Lavoura de café. Créditos: Agronelli
26-10-2026 às 17h53
Juliana Bonassa*
A cercosporiose, também conhecida como mancha-de-olho-pardo, pode comprometer o desenvolvimento de mudas do cafeeiro, provocando desfolha, atraso no crescimento e perda de vigor das plantas. Segundo estudos realizados por pesquisadores da Universidade Federal de Lavras (UFLA) e da Epamig o fornecimento de silício pode contribuir para aumentar a resistência do cafeeiro à doença, inclusive por meio de alterações na própria estrutura das folhas.
A pesquisa avaliou mudas bem nutridas das variedades Catuaí Vermelho IAC 99, Mundo Novo IAC 379/19 e Icatu IAC 2942, com e sem aplicação de silicato de cálcio no substrato. No Catuaí, as plantas tratadas apresentaram 63,2% menos folhas lesionadas e 43% menos lesões por planta em comparação às plantas que não receberam silicato. Para evitar a influência do nutriente cálcio no resultado final, o elemento foi fornecido via carbonato de cálcio, mantendo-se o mesmo teor em todas as plantas. Assim, foi possível comprovar que o efeito observado foi decorrente somente do silício.
Segundo a engenheira agrônoma e doutora em Ciência do Solo e Nutrição de Plantas, Adélia Aziz Alexandre Pozza, uma das autoras do trabalho, os resultados ajudaram a mostrar que o efeito do silício não está relacionado apenas à nutrição da planta, mas também a mudanças na morfologia das folhas.
“Nas plantas tratadas, observamos uma camada de cera mais desenvolvida na parte inferior das folhas. Essa estrutura pode funcionar como uma barreira adicional, dificultando algumas das etapas necessárias para o progresso da doença”, explica.
A microscopia eletrônica mostrou que essa camada de cera era mais espessa nas plantas que receberam silício, especialmente na variedade Catuaí. Em algumas amostras, a cera chegou a cobrir parcialmente os estômatos, enquanto nas plantas não tratadas essas estruturas estavam mais expostas.
Os pesquisadores apontam que essa mudança pode tornar a superfície da folha mais hidrofóbica, reduzindo a formação do filme de água necessário para processos como germinação e penetração do fungo. O trabalho também identificou maior presença e distribuição mais uniforme de silício na face inferior das folhas tratadas.
Nutrição também faz parte do manejo da sanidade
Para o especialista em Fertilidade do Solo e Nutrição de Plantas e gerente de Pesquisa e Desenvolvimento de Mercado da Agronelli Soluções, Maurício Komori, o estudo ajuda a ampliar a visão sobre o papel da nutrição no manejo do cafeeiro.
“Quando falamos em sanidade, é comum pensar primeiro no controle direto da doença. Mas a condição nutricional da planta também interfere na forma como ela responde aos estresses. O silício pode contribuir para o fortalecimento dos tecidos e para a formação de barreiras físicas que ajudam a planta a enfrentar melhor determinados desafios”, afirma.
No estudo, a resposta ao silício variou entre as três variedades. O Catuaí apresentou o efeito mais evidente, enquanto o Icatu, considerado mais resistente à cercosporiose, teve resposta menor à aplicação. Segundo os autores, isso indica que a reação ao silício também pode depender das características genéticas de cada material.
Komori ressalta que esse tipo de resultado não significa que o silício substitua as demais práticas de manejo da doença. O silício deve ser visto como parte de uma estratégia integrada. O manejo continua envolvendo escolha da variedade, equilíbrio nutricional, condições adequadas de cultivo, acompanhamento fitossanitário e aplicação de defensivos agrícolas. O diferencial do silício está em contribuir para o fortalecimento dos mecanismos naturais de defesa da planta, favorecendo maior tolerância aos estresses bióticos e abióticos. O benefício, portanto, está em oferecer à planta melhores condições para responder aos desafios do ambiente e expressar seu potencial produtivo de forma mais consistente”, explica.
Para Adélia, a pesquisa contribuiu justamente para mostrar como o silício pode atuar além da correção da acidez do solo ou da nutrição das plantas. “A formação de uma camada de cera mais desenvolvida e a maior presença de silício na superfície das folhas ajudam a explicar por que algumas plantas apresentaram menor intensidade da doença. É uma resposta estrutural da própria planta”, conclui.
Sobre o estudo
O trabalho “Efeito do Silício no Controle da Cercosporiose em Três Variedades de Cafeeiro” foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Lavras, da Epamig e instituições parceiras. Foram avaliadas mudas de Catuaí, Mundo Novo e Icatu, com e sem aplicação de silicato de cálcio. Além da ocorrência da doença, os pesquisadores analisaram as folhas por microscopia eletrônica de varredura e microanálise de raios X para investigar os mecanismos envolvidos na resposta ao silício.
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