Créditos: Divulgação
08-10-2026 às 15h36
Direto da Redação*
Defender um ponto de vista sobre temas como aborto, inteligência artificial, mudanças climáticas ou redução da maioridade penal diante de uma plateia pode parecer um desafio reservado a universitários. A um mês da aplicação da prova de redação do Enem 2026, marcada para 8 de novembro, estudantes do Colégio Estadual João de Oliveira Franco (JOF), em Curitiba, já colocam essa habilidade em prática desde o início do ano. A experiência faz parte da rotina dos estudantes do ensino médio que participam do projeto Debatedores Nota 1.000, desenvolvido pela Uninter. A iniciativa utiliza o debate como ferramenta para desenvolver argumentação, pensamento crítico, escuta ativa e capacidade de análise, habilidades que também fazem diferença na redação do Enem.
Em um contexto em que manter os jovens engajados na escola continua sendo um dos principais desafios da educação brasileira, iniciativas que ampliam as experiências oferecidas aos estudantes ganham cada vez mais relevância. Segundo dados do UNICEF, cerca de 993 mil crianças e adolescentes de 4 a 17 anos estão fora da escola no país, dos quais aproximadamente 440 mil têm entre 15 e 17 anos — justamente a faixa etária em que o risco de evasão escolar é maior.
É diante desse cenário que projetos voltados à inovação e ao protagonismo estudantil vêm sendo incorporados à rotina escolar para ampliar as experiências de aprendizagem e fortalecer o vínculo dos jovens com a escola. Os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2025, divulgados em agosto de 2026, posicionam o Paraná no topo do ranking nacional da educação pública. No período avaliado, todos os colégios estaduais parceiros da APG.Gov apresentaram evolução, com destaque para os anos finais do ensino fundamental, em relação a 2023, com a média passando de 5,2 para 5,6. No ensino médio, a maioria das escolas avançou na média de 4,7 para 5. Nas duas etapas, os resultados ficaram acima da média nacional e da meta histórica estabelecida pelo Inep.
No JOF, os participantes do Debatedores Nota 1.000 passam meses estudando temas da atualidade, pesquisando diferentes perspectivas e treinando a construção de argumentos. Além das competições interescolares, os estudantes participam de debates internos semanais, nos quais colegas atuam como jurados e avaliam critérios como consistência dos argumentos, clareza, capacidade de improvisação e respeito ao contraditório. A metodologia estimula competências como pesquisa, interpretação, organização das ideias, trabalho colaborativo e comunicação, habilidades cada vez mais valorizadas tanto no ambiente acadêmico quanto no mercado de trabalho.
Os reflexos também se manifestam na trajetória dos participantes. Segundo a escola, estudantes envolvidos no projeto já conquistaram bolsas integrais para o ensino superior, aprovações em universidades federais e melhoria no desempenho na redação do Enem, resultados atribuídos ao exercício constante da argumentação e da construção de repertório.
Para Frederico Melo, diretor-executivo da APG.Gov, iniciativas como essa ajudam a transformar a relação dos adolescentes com a aprendizagem. “A escola precisa voltar a fazer sentido para o adolescente. Quando ele percebe que pode participar, criar, discutir problemas reais e desenvolver habilidades úteis para sua vida, o aprendizado deixa de ser apenas uma obrigação e passa a ser uma experiência significativa”, afirma.
A diretora do Colégio Estadual João de Oliveira Franco, Viviane Kregenski Buch, destaca que o projeto representa uma mudança na forma como os estudantes vivenciam o processo de aprendizagem. “Além de fortalecer as competências de comunicação, o projeto Debatedores contribui para o desenvolvimento dos nossos estudantes ao estimular a participação democrática e a resolução de conflitos por meio do diálogo. Os participantes também aprimoram habilidades como trabalho em equipe, organização, liderança e capacidade de análise, competências importantes tanto para a vida escolar quanto para a vida profissional”, ressalta.
Os resultados também são percebidos no cotidiano da escola. O professor Eric Batista, que leciona Língua Portuguesa e Inglês e acompanha o projeto, relembra a trajetória de João — nome fictício adotado para preservar a identidade do estudante. Em 2025, o adolescente conciliava o trabalho noturno com os estudos pela manhã, acumulava faltas e esteve perto da reprovação. “Os professores comemoravam quando recebiam um trabalho com seu nome. Para ele, a escola não fazia sentido. Queria apenas trabalhar”, relembra o educador.
A participação no Debatedores Nota 1.000 transformou essa realidade. “Agora ele sente que pode ser ouvido, discutir, falar e participar. Aquele aluno cansado e desmotivado deu lugar a um excelente debatedor, com confiança e discursos consistentes”, afirma Eric. Ao concluir o ensino médio, João conquistou uma bolsa integral da Uninter para o curso de Análise e Desenvolvimento de Software. Para o professor, o maior resultado vai além da aprovação. “Mais do que o debate, a diferença foi ele se sentir parte da escola”, conclui.

