Créditos: Divulgação Usina_reciclagem
26-10-2026 às 10h07
Liliane Scaratti*
Você já se perguntou para onde vão os tijolos quebrados, os restos de concreto, a madeira e os outros materiais que sobram de uma construção, reforma ou demolição? O que parece apenas entulho representa um desafio ambiental de grandes proporções no Brasil.
O país gera mais de 100 milhões de toneladas de resíduos de construção e demolição por ano, segundo o último relatório do Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema). O número considera desde pequenas reformas até resíduos gerados por construtoras, demolidoras e obras públicas registrados no ano anterior à sua publicação.
Mas para onde vai todo esse material? Quando descartados irregularmente em terrenos baldios, ruas ou áreas de preservação, restos de concreto, tijolos e outros resíduos podem transformar o fim de uma obra em um problema passível de multas que podem chegar a R$ 50 milhões e, em determinadas situações, até reclusão.
No Brasil, a Resolução nº 307 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) estabelece regras claras para a gestão dos resíduos da construção civil e responsabiliza os geradores por sua destinação. As penalidades, previstas na legislação ambiental, dependem da gravidade da infração e das circunstâncias do descarte. A norma também diferencia os materiais que podem ser reutilizados ou reciclados daqueles que exigem tratamento e destinação específicos.
O que muita gente desconhece é que praticamente todo esse entulho pode ganhar uma nova finalidade, em vez de terminar em aterros ou terrenos baldios. O engenheiro ambiental Aurélio Fernandes Sales de Castro, gerente de QSMS do IDEAL Grupo, conhece esse potencial na prática.
Foi a partir de um projeto acadêmico desenvolvido por ele que nasceu a usina de reciclagem da empresa, que começou a receber resíduos em 2016, no Litoral Norte de São Paulo. Segundo o profissional, praticamente todo o material recebido pela unidade é reaproveitado. São 2.962 toneladas por mês na unidade da região.
A iniciativa surgiu em meio à expansão de grandes obras na região, como a implantação da Unidade de Tratamento de Gás de Caraguatatuba e a duplicação da Rodovia dos Tamoios. Na época, a falta de uma estrutura local para processar os resíduos obrigava o transporte de parte do material até cidades vizinhas.
“Não existia nenhuma unidade de reciclagem aqui no Litoral Norte”, recorda Aurélio. “A ideia começou com o TCC, depois foi apresentada à direção do Ideal Grupo e deu origem ao projeto da usina, que passou pelas etapas de licenciamento ambiental antes de iniciar as operações”, completa.
Mas, então, quando o entulho segue para a reciclagem, o que acontece com ele? Como restos de uma obra podem se transformar em materiais utilizados em novas construções?
No IDEAL Grupo, o entulho não é simplesmente despejado em uma pilha. Segundo Aurélio, lá a carga já chega acompanhada do Manifesto de Transporte de Resíduos (MTR). O caminhão é pesado e uma câmera permite verificar previamente o material transportado. Se houver resíduos incompatíveis com a licença da operação, como material contaminado, gesso em quantidade relevante ou lixo urbano misturado, a carga é recusada.
A conferência tem uma razão prática: a partir do momento em que o material é aceito, a unidade passa a responder por sua destinação. A empresa registra no sistema a quantidade efetivamente pesada e, ao fim do processo, o gerador pode comprovar a destinação por meio da documentação correspondente.
A regra brasileira ajuda a entender por que nem todo “entulho” pode ser tratado da mesma maneira. A Resolução Conama 307 classifica como Classe A materiais reutilizáveis ou recicláveis como agregados, entre eles concreto, tijolos, blocos, argamassa e solos de terraplanagem. Plásticos, papel, metais, vidros, madeira e gesso integram a Classe B, destinada a outras formas de reciclagem. Já resíduos perigosos, como tintas, solventes, óleos e materiais contendo amianto, integram a Classe D e exigem tratamento específico.
Na unidade paulista, a licença delimita o que pode entrar. Aurélio afirma que a operação não recebe resíduos perigosos, amianto ou cargas incompatíveis com o processo realizado no local.
Um bloco quebrado pode voltar como brita
Depois da recepção, começa a transformação mais visível. Restos de alvenaria, concreto e pavimentação passam por britagem e peneiramento. O material é separado conforme o tamanho dos fragmentos e pode resultar em agregados reciclados, como brita e rachão, destinados a aplicações compatíveis com esse tipo de produto.
Isso significa que parte do material retirado de uma construção pode voltar à cadeia produtiva em outra forma. Um bloco de concreto quebrado, por exemplo, pode ser triturado e transformado em brita reciclada. No IDEAL Grupo, esse agregado é comercializado, segundo a empresa, por aproximadamente 30% do preço do material mineral equivalente.
O preço menor, entretanto, não significa que o agregado reciclado possa substituir indiscriminadamente a matéria-prima convencional. Aurélio ressalta que há limitações técnicas para o uso e que os materiais produzidos pela unidade não são destinados a aplicações estruturais. “Pátios, aterros e divisórias podem utilizar o produto reciclado, conforme as características e exigências de cada utilização”, diz Aurélio.
Madeira e poda seguem outro caminho
Nem tudo o que chega à usina vira brita. Madeira e resíduos de poda, que hoje representam o maior volume recebido pela operação, segundo Rodrigo Correa dos Santos, coordenador de SGI do IDEAL Grupo, seguem outro processo.
Embora possam terminar em produtos semelhantes, poda de árvores e madeira proveniente da construção chegam à unidade em condições diferentes. A poda normalmente entra verde e com alta umidade. Por isso, não segue imediatamente para trituração: segundo Aurélio, o material permanece no pátio por aproximadamente dois ou três meses para secar e perder volume. Se processado ainda muito úmido, pode formar um tipo de “massa” e prejudicar o funcionamento dos equipamentos.
Depois, o material passa por equipamentos e por uma etapa de triagem. A fração orgânica misturada à terra pode resultar em terra vegetal utilizada em jardins e gramados. A madeira, por sua vez, é triturada e pode virar cavaco e pó de serra comercializados para empresas que utilizam biomassa em processos térmicos. Toras maiores seguem para processamento externo especializado.
A madeira também precisa atender às condições de recebimento. Materiais contaminados por óleo ou outras substâncias não entram no mesmo fluxo de reaproveitamento. A distinção é importante porque nem tudo o que visualmente parece madeira pode ser automaticamente transformado em biomassa.
“Esse é um problema que começa antes de o caminhão chegar à unidade: a mistura inadequada dos resíduos. Embora a operação seja destinada a materiais específicos, a equipe encontra objetos que não deveriam estar no meio das cargas. Sacolas, vidros e metais são retirados manualmente em uma esteira”, diz Rodrigo.
Vidro e metal podem ser separados para reaproveitamento. Já parte dos plásticos encontrados não encontra destino de reciclagem nas condições em que chega. Segundo Aurélio, a cada dez a 15 dias, aproximadamente uma carreta de 32 metros cúbicos é preenchida com sacolas e outros rejeitos plásticos retirados do material recebido e encaminhada a aterro sanitário.
“Quando os resíduos são separados corretamente desde a origem, aumentam as possibilidades de reaproveitamento. Uma sacola plástica, por exemplo, poderia ser encaminhada à reciclagem, mas, quando chega misturada ao entulho, exposta à chuva, à terra e a outros materiais, pode perder essa possibilidade. O resultado é mais trabalho na triagem, maior custo de destinação e mais resíduos enviados aos aterros sanitários. Ou seja, um material que poderia voltar à cadeia produtiva acaba se tornando um rejeito, ampliando o impacto ambiental”, explica Aurélio, engenheiro ambiental do Ideal Grupo.
Terra de escavação: de resíduo a material para aterros
A terra retirada durante a abertura de fundações, valas e outras escavações também pode ser reaproveitada. Quando apresenta condições adequadas, esse material pode ser utilizado em aterros, ou seja, para preencher desníveis, elevar a altura de terrenos e preparar áreas para novas obras. Diferentemente dos restos de concreto e tijolos, que precisam passar pela britagem para se transformar em agregados reciclados, a terra pode seguir diretamente para essas aplicações, sem precisar ser triturada.
O reaproveitamento, porém, depende das características do solo, da ausência de contaminação e das exigências técnicas de cada obra. Isso evita que um material ainda útil seja tratado como rejeito e reduz a necessidade de retirar terra de outros locais.
Usina de reciclagem não é lixão
Aurélio comenta que o acúmulo temporário de grandes volumes de material cria ainda outro desafio: a percepção de que uma usina de reciclagem seria apenas um nome diferente para um lixão.
A diferença está justamente no destino e no controle do material. Em um lixão, resíduos são depositados a céu aberto sem estrutura adequada de tratamento. Em uma unidade de reciclagem, os materiais recebidos são delimitados pela licença ambiental, registrados, separados e processados para reaproveitamento ou encaminhamento adequado da parcela que não pode ser recuperada.
No caso da operação do IDEAL Grupo, o projeto passou por licenciamento ambiental antes de começar a funcionar. Aurélio relata que o processo começou com os estudos e a licença prévia, avançou para instalação e, posteriormente, operação. A licença atual, segundo o engenheiro, foi renovada até 2030.
Outra diferença está no controle sobre aquilo que entra, permanece e deixa a área. “Além dos registros associados às cargas recebidas, a operação realiza um inventário anual dos resíduos, no qual precisa demonstrar quanto material entrou, quanto saiu e quanto permanece armazenado no pátio”, explica.
Esse acompanhamento permite rastrear o fluxo dos materiais e reforça uma distinção essencial: o pátio não funciona apenas como local de descarte. Parte do volume pode permanecer temporariamente armazenada porque está aguardando secagem, triagem, processamento ou encaminhamento para outra destinação.
O engenheiro do IDEAL Grupo explica que até a presença de determinados animais pode ajudar a identificar diferenças entre os ambientes. Em locais com acúmulo de lixo orgânico exposto, por exemplo, é comum a concentração de urubus, atraídos pela disponibilidade de alimento. De acordo com ele, essa concentração não é observada na usina, que não recebe lixo doméstico.
Para esclarecer essas diferenças, a empresa também passou a desenvolver atividades com crianças e moradores da região. As ações incluem visitas à usina e oficinas de artesanato com reaproveitamento de madeira, permitindo que a comunidade conheça o funcionamento da reciclagem e acompanhe o destino dos materiais recebidos.
A operação também exige cuidados com os efeitos da própria atividade. Aurélio cita o controle da poeira levantada pela circulação de caminhões e pelo processamento dos resíduos, com umidificação das vias e dos locais de trabalho quando necessário.
A obra termina, mas a responsabilidade sobre o entulho continua
Mais do que uma questão de infraestrutura, o reaproveitamento dos resíduos da construção civil exige uma mudança cultural. “Durante muito tempo, aquilo que sobrava de uma obra foi tratado como algo sem valor, que precisava apenas ser retirado do terreno. Romper com essa lógica significa reconhecer que o destino do entulho também faz parte da responsabilidade de quem constrói, reforma ou contrata o serviço”, ressalta Aurélio.
Essa conscientização começa antes mesmo de o caminhão deixar a obra, na serapação correta dos materiais e evitando a mistura com lixo doméstico, além da procura de locais autorizados para recebê-los.
O desafio, portanto, vai além da capacidade de transformar entulho em novos materiais. Exige uma mudança na maneira como moradores, trabalhadores, empresas e responsáveis pelas obras compreendem sua responsabilidade ambiental. “Não basta termos tecnologia para reciclar se os resíduos continuam sendo descartados de qualquer maneira. Precisamos entender que aquilo que sobra de uma obra não perde necessariamente seu valor. Quando separamos e destinamos esses materiais corretamente, evitamos desperdícios, reduzimos a necessidade de extrair novos recursos naturais e diminuímos os impactos sobre o meio ambiente. A reciclagem começa muito antes de o resíduo chegar à usina. Começa na consciência de cada um”, conclui Aurélio.
Mais informações: https://idealgrupo.com.br/

