O que dizer da arte como investimento no Brasil? - créditos: divulgação
15-10-2026 às 15h21
Giovana Devisate*
Não é qualquer pessoa que compra arte no Brasil. O mercado é elitista e, claro, excludente. Sabemos como funciona: a manutenção é alta, as obras são valiosas e servem, entre muitas coisas, como investimento. Alguns colecionadores compram porque gostam e apreciam, mas outros procuram comprar arte apenas como forma de investir o seu dinheiro. Não vou falar de arte, mas vou falar de investimento: como a Geração Z investe dinheiro?
Recentemente, uma pesquisa da ArtBasel e da UBS Global Wealth Management concluiu que integrantes de alta renda da Geração Z estão investindo muito no mercado de arte, fazendo com que essa geração esteja à frente de todas as outras quando o assunto é compra de obras de arte, que andam de mãos dadas com o mercado financeiro e o mundo dos investimentos. As obras valem muito, objetiva e subjetivamente. O mercado rende bilhões.
A pesquisa citada fala que a elite da Gen Z prefere pinturas e esculturas a outros suportes e linguagens e que 40% dos mais de 3 mil colecionadores de alta renda entrevistados, de mais de dez países, começaram a colecionar obras por influência da família, seja por convivência com um acervo já existente ou por incentivo de pais e avós, que já viam na arte uma grande ferramenta de investimento. Inclusive, quase 90% dos que herdaram obras decidiram mantê-las em seu acervo.
Em 2020, a geração que ocupava esse lugar de maior investimento nas artes era a Millennial: que nasceu aproximadamente entre 1981 e 1996 e que cresceu no contexto da popularização da internet, da globalização e da crise econômica de 2008.
Eles sucedem a Geração X, dos meus pais, que nasceram entre 1965 e 1980: aqueles que cresceram com mulheres entrando no mercado de trabalho e viram o início da possibilidade do divórcio (que no Brasil só foi possível a partir de 1977), crises políticas e regimes ditatoriais.
A Geração Z, os que nasceram entre 1997 e 2012, cresceram com os smartphones, as redes sociais e a polarização política. São hiperconectados, têm consciência social e são duramente realistas. É uma galera que, em 2026, tem entre 14 e 29 anos.
Tenho 28 e, portanto, sou dessa geração. Porém, me identifico mais com os Millennials em relação à algumas coisinhas, talvez porque a diferença de idade entre eu e minha irmã seja muito pequena e, por isso, eu tenha crescido bem próxima de alguém da geração anterior. Também, porque nasci nessa transição entre gerações: na teoria, os Millennials testemunharam a passagem do mundo analógico para o digital e a Gen Z já cresceu cercada por smartphones, redes sociais e internet desde a infância, mas eu vivi algumas trocas importantes, como fita cassete por dvd, disquete por pendrive, cd por ipods ou iphones, até chegar em não usar mais dispositivos externos, apenas nuvens terceirizadas. Ou melhor: espaços que não existem de verdade, mas são alugados por pequenas fortunas a cada mês.
Ainda assim, esses dados sobre uma fatia da Geração Z e o mercado da arte nos fazem fantasiar sobre como toda uma geração investe, gasta e se relaciona com dinheiro. Andrea Chociay diz que as gerações são a soma e os resultados de uma sequência de esforços silenciosos que mudaram o que entendemos como normalidade. As gerações vão ter características em comum, independentemente da classe social, mas claro que dinheiro importa e faz diferença em alguns comportamentos geracionais.
No caso do dinheiro, a Geração Z cresceu em meio a instabilidades, crises financeiras, guerras, polarizações políticas e promessas de fim do mundo. Por isso, somos absurdamente realistas: é difícil sonhar com tanto medo do amanhã.
A minha geração tem medo do endividamento e pavor de se comprometer com gastos muito altos. Estamos altamente conectados e muitos de nós ainda busca conselhos de familiares e pessoas confiáveis, mas muitos também procuram informações nas redes sociais, nas IAs e em aplicativos.
A pesquisa que citei, por exemplo, diz que 80% dos participantes realizam investigações próprias antes de comprar uma obra e 22% dos entrevistados também usam IA e aplicativos para receber orientação sobre o mundo das artes. E, claro: uma geração que quer ver a foto do prato no cardápio antes de pedir o prato no restaurante jamais deixaria de pesquisar sobre o artista no Instagram: 32% citam usar redes sociais como fonte e 56% compraram obras de artistas descobertos recentemente.
Depois que vi a pesquisa publicada no site da revista Exame, comecei a me fazer várias perguntas, procurei a pesquisa original, passei a imaginar sobre essa realidade dos investimentos da Geração Z dentro de outros contextos econômicos.
Os ricos viram os pais investirem e prosperarem, mesmo que tenham tido dificuldades em alguns momentos. Os pobres e a classe média viram os seus pais se endividarem. Deve ser por isso que a elite da Gen Z investe, desde cedo, no mercado das artes e, quem não é tão rico, investe dinheiro de outras formas. Tem gente que não pode investir, mas evita se endividar, porque sabe que isso já é uma forma de quebrar o padrão da família e, de certa forma, prosperar.
Sou Gen Z e, apesar de não ser parte dessa elite que pode investir milhões em obras de arte, observo que os meus amigos gostam de investir desde mais novos e são, na maioria, cautelosos com grandes gastos. A verdade é que a nossa relação com o dinheiro não começa quando ganhamos o primeiro salário. Ela se constrói ao observar os comportamentos das gerações que vieram antes da gente, dos vestígios que ficaram de movimentos anteriores, das crises que engoliram as famílias… A nossa relação com dinheiro, com investimento, seja no mercado das finanças ou das artes, se constrói observando as pessoas ao nosso redor se relacionar com dinheiro.
Isso é geracional e as gerações mostram como se constrói uma cultura. Há quem herde dos pais obras milionárias e o costume de investir em arte e há quem herde dívidas e a necessidade de investir em outras coisas, na tentativa de sair de um lugar que não quer ocupar. De todos os lados, no entanto, o que fica é a forma como nos relacionamos com o dinheiro, com investimentos, para continuar legados ou para evitar reproduzir formas de vida. Como diz Chociay, “cada geração é uma tentativa de corrigir a anterior e de sobreviver ao futuro”. Em um mundo de instabilidades constantes, construir o próprio futuro também significa decidir o que fazer com tudo aquilo que recebemos do passado.
*Giovana Devisat é designer de moda e historiadora da arte

