoa que ele não conhecia, mas que sabia ser um preso político. Jamais conseguiria olhar na cara dos seus pais ou beijá-los. Nenhum dos seus amigos o reconheceria mais. Ele não era mais o mesmo homem. Sentia-se um pulha, humilhado, ofendido, antes mesmo de se tornar um dedo-duro e, ali, mesmo, no quartel, não seria o mesmo homem diante dos seus colegas de farda. Qualquer um poderia, a partir de agora, mijar na sua cara, mijar dentro da sua boca.
(Não quero viver esta situação, minha única possibilidade é a fuga e ela é quase impossível, a não ser a fuga para fora da vida – fala do Mateus para um soldado que levava a comida, arroz, feijão, bife em um prato de alumínio e uma colher. Não permitiam o uso de garfo e faca na cela).
Como ele não entendera o jogo daquele general, useiro e vezeiro em dar incertas em quartéis de Porto Alegre? O general chegava sempre de surpresa. Ele já conhecia a história. No plantão, naquele domingo chuvoso, depois da violenta discussão em que prendera o general, submetendo-o a uma humilhante posição de cara pregada no chão, pensara, realmente, em que não havia mais nenhuma saída para ele que não a morte.
A cena era esta: o general deitado no chão, todo cagado, sujo, fedendo com a baioneta do fuzil pregada em seu ouvido e pedindo pelo amor de Deus para não morrer.
Na sequência, imobilizado e preso, Mateus fora submetido à humilhação de ter que ouvir, por duas horas, os gritos do general, que tirou o cacete, balançou-o e urinou em sua cara.
O mijo quente correra pelos seus olhos e entrou na sua boca. A urina parecia ferver em seu rosto e ele sentiu como se os seus olhos fossem pular sobre todos aqueles que caminhavam, batendo com as botas sobre o piso de madeira, num barulho infernal. Sons de muitos tambores desafinados, sons que, mais tarde, fariam seu rosto ferver de novo.
Em meio a sensações de agressividade e ódio, o medo, o medo terrível, a impotência, a fragilidade, o medo, o medo. O medo até de respirar.
Ao recruta sobrou a oportunidade de pegar uma pistola automática calibre 45, colocá-la na boca e disparar diante de um general sem cor, fedendo merda, de um coronel bigodudo e sonolento e de mais uns cinco militares com as mãos na cabeça desesperados. Ele disparou quatro vezes. A pistola estava descarregada.
- Ele suicidou – gritou o major Idelfonso
- Precisamos de um suicida, disse o general.
Repetiu.
- Precisamos de um suicida e este filho da puta chegou na hora certa.
Era 1968 – Quando na América Latina caçavam Che Guevara
(*) Rufino Fialho Filho é jornalista