22-10-2026 às 08h10
Samuel Arruda*
A disputa presidencial brasileira entra em uma etapa em que pesquisas de intenção de voto, confrontos diretos entre candidatos e propostas do governo podem ganhar peso na avaliação do eleitorado. A pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (21/10), o debate previsto entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) na TV Globo, na sexta-feira (23), e a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) encaminhada pelo governo ao Congresso formam três pontos importantes para compreender o momento político.
Os números da pesquisa precisam ser analisados não apenas pela posição dos candidatos, mas também pela evolução em relação aos levantamentos anteriores, pela diferença entre intenção de voto e rejeição e pelo contingente de eleitores que ainda não decidiu seu voto.
O debate televisivo, por sua vez, oferece aos candidatos a oportunidade de apresentar propostas, responder a questionamentos e confrontar diretamente as críticas do adversário. Já a PEC abre outra frente de avaliação: a forma como a iniciativa será recebida pela população, considerando tanto seus possíveis benefícios quanto seus custos, sua viabilidade e seus efeitos práticos.
A pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira mostra o senador Flávio Bolsonaro com 45% das intenções de voto, contra 44% do presidente Lula. A diferença de um ponto percentual está dentro da margem de erro de dois pontos, caracterizando empate técnico, demonstrando uma disputa apertada além da redução da vantagem de Flávio.
No levantamento anterior, divulgado em 14 de outubro, Flávio tinha 46%, enquanto Lula aparecia com 44%. Os números indicam uma redução de um ponto na intenção de voto do senador, enquanto o presidente manteve o mesmo percentual. A variação, porém, não permite concluir, isoladamente, que exista uma tendência consolidada de crescimento de Lula.
Entre os demais entrevistados, 9% disseram que pretendem votar em branco, anular o voto ou não comparecer às urnas, enquanto 2% não souberam responder.
Na pesquisa espontânea, em que os entrevistados mencionam os candidatos sem receber uma lista de nomes, Lula e Flávio registraram 40% cada. Nesse cenário, 14% permaneceram indecisos, indicando que uma parcela dos eleitores ainda não havia definido espontaneamente sua escolha.
O levantamento ouviu 2.154 eleitores com 16 anos ou mais, presencialmente, entre 17 e 20 de outubro. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o protocolo BR-08535/2026.
Outro indicador relevante é a rejeição: 52% dos entrevistados disseram que não votariam em Flávio Bolsonaro de jeito nenhum, enquanto 47% fizeram a mesma afirmação em relação a Lula.
Embora a rejeição não determine automaticamente o resultado, ela ajuda a compreender os limites de cada candidatura para conquistar novos eleitores.
Em uma disputa apertada, a capacidade de dialogar com quem não está plenamente convencido pode ter importância semelhante à mobilização dos eleitores já identificados com cada candidato.
Os dados também mostram por que é necessário observar o conjunto dos indicadores. A intenção de voto mede a escolha declarada no momento da entrevista; a rejeição identifica resistências; e o número de indecisos ajuda a dimensionar a parcela do eleitorado cuja decisão ainda pode mudar. Nenhum desses indicadores, isoladamente, determina o resultado das urnas.
O último debate presidencial previsto antes do segundo turno está marcado para sexta-feira (23), às 21h20, depois do Jornal Nacional. O encontro será mediado pelo jornalista César Tralli, com transmissão pela TV Globo, GloboNews, g1 e Globoplay, e com certeza, vai influenciar os últimos dias de campanha. A votação está prevista para domingo (25).
O formato prevê três etapas: perguntas relacionadas às cinco regiões brasileiras, escolha de temas a partir de uma lista preparada pela emissora e discussão de assuntos livres pelos candidatos. Ao final, ambos terão espaço para suas considerações finais.
A proximidade entre o debate e a votação torna o encontro especialmente relevante para os eleitores que ainda avaliam as duas candidaturas. Entretanto, o impacto sobre as intenções de voto dependerá do desempenho dos candidatos e da maneira como o público interpretar suas intervenções.
Mais do que a capacidade de formular ataques ao adversário, o debate pode ajudar a esclarecer diferenças concretas entre os projetos apresentados.
Entre os aspectos que merecem atenção estão:
- Economia: quais propostas cada candidato apresenta para renda, emprego, inflação e contas públicas?
- Segurança pública: como pretendem enfrentar a criminalidade e quais medidas propõem para ampliar a proteção da população?
- Saúde e educação: quais compromissos assumem e como pretendem financiá-los?
- Responsabilidade pelas decisões: como cada candidato responde pelos resultados de sua atuação política e pelas promessas feitas durante a campanha?
- Viabilidade das propostas: o que depende de decisão presidencial e o que exige aprovação do Congresso ou participação de estados e municípios?
Esses pontos permitem avaliar não apenas quem se comunica melhor, mas também quem apresenta respostas mais claras e propostas que possam ser examinadas objetivamente.
É importante, contudo, distinguir o desempenho televisivo da capacidade de governar. Um candidato pode se sair bem em um confronto sem que isso, por si só, comprove a viabilidade de suas propostas.
Também existe uma ressalva sobre a realização do encontro: Lula declarou que condicionava sua participação à abertura de sigilos de Flávio Bolsonaro, conforme noticiado nesta quarta-feira. Portanto, a realização do debate nos termos previstos ainda deve ser acompanhada.
Outro elemento é: PEC da tarifa zero prevendo benefício social. Será uma promessa eleitoral? O fato é que esse assunto está no centro da discussão política, e a Proposta de Emenda à Constituição já foi enviada por Lula e prevê transporte público gratuito aos finais de semana e feriados.
A mensagem presidencial foi encaminhada ao Congresso nesta quarta-feira (21), a quatro dias do segundo turno. A iniciativa foi apresentada pelo governo como uma medida para ampliar o acesso ao transporte e proporcionar mais possibilidades de descanso e lazer aos trabalhadores.
A proposta prevê que o financiamento seja feito por meio de recursos relacionados às emendas parlamentares. Segundo estimativa publicada pelo um portal de notícias, e o custo anual da medida seria de aproximadamente R$ 16 bilhões. O texto deverá começar a tramitar no Congresso depois do segundo turno, uma vez que não há sessões previstas nesta semana.
A iniciativa suscita uma questão política importante: o eleitor poderá enxergar a proposta como um benefício concreto para a população ou interpretá-la como uma promessa apresentada às vésperas da eleição?
A resposta não é necessariamente a mesma para todos os grupos sociais.
A gratuidade do transporte aos finais de semana pode ter apelo entre trabalhadores que utilizam ônibus e outros meios de transporte coletivo, especialmente aqueles que comprometem parte significativa da renda com deslocamentos, e isso, pode favorecer o presidente Lula.
Para esse público, a possibilidade de economizar com passagens pode representar um benefício financeiro e ampliar o acesso a atividades de lazer, serviços e compromissos familiares.
A proposta também permite ao presidente associar sua candidatura a medidas de impacto direto sobre o cotidiano da população. Ao relacioná-la à discussão sobre a jornada de trabalho, o governo procura apresentar as duas iniciativas como parte de uma agenda voltada às condições de vida dos trabalhadores.
Entretanto, o alcance desse argumento dependerá da percepção de cada eleitor sobre a importância do benefício, sua abrangência e a possibilidade de implementação.
O principal ponto de questionamento é que o envio da PEC não significa que o transporte gratuito será implantado imediatamente e isso pode provocar desconfiança.
A proposta ainda precisa passar pela tramitação legislativa e obter apoio suficiente no Congresso. Além disso, será necessário esclarecer como o financiamento funcionará, quais serviços serão contemplados e como a medida será aplicada nas diferentes cidades.
O custo estimado também abre espaço para questionamentos sobre prioridades orçamentárias e sobre a utilização de recursos públicos.
A oposição já criticou a iniciativa. Flávio Bolsonaro, por exemplo, questionou a viabilidade da gratuidade e afirmou que o governo estaria prometendo algo que não conseguiria entregar. Essa é a posição do candidato adversário, e não uma comprovação de que a proposta seja inviável.
Há, portanto, duas questões diferentes a serem avaliadas: o possível benefício social da medida e a capacidade de financiá-la e executá-la.
Uma política pode ter mérito em seu objetivo e, ao mesmo tempo, exigir mudanças em seu financiamento ou em sua implementação.
O fato de a PEC ter sido encaminhada quatro dias antes da votação inevitavelmente coloca o calendário político em discussão, fato que pode denotar mais uma desconfiança.
Eleitores favoráveis à iniciativa podem considerar que o governo está apresentando uma proposta de alcance social. Outros podem questionar por que a medida chegou ao Congresso tão perto da eleição e se ela teria condições de avançar caso o presidente não estivesse em campanha.
É importante distinguir o momento do anúncio da análise de seu conteúdo. A proximidade da votação, por si só, não comprova que a proposta tenha sido elaborada exclusivamente com finalidade eleitoral. Por outro lado, é legítimo questionar o calendário, as condições de execução e a relação entre a medida e as prioridades do governo.
Para o eleitor, a questão central é verificar se a proposta tem financiamento sustentável, condições de aprovação e potencial para produzir os benefícios anunciados.
O que os três acontecimentos revelam sobre o cenário eleitoral?
A pesquisa Quaest, o debate previsto na Globo e a PEC da tarifa zero representam dimensões diferentes da disputa.
A pesquisa oferece um retrato das intenções de voto no período em que as entrevistas foram realizadas. O debate poderá proporcionar novas informações, esclarecer divergências e influenciar a percepção dos candidatos. Já a PEC coloca em discussão uma proposta de política pública cujo alcance dependerá da tramitação legislativa e de sua execução.
Os três acontecimentos também mostram que a decisão do eleitor não se resume a escolher entre duas figuras políticas. Ela envolve avaliar propostas, resultados anteriores, prioridades, capacidade de articulação e compromissos assumidos.
O levantamento divulgado nesta quarta-feira registra uma diferença de apenas um ponto percentual entre os candidatos, dentro da margem de erro. Isso exige cautela na interpretação dos números e impede que a pesquisa seja tratada como uma previsão definitiva do resultado.
O debate poderá esclarecer questões relevantes, mas não há garantia de que alterará as intenções de voto. Da mesma forma, a PEC poderá ser recebida como uma iniciativa social ou como uma promessa cuja viabilidade ainda precisa ser demonstrada.
No fim, o desafio para o eleitor é separar o anúncio de uma medida de sua efetiva realização, o desempenho no debate da consistência das propostas e os números das pesquisas do resultado que será definido nas urnas. É essa avaliação conjunta que permite uma escolha mais informada, sem depender exclusivamente das estratégias de campanha ou das oscilações registradas pelos institutos de pesquisa.
*Samuel Arruda é jornalista e editor de política

