Créditos: Divulgação
03-10-2026 às 14h39
Rogério Reis Devisate*
O que diremos no futuro sobre o significado do cancelamento do debate presidencial? Talvez tenhamos chegado a um daqueles momentos singulares da vida coletiva em que a pergunta mais importante já não seja exatamente quem ganhará a próxima eleição, quais alianças se formarão ou para que lado penderá a engrenagem do poder, mas outra, anterior e menos confortável: estamos todos bem? A indagação admite o sorriso que provoca, pois acumulamos fatos capazes de nos deixar perplexos durante semanas e que, curiosamente, envelhecem antes do jantar, logo substituídos por novidades igualmente extraordinárias.
Luis Fernando Verissimo escreveu: “Não sei para onde caminha a Humanidade. Mas, quando souber, vou para o outro lado”, frase cuja ironia talvez sirva como advertência diante da confiança excessiva nas multidões e, por isso mesmo, no contexto de nova eleição, não nos fizesse mal uma espécie de terapia coletiva, destinada não a eliminar divergências, o que seria impossível e até indesejável, mas a recuperar alguma proporção entre paixão, realidade e responsabilidade.
Talvez estejamos exigindo das urnas aquilo que elas nunca prometeram entregar, como se, além de escolher dirigentes, o voto pudesse reconstruir confiança no país e nas instituições desgastadas, com reflexos imediatos em equilibrar contas públicas, modernizar estradas, elevar produtividade, fortalecer empresas e recompor o poder de compra da moeda, que perdeu aproximadamente 87% desde a criação do Plano Real. A experiência brasileira recomenda cautela, porque administrações, coalizões e prioridades mudaram sem que dificuldades estruturais desaparecessem, atravessando mandatos e exigindo recursos crescentes. Não adianta nascer no “berço esplêndido” e não saber o que fazer com tudo o que temos, porque território, população e recursos não produzem prosperidade automaticamente. Proteção e desenvolvimento precisam conversar sem ser confundidos.
É significativo que pensamentos quase antagônicos se encontrem nesse ponto, pois Smith relacionou a abundância social ao produto do trabalho; Marx colocou forças produtivas, técnica e cooperação no centro da dinâmica material; List distinguiu riqueza existente das capacidades aptas a criá-la; Einaudi associou melhoria duradoura do padrão de vida à eficiência; e Fourastié mostrou que redistribuir modifica quem recebe cada parcela, mas não multiplica aquilo que não foi produzido. Estagnação econômica e erosão da confiança não favorecem a produção de riqueza.
O cancelamento do debate presidencial oferece um exemplo de como a perda de previsibilidade institucional pode alcançar a sociedade, porque regras previamente conhecidas e ajustadas, ainda que apoiadas na legislação e na prática eleitoral, podem ser subitamente submetidas a decisões judiciais de última hora, alterando, em poucas horas, aquilo que todos os envolvidos imaginavam estar estabelecido. Talvez nossas eleições revelem precisamente a dificuldade de enfrentar esses temas, porque dedicamos energia extraordinária à disputa sobre pessoas e menos atenção às propostas, enquanto a política adquire comportamento de torcida, no qual a pergunta deixa de ser se determinada medida produzirá resultado para se tornar se favorece o nosso campo ou prejudica o adversário. Nesse ambiente, aquilo que se admite entre os próprios nem sempre se tolera nos demais, alcançando até as fake news, combatidas quando servem ao outro e sujeitas à indulgência quando confirmam aquilo em que desejamos acreditar, embora a falsidade permaneça injustificável, qualquer que seja sua origem ou beneficiário.
E eis que, enquanto estas linhas eram concluídas, a nossa imaginária terapia coletiva recebeu material que dificilmente um roteirista prepararia melhor: foi cancelado o último debate presidencial que ocorreria em grande emissora antes do primeiro turno. Debates não elegem presidentes nem substituem programas de governo, mas constituem um dos poucos momentos da campanha em que candidatos ocupam o mesmo espaço, submetem afirmações ao contraditório e respondem ao inesperado diante do mesmo público; a ausência de um deles diminui essa possibilidade, enquanto o desaparecimento do próprio debate a elimina para todos.
A comparação histórica é inevitável: em 2006, um candidato avisou de última hora que não compareceria ao debate da mesma emissora, mas outros foram e debateram por 1h50, tendo ficado vazia a cadeira do ausente, ao qual se formularam perguntas que ficaram sem resposta; vinte anos depois, o mesmo candidato decidiu não participar do encontro da emissora antes do primeiro turno, mas desta vez o TSE determinou que seu púlpito vazio não fosse exibido nem fossem simuladas perguntas ao ausente. Em seguida, outra decisão, esta do STF, assegurou a participação de um candidato. Na sequência, outro candidato anunciou que também não compareceria. Então, a emissora cancelou o encontro, por decisões judiciais de última hora que haviam alterado regras previamente ajustadas e gerado insegurança jurídica. A controvérsia ultrapassou imediatamente os interesses eleitorais, pois instituições se manifestaram, dentre elas a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), a Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ). Em nota conjunta, de 1º de outubro, as três entidades classificaram a intervenção judicial nas regras previamente definidas como “agressão à liberdade de imprensa” e sustentaram que também fora atingido o direito dos cidadãos de conhecer as propostas daqueles que se haviam disposto a participar.
Muito se falará sobre quem teve razão; mas será que alguém perguntará o quanto perdeu a democracia? Desapareceu mais do que o espaço no qual candidatos ainda dispostos a falar poderiam confrontar ideias diante dos eleitores; esvaziou-se também a previsibilidade construída sobre regras previamente conhecidas e sobre a experiência de 2006.
É precisamente aí que o episódio se acomoda no nosso divã, pois talvez importe menos proclamar imediatamente quem tinha razão do que perguntar qual critério adotaríamos se os personagens trocassem de lugar: se consideramos legítimo que determinado candidato não compareça por estratégia, manteríamos igual compreensão diante daquele de quem discordamos? Se censuramos quem depois também decide ausentar-se, aplicaríamos idêntico juízo ao primeiro? E, se em 2006 a cadeira vazia foi informação visível da ausência, enquanto em 2026 o TSE entendeu que o púlpito poderia constituir pressão indevida, permanece a pergunta: escolhemos o princípio antes ou depois de sabermos quem será beneficiado por ele? Princípios somente demonstram consistência quando sobrevivem à troca dos nomes inscritos nas camisas.
A controvérsia recente envolvendo Nossa Senhora Aparecida oferece outro teste para a nossa régua de julgamento, assim como a memória do episódio, bastante diferente, ocorrido em 2022, quando um templo da Igreja Universal, em Goianinha, teve a porta atingida com fezes, surgindo relatos de vinculação do episódio a participantes de carreata política sem comprovação conclusiva da autoria partidária. Os fatos não permitem equivalências automáticas, mas o padrão poderia ser mais simples — vandalismo continua sendo vandalismo e intolerância não se converte em virtude segundo a identidade de quem a pratique. Freud, em Psicologia das massas e análise do eu, Erich Fromm, ao investigar pertencimento e a atração por certezas capazes de aliviar a responsabilidade individual, e Ortega y Gasset, ao descrever aquele que toma a própria percepção como medida suficiente da realidade, oferecem chaves para fenômenos dessa natureza: cada campo identifica contradições alheias enquanto contempla as próprias através de lentes benevolentes.
Talvez precisássemos, portanto, daquela imaginária terapia coletiva em cuja primeira sessão cada um pudesse enumerar incoerências do lado oposto até que surgisse a pergunta incômoda: e quando algo semelhante ocorre entre aqueles com quem você concorda? Noutra, dedicada às propostas e não aos personagens, seria necessário indagar quanto custa o que se promete, de onde virão os recursos e por quais indicadores saberemos depois se determinada política funcionou, porque uma democracia organizada ao redor dessas questões talvez ofereça menos espetáculo, mas escolhas mais informadas. A eleição, que se mantém sempre no altar da democracia, deixaria de ser tratada como rito mágico.
Governos passam, enquanto empregos, escolas, portos, empresas, dívidas, pobreza, qualificação, capacidade produtiva, industrialização e competitividade internacional permanecem, de sorte que talvez este seja o ponto suso referido para o qual toda a terapia conduziria: quando recomeçarem as perguntas sobre nomes, pesquisas e possibilidades de vitória, valeria formular outra, menos emocionante e mais importante — como estamos? —, pois, se conseguíssemos responder sem procurar imediatamente um culpado do outro lado, talvez descobríssemos que algumas sessões de terapia coletiva poderiam não nos fazer mal, sendo possível que uma delas consistisse apenas nisto: trocar os personagens de lugar e perguntar se nossa indignação permaneceria exatamente a mesma.

