Créditos: Divulgação
04-10-2026 às 09h16
Giovana Devisate*
Andei trabalhando em um projeto de muitas páginas e o processo de escrever algo grande é demasiadamente cansativo. No entanto, cuido das queixas que faço quanto a isso, porque sei do imenso privilégio que é trabalhar escrevendo, acima de tudo, porque amo escrever. Ainda assim, é terrível o lapso de tempo entre a página 80 e a 85. O tempo parece não passar, como se cinco páginas fossem muita coisa e como se a revisão, a releitura, a intervenção no texto com outras ideias fosse algo simples. Não é.
Quando Virginia Woolf diz que a mulher precisa de um espaço seu para que possa escrever, ela fala, além de outras coisas, sobre as formas pelas quais precisamos ocupar espaços e mais espaços para existir, não só no mundo, mas dentro das próprias vontades e dos próprios pensamentos. Já li o livro Um Teto Todo Seu mais de uma vez e acho genial.
No século XX, o acesso limitado das mulheres à sociedade fez a autora questionar inúmeras coisas que continuamos discutindo hoje, quase 100 anos depois. Ela percebeu, por exemplo, que quando um homem se refere à posição da mulher nesses contextos sociais e acadêmicos, ele não fala da inferioridade dela, mas da superioridade dele. Eles diziam: mulher não pode escrever, não pode ganhar dinheiro, não pode estudar… não pode, não pode, não pode!
O principal objetivo da autora era refletir exatamente sobre a dimensão material da escrita das mulheres. Não era do interesse da autora questionar o que ou como escrevem, mas como elas vão conseguir escrever. Ela chegou à conclusão que, para falar de mulheres e escrita, precisava primeiro falar sobre esse caminho nebuloso que as mulheres percorreram ao longo da história: sempre afastadas, apartadas, isoladas…
Não reclamo de trabalhar escrevendo porque amo escrever e porque é uma das coisas que melhor sei fazer na vida. Também, porque reconheço todas as dificuldades das mulheres que vieram antes de mim para que pudéssemos trabalhar, escrever, publicar, pensar, existir como indivíduo e tantas outras coisas. Em outra época, eu não poderia escrever assim. Por poder escrever, apesar de ainda existir preconceitos, podemos lutar por outros direitos.
O livro, baseado em palestras dadas pela autora em 1928, é um pouco anterior à conquista do voto feminino no Brasil. Foi em 1932 que, durante o governo de Getúlio Vargas, mulheres viúvas e solteiras com renda própria e mulheres casadas, com a permissão do marido, puderam votar. Funcionava assim: os homens davam o direito, mas não para todas, não em qualquer condição, não sem que eles percam o controle… Apenas em 1946 o voto feminino passou a ser obrigatório.
Em 2026, 80 anos depois, extremistas passaram não só a questionar as vacinas, como a opinar, nas redes sociais, sobre o voto feminino, sob a perspectiva de que mulheres deveriam perder o direito de votar, conquistado de maneira tão exaustiva há menos de um século. Eles podem questionar isso porque vivemos em democracia e a liberdade de expressão não pode ser negada, mesmo que as opiniões sejam absolutamente refutáveis.
Me lembrei do filme “Virtuosas”, com a Bruna Linzmeyer, que assisti esses dias no cinema. Não amei o filme, mas captei as críticas que a obra faz, especialmente sobre famílias antivacina, sobre a absoluta devoção da mulher cristã ao homem, sobre a única forma possível de contracepção aceita por elas ser o da observação do muco cervical… Mulher está para servir, para administrar o lar, para cuidar do marido e dos filhos.
Não venho questionar as opiniões. Cada um tem o seu próprio jeito de viver e a sua própria religião. Deus, no entanto, é um só. O meu e o delas e, para mim, pensar nos provérbios 31:10 como direção e ordenamento de vida é questionável.
O trunfo do filme está aí: mostrar que o verdadeiro terror não é uma distopia religiosa ou uma visão realista sobre a submissão das mulheres, mas uma mentalidade extremista que forma pessoas capazes de qualquer coisa para manter essa imagem perante Deus e perante a sociedade.
A trama, que tinha de tudo para ser muito boa, perde força no final, mas ainda assim representa bem a bolha asfixiante onde o fanatismo e a busca obsessiva por um papel feminino “tradicional” leva as mulheres a situações perturbadoras dentro e fora de casa.
Comecei a escrever pensando na relação entre o livro de Virginia Woolf e a minha escrita. Queria relacionar os desafios que vivo enquanto escrevo aos meus privilégios de poder fazer exatamente o que faço. Porém, dentro da liberdade que me cabe, como mulher que escreve (e que vota), fui desdobrando o texto de outra maneira. As associações, disse Ostrower, afluem em nossa mente com uma velocidade extraordinária.
Fui pensando em mil coisas e nem todas as conquistas cabem aqui. Voto feminino, escrita e carreira em geral, anticoncepção, divórcio, mas também crescimento das mulheres nas universidades e na ciência, maior liberdade sexual e autonomia reprodutiva, avanço nas lutas contra violência de gênero e ampliação da presença feminina na política e etc.
O que espero, sempre, é que ninguém perca o direito de falar, de se expressar, de trabalhar e de escrever. Ou, se essa for a sua vontade individual, de ficar em casa com os filhos, cuidar da família, servir ao marido e não trabalhar fora.
As que lutam estão sempre a postos, abrindo caminhos e reivindicando espaço no mundo, para todas. Que a escolha de uma não se transforme em imposição para outra. Que uma mulher possa escolher a vida que deseja sem que isso diminua o direito da outra de fazer diferente. Que a vontade de um grupo não seja capaz de ferir os direitos de todas. De opressão, basta a do próprio sistema.

